A desobediência criativa

Em tempos idos, quando computadores não eram tão abundantes e onipresentes, as pessoas usavam folhas para escrever. No meu caso, os cadernos de colégio e faculdade sofreram sistemáticos ataques de criatividade, que se arrastaram desde o momento em que ganhei meu primeiro até o advento das máquinas de escrever e desta alegre vida tecnológica. Ainda escrevo no papel, mas soa mais como um ato nostálgico, em especial por que escrevi tanto no passado que uma articulação do meu dedo, onde a caneta se apoia, incha em questão de minutos.

Estou escaneando as partes aproveitáveis dos meus cadernos e tocando-os fora. Também aproveito para rever a minha vastíssima produção literária (meu Deus, são seis caixas repletas de papéis, de onde eu tirava tempo e vontade para escrever tanto? São 12 romances, contos incalculáveis, roteiros de histórias em quadrinhos, poesias, crônicas, histórias inacabadas, ensaios, trabalhos técnicos, críticas, resenhas de livros, anotações e material de pesquisa. E o pior é que a prática leva à perfeição, pois tem material muito bom no meio. Vou levar mais tempo do que eu gostaria nesta tarefa).

No meio dos meus cadernos, encontro condutas incompatíveis com a civilidade e uma inusitada rebeldia. Nunca fui uma pessoa rebelde, no estilo destes que trocam a cor do cabelo, colocam piercings e viram entusiastas de regimes anarquistas. A minha revolta sempre foi contra fórmulas pré-programadas, contra a ausência de criatividade, contra o clichê das respostas impensadas. E, por este motivo, eu ousava. Ia onde meus colegas não se atreviam a chegar. Eu era um desaforado. Se a professora mandava improvisar um diálogo, eu o fazia da forma mais inesperada possível. Se mandava fazer um texto, eu encontrava uma maneira de burlar a estrutura e aprontar um libelo. Se recebia uma tarefa, procurava encontrar o ponto de ruptura dela e distordcê-la, brincar com a sua própria concepção, fazer o feitiço voltar contra aquele que o engendrou. E o desafio era vibrante: romper o esperado de tal forma que, ao mesmo tempo, fosse completamente espantoso e impossível de levar um “zero” ou uma reprimenda. Não foram poucos os trabalhos e provas que foram devolvidos com o comentário de que eu escapara da proposta, mas, pela forma com que desenvolvi meu raciocínio paralelo, merecia algum tipo de nota. Meus professores não tiveram vida fácil. Acredito ter praticado alguma forma de bullying  contra os mestres e, portanto, gostaria de pedir perdão a todos. Acreditem ou não, eu tentava deixar a vida de vocês mais doce, a rotina menos desgastante.

Em um antigo caderno do meu primeiro semestre de Espanhol, descubro, no meio do padrão esperado, linhas que escapam do óbvio. No meio de declinações de verbos e de palavras anotadas, assim como de exercícios para prencher as lacunas, encontro pequenos comentários em espanhol, simulações de diálogos impossíveis, textos que flertam com o nonsense. Como o meu vocabulário era muito reduzido, assim como a capacidade de criar construções mais elaboradas sem incorrer no erro gramatical, eu tinha o desafio de ser criativo usando poucas palavras.

A minha professora de Espanhol era uma menina baixinha, com todo o jeito de ser uma freira, pois mal levantava os olhos e mantinha sempre uma postura de retidão e defesa. Era óbvio que eu testaria os seus limites e, no final do semestre, ela já tinha cunhado uma frase do tipo “só podia ser o Gustavo mesmo”. Outros já chegaram a esta mesma conclusão. Mas, até chegarmos ao ponto em que a professora me aceitou e se resignou, passamos por uma jornada de instabilidades. Por exemplo, este diálogo lido na terceira aula de Espanhol e em que alterei o final de forma intencional, pegando todo mundo de surpresa:

– Hola, ¿, qué tal?

– Muy bien.

– ¿ Qué deseas comer?

– Me encantaría una pasta.

– ¿ Alguna cosa como primer plato?

– Sí, me gustaría unos lagostines, por favor.

– Te sugiro la especialidad de la casa: ensalada de brócoli con pimienta.

– No me gusta nada pimienta.

