Um breve elogio da banalidade

Ano novo, postagem nova. É inusitado começar um ano fazendo um louvor à banalidade, este óleo essencial que lubrifica a criatividade humana, mas só vejo pessoas escrevendo e falando sobre coisas sérias, ignorando a importância dos assuntos genéricos que infestam o nosso cotidiano com o seu rosário de singelas maravilhas e decepções.

O excesso de seriedade prejudica a apreensão exata do tema discutido. Vejo canais de televisão entregues à sanha absurda de analisar detalhes da economia, da política e da religião, como se fosse possível quantificar e esquematizar tais áreas; o futebol próprio tornou-se algo repleto de detalhes e estatísticas. Os programas que se dedicam aos assuntos banais são repletos de regras, tentando transformar pequenas diversões em um assunto sério. Entre eles, os mais circunspectos são aqueles que tratam da vida banal das celebridades, procurando motivos ou justificativas para alguém comprar um jacaré, outra mulher ter largado um ator famoso, um cantor exigir 200 toalhas brancas no seu camarim. Talvez não exista motivo; visto sob uma lupa, qualquer um possui estranhezas difíceis de explicar em termos racionais. Mesmo assim, a ansiedade de encontrar relações entre pessoas e aquilo que elas fazem transforma os repórteres em fac-símiles de Sherlock Holmes, ainda que as suas deduções sejam repletas de clichês e obviedades.

Defendo a ideia de um programa de televisão repleto de caos. Uma obra aberta, cheia de banalidades, algo capaz de instruir o cérebro do espectador a buscar a dissonância que cerca a sua vida com pequenas gotas de fantástico.

Existe uma desagradável tendência do mundo moderno de parecer sério e responsável, como se a banalidade fosse algo proibido. Na literatura, este movimento é especialmente declarado. Considera-se boa literatura aquela que aborda assuntos sérios ou que possua algum grau de imanência. Tornou-se costume abordar os livros sob o enganoso critério da sua relevância pessoal ou em descrições amplas que chegam a assustar: “o livro trata da finitude humana diante do abismo existencial”, “o livro aborda a fatalidade do homem como ser individual”, “a obra responde à angústia emocional do seu autor”. Em tal concepção, livro bom é aquele que tenta provar algum ponto de vista e, quanto mais próximo estiver da realidade do autor e daquilo que sabemos da vida do demiurgo, melhor será.

Por consequência lógica, livros que não representam alguma espécie de ganho pessoal para o leitor, ou que tratam de irrelevâncias, são literatura ruim, descartável. Quando os escritores notaram esta tendência do público de desejar algo que represente um ganho emocional, cortaram o intermediário: deixaram de escrever histórias e foram direto para as pseudo-lições de vida ou mensagens gratificantes.  É impressionante a quantidade de pessoas que se aproximam de mim dizendo que leram livros de auto-ajuda. Em seguida, pedem para que eu pare de escrever literatura e passe diretamente para as mensagens, que são mais fáceis de entender do que o trabalho mental que é decodificar a mensagem estabelecida em uma narrativa literária.

A banalidade se esconde nas insignificãncias. Um quadro de Alfred Sisley: "Mulheres indo para as árvores" (1866).

A banalidade se esconde nas insignificãncias. Um quadro de Alfred Sisley: “Mulheres indo para as árvores” (1866).

Por incrível que possa parecer, a melhor maneira de valorizarmos os assuntos sérios passa pela banalidade. Precisamos ser banais e irrefletidos, precisamos deixar a mente como uma tábula rasa para que a seriedade do cotidiano nos atinja com maior energia. Precisamos ser absurdos, no melhor estilo de Camus em “O mito de Sísifo”: o sentido da vida não existe além da compreensão que nossa consciência lhe confere, pois a vida é uma questão da consciência de cada um. Para vivermos plenamente, para o conhecimento absoluto, precisamos partir da ideia de que viver é um ato sem sentido e absurdo. Sabendo disto, nossa existência torna-se uma revolta contra a falta de sentido do universo, o que nos permite, pela primeira vez, vivermos de forma livre, sem amarras, sem buscar a explicação para tudo. A banalidade é a melhor forma de atingir este ideal: quanto menos sérios, maior a capacidade de higienizar a mente e mantermos os olhos abertos para a singularidade do mundo. É nas coisas banais que a magia mora: no pão com manteiga, no caminhar de um gato velho sobre o telhado sonhando com passarinhos que não mais pode alcançar, no céu azul que cede espaço relutante para nuvens sombrias.

Em “A arqueologia do saber”, Foucault defende a ideia de que qualquer assunto do conhecimento humano pode ser analisado arqueologicamente, retrocedendo a pesquisa e desbastando-a até chegar ao ponto aproximado da sua gênese. Muitos estudos já foram feitos usando este método, mas ninguém se importa em pesquisar a banalidade ou os assuntos irrelevantes. Esta é a maior magia que eles conseguem fazer: como um mágico realizando um truque de prestidigitação, a banalidade explode uma nuvem de gelo seco e consegue se esconder com perfeição. Está ali, uma sombra vaga no meio da neblina, mas não a conseguimos divisar. E o pior é que ela está rindo dos nossos semblantes compenetrados.

