Filme: “Procura-se um amigo para o fim do mundo” (2012)

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Ontem, dia 20 de dezembro de 2012, o mundo deveria ter acabado. Como era de se esperar, tal fato não aconteceu. Bem, se tivesse acontecido, neste exato momento eu não estaria escrevendo e sim seguindo o plano de sobrevivência traçado muitos anos atrás, ou seja, estaria procurando alguma fonte de água potável e ferramentas que poderiam ser usadas também como armas, tais como chaves de fendas e picaretas. Em seguida, eu… bem, não vou contar todo o plano de contingência, mas ele é suficientemente bem bolado para me propiciar alguns anos de vida calma.

Há algum tempo não escrevia sobre filmes aqui no blog, mas o motivo é simples: quase não tenho ligado a televisão. O excesso de tarefas e de assuntos que devem ser escritos acabou me afastando bastante destas questões mundanas (de quase todas, aliás). Mas estamos em um processo de flerte: agora que os feriados de fim de ano se aproximam, creio que conseguirei ver alguns filmes que estava há tempos com vontade de assistir.

No entanto, antes do mundo acabar, eu assisti este “Procura-se um amigo para o fim do mundo” (2012). Era para ser uma diversão leve, sem grandes consequências e sem as desagradáveis escatologias em que as comédias atuais se tornaram. Aliás, eu diria que sequer é uma comédia, e sim uma tragédia, pois a proximidade do fim do mundo é anunciada na primeira cena do filme. É a crônica de uma morte anunciada – literalmente. Até valeria a pena a discussão dos motivos pelo qual este filme foi listado como comédia ao invés de tragédia ou a proximidade relativa dos conceitos clássicos de tragédia e comédia desde a Antiguidade grega, mas seria um debate longo e excruciante demais, comigo correndo o risco de perder o objetivo maior de analisar o filme.  Um dia prometo retomar o tema.

Desde o momento em que assisti ao trailer, a sua premissa me agradou. Se o planeta soubesse que o seu fim era inevitável, o que aconteceria? Como as pessoas reagiriam se o mundo tivesse um horário pré-determinado e inexorável para encontrar o seu final? Para ser bem sincero, esta premissa, ao mesmo tempo em que chamou a minha atenção, também foi aquilo que mais me preocupou. Os roteiristas deixariam a situação anedótica? Simbólica? Épica? Moralista? Simplória? Religiosa?

A resposta é: todas as alternativas anteriores.  Acredito que, se o fim do mundo fosse tão iminente como o filme deixa claro, realmente aconteceria de tudo um pouco. No entanto, esta opção narrativa me deixou um pouco decepcionado, pois se apoiou em clichês bobos. A relativização das relações familiares, com pais estimulando filhos menores a beber, se drogar e se prostituir enquanto fazem orgias poderia ter sido mostrada de forma mais concentrada e menos histriônica. A circunspecção do apresentador de televisão anunciando o avançar progressivo do final do mundo também soou como algo fora do contexto e inverossímil, em especial quando ele tratava de manchetes ocasionais no meio de lembretes sobre o fim cada vez mais próximo. A cena que envolveu religião, quando os personagens chegaram em uma comunidade que se reunia em torno de um pretenso profeta ou sacerdote não-identificado fazendo batismos e distribuindo perdões, é um clichê tanto de ideia quanto de imagens. Fica evidente um certo caráter pacífico e confortador da religião, e é engraçado quando as imagens de paz parecem cartazes repletos de Photoshop, com o sol brilhando sobre um oceano límpido, com a imagem de crianças correndo e brincando na areia da praia, com os sorrisos e pessoas reunidas em torno de rodinhas de violão. Em contraste com a Sodoma que as famílias se transformaram, a religião é um bálsamo de tranquilidade. Tal escolha de imagens fala muito a respeito das intenções do filme.

A ideia que achei mais característica do clima de um eventual fim do mundo é, não por coincidência, a mais discreta: uma rádio resolve tocar todas as músicas de rock já feitas, em uma programação non-stop. Antigas baladas de rock começam a parecer, passando um clima de nostalgia e despedida. Alguns dos grandes e mais dramáticos momentos de “Procura-se um amigo para o fim do mundo” estão ligados à música.

