De Quincey e o meu problema com álcool

Na Noite de Ano Novo de 2012, ao abrir a geladeira, deparei-me com um produto assaz espantoso: uma garrafa de vinho. Quem me conhece sabe que sou semi-abstêmio, raramente bebo álcool (somente em ocasiões festivas e com pessoas especiais) e gosto de bebida mais por que acho as garrafas bonitas. Tal circunstância não me impediu de realizar quatro cursos de degustação de vinho e espumantes, mas o simples fato de não lembrar nada daquilo que deveria ter aprendido atesta a pouca importância que dou ao tema.

Gastei alguns segundos pensando em como a garrafa tinha escalado o prédio e se insinuado na geladeira, mas logo recordei que tinha sido o gentil presente de final de ano dado por um casal de amigos. Como não sabia onde colocá-la, acabei botando na geladeira e, naquele momento, ela devia estar em uma temperatura supostamente agradável – ou, ao menos, gelada.

A televisão anunciou o início de “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, do Stanley Kubrick. Adoro este filme, já o assisti algumas vezes e o fato de alguma alma caridosa colocá-lo para passar na Noite de Ano-Novo quase me fez acreditar que existe um desígnio divino.

Enquanto o filme começava, eu olhei a garrafa de vinho e pensei: por que não? Estamos nós dois aqui, em silêncio, e precisamos resolver a nossa relação de alguma forma. Abri o vinho, servi-me de um cálice e, enquanto assistia ao filme, fiquei sorvendo a beberagem.

Não sei o que aconteceu. Bebi somente uma taça, esta é a triste verdade. Talvez tenham sido duas, não lembro direito, mas a garrafa de vinho ainda existe, não passou disto. O fato é que, de repente, do nada, o filme começou a fazer sentido. Elaborei uma teoria altamente complexa que explicava tudo, desde a rebelião de HAL até o monolito. Tudo parecia tão óbvio, tão singelo. A imaginação traçou caminhos inéditos, unindo pontos distantes de compreensão, aproximando ideias contrárias como se fossem velhas amigas, criando novas chaves de interpretação. Em silêncio, eu me regozijava eternamente por, enfim, ter atingido o nirvana do entendimento absoluto de uma obra feita com um alto grau de abstração. Naquela noite, fui dormir o sono dos que entenderam o mundo.

É evidente que, no dia seguinte, ao acordar, não lembrava de mais nada. Quase não recordava que tinha assistido ao filme. A teoria se desvaneceu, e não sei se ela fazia sentido ou se tinha sido algum delírio. Entrou para o gigantesco rol de coisas geniais e inovadoras que esqueci.

Desde criança, sempre fui muito resistente aos pretensos fascínios do álcool.  Nem tanto por receio de falar bobagem ou de cometer alguma indiscrição (acreditem, as pessoas realmente falam muitas bobagens e cometem muitas indiscrições quando estão sob os efeitos do álcool). O meu problema com álcool é o mesmo que possuo com qualquer tipo de substância entorpecente: toda coisa capaz de alterar meu estado de atenção ou nível de captação do mundo é algo perigoso por natureza. Isto por que eu vivo em um mundo onde a mínima distorção pode ter efeitos catastróficos, onde o menor detalhe capaz de deturpar a minha atenção pode significar muitos problemas. O álcool abre portas que é melhor manter fechadas.

Não é que eu não saiba beber, pois sei. Bebo em raras vezes e com extrema moderação. Aliás, quando a pessoa sabe beber e consegue se manter na cerca que separa a inconsequência da felicidade, dizem que é um dos melhores estados que alguém pode passar. Sim, já tomei meus porres de adolescente, e o próprio uso do plural significa que demorei a entender as consequências do álcool sobre meus sentidos. No entanto, desde o momento em que comecei a escrever, cresceu a consciência de que prefiro a minha voz narrativa interna límpida, distante de qualquer interferência. Minha Musa interna só toma água do Parnaso, não suja seus lábios de morango com substâncias perigosas.