– Perdón, pero todos los platos tiene pimienta.

– Muy bien, mozo, me gustaría una cerveza entonces. Y un rácimo de bananas.

– ¿ Para comer ahora?

– No, para darte.

O objetivo era fazer um diálogo em um restaurante que incluísse “lagostines”, “pimienta” e “cerveza”. Todo mundo foi da mesma forma convencional, mas eu não resisti, a tentação foi forte. Lembro quando perguntei para a professora como se escrevia “bananas” em espanhol e ela levantou as sobrancelhas, espantada. Naquela época, ela ainda não sabia que devia esperar o inesperado.

Em outro exercício de aula, devíamos escrever um pequeno parágrafo que tivesse verbos no presente e no passado. Sabedora das limitações de nosso vocabulário em espanhol, a professora pediu parágrafos de, no máximo, três linhas. Claro que eu ia tentar extrapolar este objetivo:  será que eu conseguiria escrever um texto literário reduzido com um mínimo de léxico de língua estrangeira? Olhem o que saiu, e com direito a título:

“De hizos a brevas sueños son reales

José y Maria llevaron su hijo, Gabriel, en el parque fin de semana pasado. Después de almozar, ellos miraron el lago y dicidieron nadar. En la mitad del lago, Maria quedó cansada y decidió volver. Ella estaba volvendo cuando olvió pedidos de ayuda; su marido y hijo gritaban. El agua estaba roja; una aleta se movía. Maria volvió para el parque nadando más rápido y, cuando el tiburón comió su perna izquierda, ella preguntó se tiburón vivía en los lagos. Maria despertió: gracias a Dios era un suenõ, un sueño con defecto de fabricación. ¿ Porqué su perna continuaba dolendo? Miró la perna  y gritó: ¿ dónde estaba? El ojo del tiburón brillaba, el agua entró en la alma de Maria.”

(deve ter erros este texto, ele nunca foi apropriadamente revisado. Lembrem que meus conhecimentos de Espanhol na época eram reduzidos).

Quando acabei a leitura, um silêncio quase palpável instalou-se na sala. A professora estava vermelha: depois ela me disse que nunca leu algo que lhe deixou com tanto medo, ainda que eu a considere gentil em tão apreciação, pois o texto nem é tão assustador assim e eu o fiz com pressa.  Passei com um honroso “B” em Espanhol, se bem me lembro: a transgressão das normas é algo apreciado em tese, mas nunca recompensado.

A minha revolta sempre foi ligada ao formulismo, que leva ao emburrecimento e à repetição de antigas técnicas mnemônicas que substituem o raciocínio e o vôo livre da imaginação. Sou um paladino da criatividade; sou um defensor do livre pensamento. Hoje, quando as pessoas perguntam de onde vem a criatividade ou como posso criar pensamentos tão fora do ordinário, elas não tem ideia de que eu faço isto toda hora, todo o tempo, em cada mínima oportunidade que se oferece. Estou treinado para procurar o estranho, o diferente, o anormal.

Isto me faz lembrar o Henry David Thoreau e a sua pregação contra a obediência bovina. Em “A desobediência civil”, Thoreau fala de como a sociedade pode viver sem governo ou sem seguir as ordens de uma entidade superior. Ele era um rebelde: Thoreau queria viver na natureza e não queria pagar impostos, pois se recusava a legitimar um sistema em que não acreditava. Lutava contra a falta de pensamento próprio da sociedade e contra a máquina de convencimento do Estado; Thoreau lutava para ser livre e, para isto, usou a sua pena e a sua criatividade para lutar por aquilo que achava ser certo em todos os momentos da sua existência, mesmo sendo preso e escarnecido.

Henry David ThoreauHenry David Thoreau

Henry David Thoreau

Recordo muito de um trecho do livro: Portanto, o Estado nunca confronta intencionalmente o sentimento intelectual ou moral de um homem, mas apenas o seu corpo, os seus sentidos. Ele não é dotado de gênio superior ou de honestidade, apenas de mais força física. Eu não nasci para ser coagido. Quero respirar da forma que eu mesmo escolher. Veremos quem é mais forte. Que força tem uma multidão? Os únicos que podem me coagir são os que obedecem a uma lei mais alta do que a minha. Eles obrigam-me a ser como eles. Nunca ouvi falar de homens que tenham sido obrigados por multidões a viver desta ou daquela forma. Que tipo de vida seria essa?

