A palavra como adaga

Em uma das ocasionais conversas que a profissão me força a ter com outras pessoas, certa vez deparei-me com um homem pérfido. Não é estranho que um advogado encontre pessoas malvadas na sua rotina, mas, até aquela data, eu nunca tinha encontrado um homem capaz de ser maléfico e destrutivo usando somente a palavra como cunha para destruir a auto-estima das outras pessoas.

Ao me relatar um acidente de trânsito em que teria se envolvido (e pelo qual era responsável), o homem deparou-se com uma mulher que saiu do carro atingido, furibunda, despejando-lhe uma torrente de palavrões e xingões. Segundo ele, esperou o momento certo para o contra ataque. Quando a mulher baixou a guarda, ele abriu a porta do carro e a apunhalou com uma única palavra: “gorda”.

Assim que contou esta história, desatou a rir. Confesso que não entendi o motivo da sua felicidade e perguntei se considerava a palavra “gorda”  mais ofensiva do que os inúmeros palavrões que insultavam a sua mãe, os seus filhos, as suas capacidades sexuais, a honra de sua esposa. E ele disse que “gorda” era o xingão exato para uma mulher, pois ela não tem como responder. Não tem como dizer “mas eu sou magra!”, pois isso implica em um juízo de valor particular. Além disso, toda mulher pensa estar acima do peso, ou seja, quando ele a chamou de “gorda”, transformou o seu pior receio em realidade e, não só isso, em algo visível para todo mundo, inclusive um desconhecido. Por fim, como o homem fez questão de salientar, este é o típico xingão que crava no espírito da mulher e a sangra progressivamente: ela não conseguirá dormir direito, pensando na palavra; ela diminuirá a sua comida ou iniciará uma dieta, e cada alimento a menos que consumir irá lembrar da forma com que foi insultada; ela encherá os ouvidos das suas amigas e interrogará seus familiares procurando “gordurinhas” inexistentes. Ou seja, toda a vida da pessoa irá sofrer as consequências cruéis de uma única palavra, certeira como uma flecha que atinge o centro do alvo.

De todas as palavras que o ser humano é capaz de engendrar, as que mais me fascinam são aquelas que funcionam como adagas: espetam-se na alma alheia e a desintegram aos poucos. Cada movimento da pessoa é drenado pela adaga; a sua energia vital se dissolve, enquanto ela procura arrancar a traiçoeira haste de metal do corpo, cauterizar a ferida, manter somente a tranquilizante cicatriz no lugar da morte lenta.

A qualquer momento, uma palavra à esmo pode atingi-lo.

A qualquer momento, uma palavra à esmo pode atingi-lo.

É necessário habilidade para se manejar palavras como adagas. Para começar, é difícil de reconhecê-las. Suas funções sintáticas e semânticas aplicam-se em vários contextos, não só para causar sofrimento. Para seu correto uso, elas dependem de uma série de circunstâncias, que vão da entonação até o momento exato da sua invocação. Além disso, necessitam do conhecimento prévio do ponto de fraqueza do outro, detectar onde a sua muralha psíquica é frágil, investigar com olhos argutos a rachadura por onde a palavra pode passar, atravessando a armadura para se enfiar no espírito alheio. É necessário muito treino e muita observação para atingir esta arte. Contudo, assim que se chega na sua essência, a tentação de destruiralguém esboroando a sua auto-estima se torna um poder quase hipnótico. Não é à toa que meu cliente ria diante da felicidade de estragar o dia, a semana e talvez o ano da mulher que teve o azar de se atravessar no seu caminho.

A adaga pode demorar para ser detectada; conheço pais que enfiaram adagas nos seus filhos quando eles ainda eram jovens e as crianças jamais conseguiram desenvolver o seu pleno potencial, sempre esbarrando na limitação que lhes foi imposta. Acredito que psiquiatras, psicólogos e psicanalistas são profissionais que dedicam as suas vidas para remover as palavras adormecidas nos corpos alheios, dar algum tipo de conforto para as feridas em hemorragia lenta, inexorável.