Sei que muitos escritores bebem para escrever, mas qual seria o custo deste afrouxamento da sua concentração? Na minha opinião, alto demais. Não é bebendo que a imaginação vai ser tonificada ou diminuída. Penso que o álcool escreve muitas páginas por muitos escritores, e ele não é um bom conselheiro. Acho até meio clichê a pessoa dizer que bebe para escrever melhor. Surpreendente seria o cara dizer – como eu – que toma chá ou água gelada enquanto escreve.

Talvez tenha sido esta constatação que me fez ficar distante dos efeitos do álcool. Ou talvez tenha sido a constatação de que a lâmina da imaginação precisa ser mantida sempre limpa e imaculada, pronta para o uso quando for necessário. Ou – a hispótese mais provável – para que entorpecer os sentidos com um meio físico quando é tão mais divertido deixar eles virem à tona sem intermediários desagradáveis? Algumas pessoas pensam que só conseguem ver o demônio da imaginação enganando os sentidos, mas não percebem que o demônio vem de qualquer jeito, e a única diferença é que, tentando colocá-lo atrás de uma névoa de álcool,  só está prorrogando o encontro com o inevitável.

Não julgo quem bebe ou quem se droga para escrever. Chama minha atenção que, indo para o trabalho às 08 horas da manhã, passo por colégios estaduais onde vejo meninos e meninas fumando maconha e bebendo cerveja. Sim, às 08 horas da manhã. E penso o quanto as pessoas precisam de entorpecentes físicos para turbinarem as suas vidas, esquecendo-se que o verdadeiro ópio é mergulhar na mente e deixar a imaginação correr como um cavalo furioso pelas pradarias.

Falando em ópio, lembro de um delicioso livro que li alguns anos atrás e cuja recordação sempre me surge quando penso em bebidas, drogas e estas coisas que as pessoas acham divertidas e me parecem enfadonhas. Quando Thomas de Quincey escreveu “Confissões de um Comedor de Ópio”, pretendeu registrar, com a maior fidedignidade possível, os efeitos do ópio nas suas sensações. Na maioria do tempo ele glorificou o estado lisérgico que o ópio lhe proporcionava, ainda que, especialmente na parte final, tenha tentado se desvincular de tamanho vício. Mais um dos escritores que chamo em silêncio de “pussy”, por ser incapaz de sustentar a sua rebeldia até o final (uma hora farei uma lista com outros escritores, preparaem-se, cabeças irão rolar).

O estilo da obra é praticamente uma carta confessional, passando uma certa impressão de cinismo: De Quincey idolatra o uso do ópio, revestindo esta homenagem de uma mal-disfarçada repugnância. É um discurso favorável usando a negação como forma de convencimento, algo que, em termos de retórica, sempre é meritório de realizar.

Thomas De Quincey

Thomas De Quincey

Interessa-me no livro os relatos de como o ópio afetava a sua visão de mundo. O tempo parecia mais lento; a respiração tornava-se compassada; as fronteiras do real se dissipavam e ele sentia o universo inteiro ao redor do próprio corpo, como se fosse parte de um todo maior. Ele considera que a sua literatura nasce deste desvanecimento dos sentidos, como se mantê-los em estado de prontidão implicasse em não conseguir atravessar as fronteiras do imaginário. Sempre me perguntei como seria a obra de De Quincey sem ópio, como seria a sua visão de mundo. Pois tenho a teoria de que tudo continuaria igual; a substância entorpecente só proporcionava uma diminuição das barreiras sociais, algo que pode ser conseguido sem o prejuízo dos próprios sentidos e sem ser escravizado por um vício. Nas suas próprias palavras, graças ao ópio, “desenredei, quase até o último nó, o emaranhado de cordas que me atava.”. Ou seja: De Quincey imaginava-se libertado pelo ópio, mas, na realidade, só estava se enganando. Interessante que as pessoas mais tímidas que eu conheço usam o álcool como uma muleta para se relacionarem na sociedade.

O autor também relata vários sonhos que teve sob alegada influência do ópio. A obra transcorre em um estágio lisérgico, alternando relatos de como o ópio afetava as suas sensações com sonhos distorcidos. Baudelaire também tratou da influência do ópio na sua obra “Paraísos Artificiais”. Por influência destes dois autores, muitos artistas acostumaram-se a achar que a droga ou a entorpecência é a melhor forma de fazer a arte aflorar – algo que acho completamente questionável. Tanto De Quincey quanto Baudelaire eram escritores talentosos sem o uso do ópio. Talvez tal substância tenha modificado algo da sua visão de mundo, mas  dizer que lhes trouxe talento é um longo caminho a percorrer.

