Um leitor conta o seu drama: poesias matam sentimentos?

Revisitando minha novamente reagrupada biblioteca, encontro um antigo Neruda, “Cem sonetos de amor”. Ainda está com marcas, de tempo e de leituras passadas. É um bravo soldado que já sobreviveu a algumas leituras, possuindo o corpo repleto de cicatrizes. Entre elas, destaca-se um poema:

“Tenho fome de tua boca, de tua voz, teus cabelos
e pelas ruas vou sem me nutrir, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desconcerta,
procuro o líquido som de teus pés pelo dia.

Faminto estou de teu sorriso resvalado,
de tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome de pálida pedra de tuas unhas,
quero comer tua pele como intacta amêndoa.”

Não sei por qual motivo ou circunstância destaquei este poema no passado. No entanto, ele me faz recordar uma história que um leitor me relatou. Em um conto de Nikolai Leskov, “A propósito de a Sonata a Kreutzer”, ele afirma que escritores possuem o estranho dom de atrair narrativas esdrúxulas e fazer com que pessoas venham contar-lhe histórias em busca de um conselho fora do normal ou uma visão alternativa do problema. No conto em questão, uma jovem senhora aconselhava-se com Dostoiévski (aham, ela estava mal de “escritor conselheiro”) e, diante do seu falecimento, procurou a sabedoria de Nikolai Leskov (continuou no primeiro time de escritores russos). Eu achava que este hábito das mulheres russas tinha se perdido no tempo, mas, como pude constatar nos últimos tempos, as pessoas ainda procuram escritores para confidenciar os seus problemas.

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Voltando à história: narrou o leitor que, toda vez que vai cortejar uma moça, é naturalmente impelido para a poesia. Não tem coragem para escrevê-las e, por este motivo, utiliza os autores clássicos. Todas as moças ficam naturalmente encantadas pelas palavras que lhes são ofertadas, o que o leva a continuar mandando mais e mais poesias, em um crescendo de poetas, de estilos e de imagens. O problema é que, em determinado momento, ele sente que a moça se distancia, fica fria e taciturna e a relação deles acaba esfriando. Ele acha que a poesia mata o sentimento. Em última análise, pensa que os poetas são os responsáveis tanto pelo surgimento do amor quanto pelo seu desaparecimento. Perguntou-me como fazer para identificar, no meio das poesias com que presenteava, qual era o estilo exato que matava o amor ao invés de fortalecê-lo. Ainda assim, sabia que bastava se interessar por alguma moça e logo a poesia faria o seu doce chamado e ele entraria na esparrela de mandar um poema atrás do outro até acabar com o sentimento genuíno surgido no casal.

Desconheço o motivo pelo qual me perguntam coisas pelas quais não me interesso em absoluto, mas a pergunta era gentil e a dúvida um pouco inquietante. Após alguma conversa com o leitor, analisei a situação por outro prisma. Não existia uma poesia capaz de matar um sentimento, isto era um absurdo. O problema, como sempre, estava no excesso de poesia. Eram tantas palavras bonitas, tantas imagens poéticas, tantas construções sonoras, tantos ritmos e singularidades, que a pobre moça recebia uma overdose sentimental que lhe impedia de usufruir o sentimento real. E deveria ser algo viciante, tanto para quem mandava a poesia quanto para quem a recebia, que não conseguia deixar de lê-la e tentar entender, no meio da construção e estrutura de um poema, qual a mensagem cifrada que tentava ser transmitida. O rapaz alimentava a planta do amor com água poética em demasia.

Sócrates já dizia que a literatura é algo prejudicial, pois afeta a nossa memória e nos impede o livre sentir de uma situação, que fica preso à intenção do autor. Ao encher as suas adoradas de poesia, o leitor deixava de ter uma voz e assumia o melífluo tom de uma entidade incórporea, a Musa da Poesia. Em suma: ele fazia as moças se apaixonarem por palavras, não por ele. E não é só o lutar com palavras que é uma luta vã; apaixonar-se por elas também é.

Esta história ressurgiu ao reler a poesia de Neruda. Eu já disse, em algum momento deste blog, que considero que a melhor poesia é aquela que traz, no seu bojo, uma espécie de metapoesia, um refletir sobre a sua própria existência. E o poema de Neruda trata disto, por trás da enganadora e primeira impressão de que um apaixonado sonha possuir por inteiro o corpo e a alma de outra pessoa, degustá-la como se fosse um alimento, em um sentimento tão intenso de posse que o outro precisa ser assimilado para dar conta de tamanha voracidade.

Também pode ter outro significado: é a poesia dizendo que vai devorar a alma do leitor, devassá-lo, mudar a sua vida e, no ponto final, descartar a mente utilizada como se fosse uma casca sem utilidade. A poesia fala através das palavras de Neruda, dizendo a crueldade que pretende realizar, que pretende possuir sem pena e assimilar o leitor, esvaziar os seus sentimentos.

Talvez Sócrates tenha razão e as palavras sejam realmente veneno. Talvez a poesia tenha sido criada para matar o sentimento: encarcerá-lo e destruí-lo. Talvez todos os poetas sejam pequenos assassinos caminhando impunemente pelo mundo e as palavras, suas adagas cravadas nos corações alheios, sangrando os sentimentos com a sabedoria de um urubu.

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2 Comentários

Arquivado em Filosofia, Generalidades, Literatura, Nikolai Leskov, Pablo Neruda, Poesia, Sócrates

2 Respostas para “Um leitor conta o seu drama: poesias matam sentimentos?

  1. Gustavo, curiosa essa história de leitores virem ao teu encalço para conseguir conselhos, como se um autor soubesse mais sobrea vida, sobre o sofrimento ou sobre o amor. Vem isso também lá da antiga Grécia?
    Nesse ponto, mais uma vez, não posso deixar de pensar no Stálin que acreditava (ou fingia acreditar) serem os escritores engenheiros da alma, o que me parece uma rematada bobagem.
    Enfim, acho que o problema do teu angustiado leitor era que a poesia era apenas uma casca, ou como uma flor cortada do pé; bonita por alguns dias, mas já promessa de morte.
    E tudo em excesso é ruim, não? Até mesmo a poesia.
    Um abraço,

    • Oi, Alexandra, a julgar pela narrativa do Leskov, não sou o primeiro e nem serei o último escritor a ser consultado pelos meus poucos e aflitos leitores. Gosto um monte deste intercâmbio de ideias e de situações, e espero que meus conselhos sejam úteis.
      Muito legal esta tua imagem de que a poesia é apenas uma casca ou uma flor cortada do pé; por algum tempo ela presta ao seu desígnio, mas logo se torna a exibição de uma pequena morte.
      Tudo em excesso é ruim. No caso deste leitor, ele consegue expor tanto as moças às palavras poéticas de outras pessoas que acaba sendo sepultado por elas. Um abraço, e obrigado pela leitura

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