Substituindo a ideia de Estado ou do governo por esta sensação de que a criatividade precisa ser tolhida e impedida de vir à tona, percebo que sou um anarquista da imaginação. Não sou uma pessoa que nasceu para ser coagida. Tenho a mente livre. Não gosto da ideia de que existem pessoas – até mesmo meu reduzido e ultra qualificado público leitor – capazes de tolher a minha liberdade de escrita. Vejo muitos escritores por aí escondendo seus pensamentos atrás do politicamente correto, com medo de se exporem demais, com medo do que o público vai achar. Identifico a covardia nos seus escritos pelo cheiro, e isto é a única coisa que não perdoo em matéria de ofício literário. Se eu tiver que escrever algo sobre negros, escreverei. Se eu tiver que escrever algo sobre homossexuais, sim, escreverei. Não é do meu feitio ter medo do que a sociedade pensa. Ela pode ser uma multidão, mas eu acredito em mim, e isto basta.

Quando penso nas pessoas que tentam condicionar os meus escritos ou que têm medo dos que eles próprios produzem, lembro, não com certo orgulho, que eu era uma criança quando comecei a me posicionar diante do professor em defesa do direito de me expressar livremente. Nunca foi uma batalha direta, sempre foi algo sub-reptício, mas foi incessante. Até hoje, nas minhas petições do Direito, já recebi reclamações por conduta imprópria, ironia e sarcasmo, mas não removi UMA PALAVRA SEQUER daquilo que escrevi. Eu já fui processado por calúnia, injúria e difamação por juízes e colegas advogados (venci todos os processos, pois ninguém melhor do que eu para saber os limites da liberdade criativa e aquilo que a lei proíbe de ser publicamente dito) e, até agora, nada nem ninguém foi capaz de me coagir ou censurar.

De certa maneira, ainda sou o menino que tem a voz dissonante, a versão alternativa da realidade. Sei que minha audácia será punida, sei que nunca estarei entre os melhores alunos da aula, e não me importo. Também sei que me divertirei horrores pensando nas surpresas que vou preparar. Assim como Thoreau, sou um revolucionário. Sou um desobediente criativo, e esta é uma das poucas coisas na vida que tenho muito orgulho de ser.

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5 Comentários

Arquivado em A desobediência civil, Crônicas, Criatividade, Filosofia, Generalidades, Henry David Thoreau, Produção acadêmica, Produção Literária

5 Respostas para “A desobediência criativa

  1. Excelente.
    O microconto do tiburón é ótimo e os erros cometidos podem ser corrigidos. É muito bom.
    Abraço,

    • Oi, Alexandra. Obrigado pela leitura. A desobediência criativa pode ser um eufemismo para o chato criativo, hehehe. Eu preferi deixar o microconto com os erros em homenagem aos quinze minutos que me deram para fazer um texto em uma língua que estava recém aprendendo. Às vezes, 15 minutos é tudo o que se precisa para abrir uma porta… ou para fazer um texto afrontador. Mesmo que o destinatário fosse a coitada da professora de Espanhol, hehehehe. Obrigado pelo comentário, e sejamos rebeldes criativos sempre. até morrer, para dar cor neste mundo insosso.

  2. elizabeth

    Gustavo estás cada dia melhor!!!De um texto que poderia ser chato, enfadonho, consegues fazer com que queiramos ler mais e mais. beth

  3. Kelli Pedroso

    Adorei! Ri muito. Eu também era dona de desobedecer os professores. Porém confesso que eu era um pouco preguiçosa. Uma vez, pediram para fazer uma redação sobre relógio. Eu preenchi toda folha com tic-tac, e no final escrevi: a corda acabou. E também pediram para escrever sobre televisão. Lembro bem, escrevi algo semelhante com aquela voz que ouvíamos na TV, quando saía do ar: interrompemos nossa programação por força maior. Dentro de instantes voltaremos com a nossa programação normal. Recebi xingões e reconhecimento pela criatividade. Eu também me posicionei desde cedo. Não me importo com o que os outros pensam. Mas, às vezes, me importo – como a guerra de bexiguinha.

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