A vida não ensina tanta coisa

Nos últimos tempos, tenho aprendido – a duras penas – que a vida não ensina quase nada. Somos atores que entram no meio de uma peça e precisam descobrir o enredo, os outros personagens e as nossas falas enquanto a tragédia (ou comédia) acontece. A vida é cruel, e esta é a primeira coisa que ela não ensina: quando você aprender qual é o sentido e distinguir o número do tijolo que a sua vida representou no muro da história humana, você já não estará vivo ou – se ainda estiver – verá que não valeu a pena. Somos criaturas feitas de descontinuidade; pequenos rasgos de luz no meio de nuvens negras que logo nos apagam.

Enquanto isto, a vida continua dando uma lição atrás da outra, exibindo o seu conhecimento vasto diante da minha ignorância. É como o bedel de um colégio, com a diferença de que o sermão e o sorrisinho irônico nunca terminam. A vida faz uma longa preleção, divertindo-se com os nossos frequentes enganos, com as confusões, com os nossos desesperos de existir em um mundo cheio de regras, códigos, dores, sabores e desgostos que precisa ser compreendido enquanto o jogo acontece, enquanto todo mundo faz o mesmo ao seu redor.

A vida não me ensinou quanto tempo é prudente esperar até que uma erupção no rosto necessite de tratamento médico. A vida não me ensinou como explicar ao médico a infinitude da dor de ter um ouriço quente retorcendo-se na bochecha. No canto do consultório, invisível, a vida ri enquanto o médico me repreende: deveria ter procurado ajuda antes, deveria deixar o assunto para os especialistas, deveria ter feito o contrário. Já é passado, mas as recriminações continuam.

A vida não me ensinou o que dizer ou fazer quando alguém está tão desesperançado que nem mais palavras possui. Não me ensinou como manter acesa uma luz que está nos seus estertores. Não me ensinou como farei para viver depois que a luz se apagar, quando menos uma pessoa estiver no mundo. Não me ensinou a me despedir ou a dizer “olá”: precisei aprender na porrada, e tanto um quanto o outro são igualmente dolorosos e difíceis.

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Talvez eu não tenha sido um bom aluno, pois nunca aprendi quando a risada é espontânea ou quando o choro é honesto. Evito ambos, para não cair no erro. Não aprendi quando a ironia se torna espada, quando a palavra se torna pedra, quando o silêncio se torna soco. Vou descobrindo enquanto ando e, assim, meu caminho é feito de cadáveres de sentimentos, de fantasmas de boas intenções, de pessoas mutiladas pela minha inabilidade. Pediria perdão, mas também não sei se, quando faço isto, está correto ou se é outra agressão.

Não sei quais são os protocolos que devem ser seguidos para sofrer: demonstrações públicas de dor? Ranger de dentes? Explosões de sentimentos incontroláveis? Recolhimento monástico em algum lugar fechado? Desconheço como expor o sofrimento, e desconheço até mesmo se algo tão íntimo deve ser mostrado. Da mesma maneira, a minha existência seria muito mais fácil se eu soubesse demonstrar o prazer que sinto quando me deparo com o inefável, com a simplicidade de uma declaração inesperada, com o vazio de uma surpresa, com o espanto de um reencontro. Na dúvida, e como toda reação parece falsa e desproporcional ao sentimento que vivencio, prefiro ficar inerte.

Não aprendi como desligar a preocupação que me acomete, no meio do dia, de ter esquecido as chaves do apartamento em algum lugar e não poder entrar em casa. Não sei como desejar felicidades a alguém sem soar hipócrita. Não aprendi a dignidade de perder e muito menos a forma com que se comemora o júbilo. São fatos que vou aprendendo no susto, à medida em que eles acontecem, e não me espanto quando vejo pessoas chorando na alegria ou rindo na tristeza. Somos todos aprendizes, e erros são frequentes.

Não sei absolutamente nada sobre o Tempo, e a vida mantém um silêncio desconfortável sobre este assunto. Quanto tempo dura uma recordação? Nos últimos tempos, tenho lembrado de pessoas mortas: é meu destino lembrar de forma reiterada de pessoas que já não mais estão no mundo? Se for verdade, a vida não tem decência alguma em me manter preso no passado. Quanto tempo dura uma alegria? Em qual momento a risada vira escárnio? Em qual segundo exato um livro ruim é esquecido? A vida não ensina quanto tempo é necessário para construir a felicidade; talvez estejamos sendo felizes agora e nunca descobriremos. Ou talvez a felicidade não exista, e o Tempo seja um agulhão que se retorce no nosso espírito, trazendo imagens do passado e visões do futuro, desesperança e ilusão, fumaça e concreto.