Às vezes, a palavra se torna uma adaga no momento errado, e acaba perfurando o outro sem querer. São cortes repletos de crueldade, mas, como são feitos em um momento impensado, são mais fáceis de serem perdoados, ainda que a sua sombra permanecerá perturbando. Incomoda-me mesmo as pessoas que sabem deste poder debilitante das palavras e as usam para realizar o mal. É difícil apagar os efeitos dolorosos de uma palavra, ainda mais quando ela se enfia tão fundo na alma do outro que se torna quase impossível removê-la. Temos a tendência de considerarmos (e julgarmos) somente o último ato de um suicida, mas ninguém é capaz de ver quantas palavras encontravam-se enfiadas no seu espírito, enfiadas de forma intencional (ou não) por pessoas interessadas no declínio de outro ser humano.

Quando escreveu a última aventura de Hercule Poirot, Agatha Christie fez aquele que eu considero um de seus livros mais interessantes. A maioria da crítica considera o “Assassinato no Expresso do Oriente” e “O Caso dos Dez Negrinhos” como os pontos literários de excelência da autora inglesa. São livros brilhantes, mas típicos da literatura de detetive, aquela em que o leitor acompanha pistas em busca do culpado. Eu considero “Cai o Pano” como seu livro mais singular, pois ela desenvolve a ideia do assassino perfeito: aquele que não mata ninguém, mas detecta a fraqueza do outro e o convence a se matar ou a matar outra pessoa.

Agatha Christie

É o assassinato impossível de ser previsto ou evitado, pois não deixa evidências físicas da sua perpetração. Além disso, utiliza táticas sutis de convencimento que envolvem a psicologia do assassino e a da vítima. É um jogo travado dentro da cabeça de alguém; enquanto o assassino crava facas através de palavras muito bem pensadas e manieta a vítima, ele vai estrangulando a sua vida, até que a decisão de colocar fim a ela ou matar outrem torna-se o último ato de um destino que foi pacientemente escrito.

Um Hercule Poirot envelhecido e cansado enfrenta este mestre oculto do mal. A lista de pessoas que ele matou é enorme, mas não existe uma prova sequer da sua participação. O assassino faz isto por que gosta do jogo psíquico. O ato de cravar palavras no espírito de alguém lembra muito as bandeirolas presas no touro durante a tourada; elas o cansam e exaurem sua vontade, mas não lhe matam. No entanto, desde a primeira que é fincada, o touro começa a morrer devagar – o seu futuro se torna conhecido, inclusive para ele. Mesmo que prorrogue a luta, ela se torna uma questão de tempo.

O detetive belga sempre foi um especialista no uso da palavra, na discrepância do discurso do assassino, na sua capacidade de prever e evitar os atos mortais. Neste último livro, ele é forçado a abandonar a tática psicológica de prever e derrotar o inimigo, desmascarando-o diante da lei. Considero um pouco melancólico que, no mais absoluto desespero de saber que não existe maneira de vencer o crime perfeito, Poirot seja forçado a utilizar um truque físico para enganar o oponente. E que só consiga uma vitória pelo expediente nada honroso de matar o outro. É a confissão da sua incapacidade de vencer um assassino que utiliza a mais mortífera arma para subjugar os outros: a palavra.

Por tal motivo, quando escutei este homem se vangloriando da sua capacidade de destruir uma mulher utilizando a palavra “gorda”, eu pensei que ele estava mexendo com forças de alcance imenso. Brigar com palavras é a luta mais vã, mas não por que elas vão embora, e sim por que elas podem machucar mais do que um soco ou um chute. Palavras podem matar, a menor das adagas pode se imiscuir no corpo de alguém e roçar o coração. Se as pessoas soubessem da importância daquilo que falam – e da capacidade latente de, em uma palavra, estar contida a possibilidade de destruir uma vida – elas seriam muito mais cautelosas com aquilo que deixam vir ao mundo através da sua boca.

Sem querer, ou talvez querendo, você pode estar matando alguém agora.

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3 Comentários

Arquivado em Adagas, Agatha Christie, Cai o Pano, Palavra

3 Respostas para “A palavra como adaga

  1. Kelli Pedroso

    Eu já fui fuzilada por palavras cruéis. Por isso, acredito que elas são mais fortes que os elogios.

    • Os elogios deixam a alma mole, Kelli. As palavras possuem uma grande força, mas precisam ser usadas com sabedoria e parcimônia. Dizer palavras cruéis só pelo prazer de machucar o outro devia ser um crime.

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