Quando eu falo da banalidade, não penso naquele significado mais comum com que as pessoas sérias se dirigem a ela: não a considero como algo desnecessário ou um conhecimento irrelevante. Penso na banalidade como a antesala da maravilha. Penso nela como a curva fora da estrada, como o caos que mora nos desvãos da normalidade. Considero o banal como o único elemento que nos mantém coesos.

Estou lendo um livro de Almeida Garrett, “Viagens na minha terra” (em breve teremos resenha do livro no Amálgama, mas avisarei aqui). O livro foi escrito em meados de 1800 e, em essência, é uma coleção impressionante de banalidades elencadas pelo autor em torno de uma viagem realizada por Portugal. Ele trata de seus pensamentos sobre literatura, sobre o amor, sobre o movimento romântico, sobre os cabelos femininos, sobre a veleidade dos olhos verdes, sobre a obra de outros escritores, sobre o desmatamento das florestas portuguesas, sobre qualquer assunto. Há muitos anos, li uma entrevista em que o ator Jackie Chan classificava o seu estilo de luta como “drunk fighting”, ou seja, ele vai lutando desengonçadamente, e cada golpe segue o anterior como se fosse uma dança, pegando tudo o que estáao seu alcance, aproveitando cada elemento do cenário para transformá-lo em uma arma. Cada golpe é inesperado e caótico.

Da forma com que Almeida Garrett escreve, percebo que ele usa este longo rol de banalidades como um antecessor do monólogo interior, mas sem a completa liberdade da linguagem. Atreveria-me a dizer que ele criou um estilo invulgar de literatura, o “drunk writing”, onde a história e a sua coesão não são tão importantes quanto as banalidades que insistem em chamar a atenção do escritor e desviar seu foco narrativo. Quando Umberto Eco escreveu “Seis passeios pelo bosque da ficção”, com certeza não imaginava que Almeida Garrett pudesse fazer o leitor entrar no bosque e nunca mais encontrar a saída. Um leitor que precisa ser resgatado de dentro do manancial de banalidades. Não digo que o livro é ruim, muito pelo contrário – afirmo que é a elogiável construção de caos e desordem sob uma estrutura mínima, um exercício de desapego à seriedade.

Outro escritor que se dedicou com afinco a tarefa de buscar a banalidade é Ambrose Bierce,  alguém cuja obra é uma das minhas maiores referências pelo humor abusado e pela capacidade de dizer tudo e nada ao mesmo tempo. Quem leu “O Dicionário do Diabo” sabe que é um livro irônico e repleto de desconstruções de conceitos. Interessante que a crítica chama o livro de “amargo”, pois eu o considero irônico, algo que dmeonstra como duas ideias tão desparelhas podem estar concectadas. Diante de várias banalidades que elenca, não surpreende que Ambrose Bierce tenha conceituado a própria banalidade, de forma que não só explica de forma vaga a ideia como também a homenageia, merecendo transcrição em inglês:

“Platitude, n.
The fundamental element and special glory of popular literature. A thought that snores in words that smoke. The wisdom of a million fools in the diction of a dullard. A moral without the fable. All that is mortal of a departed truth. A demitasse of milk-and-morality. The Pope’s-nose of a featherless peacock. A jelly-fish withering on the shore of the sea of thought. The cackle surviving the egg. A desiccated epigram.”
Ambrose Bierce

Ambrose Bierce

Um conceito de banalidade formado pela própria. Uma lista arbitrária de ideias que pretendem formar uma imagem, mas que não aspira a certeza, o esgotamento conceitual. A explicação que não contém respostas, mas deixa perguntas em aberto. De todos os verbetes de “O Dicionário do Diabo”, este é o que mais chama a minha atenção, pois Bierce tangencia o assunto e o deixa irresolvido. Considero o único momento em que o escritor despe a sua armadura irônica e fala a verdade, ainda que não consiga sintetizar a ideia de forma precisa, como se o próprio ato de escrever fosse tão sério que não admite a banalidade.

A melhor forma de não ser sério e ceder à irrelevância é sendo inesperado, permitindo que a imaginação do outro interaja com o conceito. Ou fazer como Somerset Maugham, no seu “A writer’s notebook”, onde descreve uma personagem capaz de se abandonar à banalidade da própria existência: “She plunged into a sea of platitudes, and with the powerful breast stroke of a channel swimmer made her confident way toward the white cliffs of the obvious”. Qual o motivo de tanta seriedade, se a vida não passa de uma sucessão de banalidades para a qual tentamos dar alguma conexão?

Por isto, neste ano de 2013, sejamos adoravelmente banais. Sejamos inconsequentes. Que o banal entre na nossa vida com sua lista de pequenas incredulidades, trazendo o fantástico, o imponderável – o único.

Anúncios

2 Comentários

Arquivado em A arqueologia do saber, A writer's notebook, Albert Camus, Almeida Garrett, Ambrose Bierce, Banalidade, Filosofia, Generalidades, Jackie Chan, Michel Foucault, O Dicionário do Diabo, O mito de Sísifo, Seis Passeios pelo Bosque da Ficção, Umberto Eco, W. Somerset Maugham

2 Respostas para “Um breve elogio da banalidade

  1. Kelli Pedroso

    Eu queria fazer uma guerra de bexiguinha, aqui no interior. Mas, provavelmente, pensariam que eu estivesse maluca.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s