De certa maneira, De Quincey previu o surgimento do álcool como forma de substituir as sensações do ópio, quando escreveu, com certa dose de nostalgia: “A felicidade podia agora ser comprada com uma moeda e carregada no bolso do casaco: êxtases portáteis poderiam ser engarrafados e a paz de espírito poderia ser remetida em galões pela diligência do correio.” Mas em seguida acrescenta, repleto de picardia, um vigoroso elogio do ópio como uma melhor forma de entorpecimento, algo que os homens usavam ao invés do álcool, feito para principiantes; “Mas, como não acredito facilmente que um homem que tenha experimentado uma vez a divina luxúria do ópio se contentará com os prazeres grosseiros e mortais do álcool, dou por garantido que agora o comem os que nunca comeram; E os que sempre comeram agora comem ainda mais.”

A leitura de Thomas De Quincey me diverte de várias formas. Em especial por ver várias pessoas que conheço repetindo os mesmos dramas quase sem pensar, em uma atitude que ultrapassa o clichê e praticamente se torna um esquete cômico engessado, daqueles que rimos sem nem mais saber o motivo.

Em alguns momentos de fraqueza, penso que a minha vida seria muito mais simples se eu seguisse esta convenção social e passasse a ingerir álcool com mais frequência. Contudo, assim que estes pensamentos aparecem, eles são prontamente rechaçados. Já diz a Bíblia: não deves servir a dois senhores. Considero incongruente manter um ofício literário de qualidade com perder a agudez dos sentidos de vez em quando. A limpidez dos meus sentidos não me pertence; não sou dono da minha vontade, sou escravo de outro ser. A Musa me chicotearia até cansar se eu estendesse um copo de vodka para ela. Inclusive tenho um pouco de desprezo pelas pessoas que usam a facilidade de abrir uma garrafa para esconder seus pensamentos no interior do enganoso líquido.

Mesmo diante de restrições tão severas, não consigo deixar de me divertir ao imaginar que se consegui, mediante a ingestão de uma ou duas míseras taças de vinho, decodificar e entender “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, o que eu poderia fazer se tomasse uma garrafa inteira? Ou duas? No mínimo, a cura do câncer. Ou o sentido da existência. Ou a linguagem de Deus. Alguma coisa ia sair, mas ninguém saberia, pois eu estaria ou desmaiado ou com a fala irremediavelmente comprometida.

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2 Comentários

Arquivado em 2001 - Uma Odisseia no Espaço, Álcool, Charles Baudelaire, Confissões de um Comedor de Ópio, Generalidades, Stanley Kubrick, Thomas De Quincey

2 Respostas para “De Quincey e o meu problema com álcool

  1. Kelli Pedroso

    Eu penso como tu, ou seja, após alguns cálices (ou até mesmo algumas garrafas), a qualidade da escrita fica um tanto questionável.
    Eu bebo para relaxar. Procuro não ultrapassar do estágio “levemente embriagada”. A maioria dos bêbados se tornam chatos. Conheço apenas duas ou três pessoas que não perdem a compostura (?) ao beber.

  2. Incrível após tantos anos, encontrar alguém que pensa como eu penso. Eu bebi algumas vezes durante a adolescência também, mas um dia percebi que não gostava de quase nada daquele ritual esquisito. Não gosto de perder o equilíbrio (talvez por consequência de um problema que tenho no labirinto, que tb me impede de apreciar montanhas-russas); não gosto de perder amarras sociais que me levavam a fazer e dizer coisas que eu me arrependeria depois; e, acima de tudo, não gosto do sabor de nenhuma das bebidas que provei até hoje, e já provei das mais diversas, nem mesmo em medicamentos ou biotônico fontoura.

    Eu não bebo e nunca me arrependi “que pena eu não ter bebido aquele dia”. Vc já se arrependeu “eu devia ter bebido menos”? Acho que todo mundo que bebe, já.

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