A vida não nos ensina a amar. E nunca ensinará: prefere ficar rindo das nossas tentativas desajeitadas. Não fomos feitos para amar; o amor é uma excrescência, um deslize, um passo fora da linha dado pelo equlibrista.

A única e terrível lição que a vida ensina, de forma incessante, é que ela acabará. Coloca a espada no nosso pescoço e manda-nos ser alegres, sorrir, sofrer, ter dignidade ou ser um crápula, mas anuncia que, em algum momento, com um leve deslizar da sua mão emplumada, mexerá a lâmina e nos fará encontrar a efemeridade. Logo que abrimos os olhos e aprendemos a aspirar a primeira lufada de ar, a vida começa a contagem regressiva. Mas, até chegar no último segundo, serão inúmeras as lições que não aprenderemos, e continuaremos a viver como se fôssemos os caóticos carrinhos bate-bate de um parque de diversão.

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7 Comentários

Arquivado em Crônicas, Generalidades, Impressões, Produção Literária, Vida

7 Respostas para “A vida não ensina tanta coisa

  1. Belíssimo texto! Muito bem complementado pela ilustração (é sua tb?).

    É um sentimento recorrente esse “faria tudo diferente se soubesse ontem o que sei hoje”. Síndrome de reset. É um pensamento que eu tento evitar, porque no fim, não leva a lugar nenhum. No fundo, eu sei que se me dessem mil chances de viver a vida, eu erraria 1000 vezes de forma diferente. Sad but true! 🙂

    • Obrigado! Não, a ilustração não é minha, foi algo que recebi por email no moemnto exato em que estava fazendo o texto, foi uma coincidência incrível e decidi aproveitar, ainda que desconheça o autor.
      Eu também procuro evitar este pensamento de que faria tudo diferente se pudesse fazer novamente. É algo debilitante, típico de quem não consegue se desfazer do passado. Também prefiro cometer novos erros. E, mesmo sendo dolorido admitir que ainda vou errar muito e me entristecer demais, ainda assim vale a passar por este vale de lágrimas. 🙂

  2. elizabeth

    lindo! lindo! lindo! Mas, calma lá, meu rapaz! A vida é cheia de ires e vires. Com muita calma e tranquilidade encontrarás a tal felicidade! E, quem disse que ela não está à espreita, bem pertinho de ti…. Quem sabe começas a olhar para todos os lados e procurar nas coisas mais simples por ela. É uma questão de tempo. Tu mereces!
    beth

    • Opa, opa, opa. Está tudo tranquilo. Estou falando em tese, mais por causa dos problemas de saúde que me acometeram e me deixaram meio sem saber qual era a ordem de prioridades que eu deveria cuidar. Não confundo muito o que eu escrevo com o que eu sinto, é uma falácia da qual tento me distanciar (uma das lições que aprendi na porrada na vida, heheheheh). Obrigado pelo comentário, mãe, um beijo.

  3. Clarissa

    Irmaozinho, ignorancia e felicidade, quanto mais se sabe mais dificil fica de ser feliz. Como es um cara muito sabido, tens que fazer um esforco quase sobre humano pra se distrair dos pesares e aproveitar as pequenas coisas da vida (pois e nessas coisas que esta a felicidade, penso eu, nao nos grandes acontecimentos que podem ou nao vir, ou de repente quando vem nao sao nada do que a gente queria).

    • Minha cara (e longínqua) irmã, obrigado por me considerar um cara muito sabido e, concordo, ignorância é felicidade, saber muita coisa é um suplício. Não sei tanto quanto gostaria, como ando aprendendo a duras penas, mas tenho disposição para tanto. Não se preocupe com a ideia de que espero grandes acontecimentos ou viradas em busca de uma eventual felicidade; sempre desacreditei deste conceito, continuo achando que a felicidade é um acidente de sol em dias nublados. Penso mais no aspecto instrumental: existem tantas coisas que precisamos aprender na marra, durante a vida, no meio do jogo, que tenho a sensação de que, quando enfim aprendermos, já será tarde demais para usar este conhecimento, até por que continuamos errando. Um beijo, e obrigado pela leitura, irmãzinha

  4. Kelli Pedroso

    Lindo o texto! Caiu como uma luva, como alguns dizem. Eu estou cheia de dúvidas, e creio que nunca terei a maioria das respostas.

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