Enquanto assistia ao filme, notei que ele passou por uma transformação temática. Começou como uma comédia, com a batida de criar cenas engraçadas, e assim prosseguiu até a metade. Não estava gostando muito da primeira metade do filme, pois a comédia parecia incapaz de se sustentar somente no desconforto das situações, e o desânimo do personagem de Steve Carell no meio de um cenário cômico era praticamente uma bomba H contra a intenção de fazer rir. Na segunda metade, entretanto, o filme se assumiu como uma tragédia leve e, neste momento, ele cresceu de intensidade. Os personagens resolveram seus conflitos pessoais, deixando de lado os problemas coletivos que foram o assunto majoritário da primeira metade. Não sei se foi um movimento intencional do diretor realizar esta transição de comédia com ares de histerismo caótico para uma tragédia moderada e melancólica, mas o contraste destes dois extremos acabou se revelando um dos grandes achados do filme. Não se pode esquecer que, na vida, quase sempre começamos rindo e terminamos chorando, ou o contrário.

Até a escolha dos atores principais representou a ruptura dos limites entre comédia e tragédia. Keira Knightley é conhecida por papéis mais dramáticos, Steve Carrell é famoso pelas comédias. Neste filme, eles trocaram de área: Carell é um homem que foi largado pela mulher e que se imaginava condenado a passar sozinho os últimos dias de vida da Humanidade, um personagem trágico e decepcionado, em uma fossa gigantesca que não terá muito tempo para suplantar; Knightley interpreta uma mulher que sempre cedeu toda a sua vida para relacionamentos errados, com a característica de ser quase incapaz de ser despertada após pegar no sono (não lembro se isto é uma doença ou só uma parte da sua personalidade), uma otimista incorrigível, verborrágica e amante de discos de vinil clássicos. A caminhada dos dois em direção a um acerto de contas final com os entes amados lembra muito as conversas de Cândido e o Dr. Pangloss do “Cândido” de Voltaire. Knightley acredita que, se for otimista e confiar que tudo dará certo, o mundo lhe sorrirá de volta; Carell é pessimista, acha que o mundo é um local cruel que, se você sorrir demais, lhe arrancará os dentes na porrada. O filme passa uma ideia de que os otimistas estão com a razão, pois, por acreditar na bondade humana, Knightley é aquela que acaba se saindo melhor. Discordo completamente desta visão de mundo, mas não me impede de sorrir ao ver tamanha ingenuidade narrativa.

É evidente que uma história de amor acabará se desenrolando (clichê n.º 225 – coloquem um homem e uma mulher em uma situação limite e eles irão se envolver romanticamente), o que me faz lembrar do primeiro comentário que falei quando vi o trailer: “não sei o que é mais ficção científica, o mundo acabar ou o Steve Carell ‘pegar’ a Keira Knightley”, hehehehehe, e isto que eu nem a acho bonita. O pessimismo dele se complementa com o otimismo dela, os dois aprendem a chegar a um meio termo, algo bem yin/yang e estas coisas que as pessoas gostam de pensar que acontecem em relações amorosas. Algumas cenas são belas e muito eficientes, ainda que o meu cinismo tenha gritado que, em uma situação limite deste tipo (o mundo vai acabar com hora marcada), não se pode escolher muito o que aparece, é preciso aceitar aquilo que está à mão. Gostei de algumas surpresas do roteiro, como a situação que envolve a busca impossível de Carell por uma namorada da juventude – a única mulher que ele teria amado – e a forma com que ele consegue um avião, através de alta dose de sacrifício pessoal.

O melhor do filme, contudo, foi que ele não teve condescendência ou magia. Tudo se encaminha ao final melancólico anunciado na primeira cena. Um filme também é uma representação de mundo, o término da película também implica no final do universo paralelo para o espectador. Com esta motivação, “Procura-se um amigo para o fim do mundo” revelou a sua completa disparidade, pelo menos para os meus objetivos: imaginei assistir uma comédia e era uma tragédia; imaginei que seria uma história de amor impossível e o plot principal foi um otimista e um pessimista juntando forças e suprindo suas solidões internas; imaginei, depois de anos de dominação hollywoodiana na cabeça, que um deus ex-machina interviria para salvar o mundo e isto também não aconteceu (acredito que não, pelo menos). E, como todo filme que ficou a meio caminho das minhas expectativas, este também ficou a meio caminho da aprovação completa. Não é ruim, mas também não é excelente, e serve como um bom entretenimento. Em especial para as minhas simulações mentais de como seria o fim do mundo – ainda que devo admitir que, se alguém entrar no meu apartamento pela janela, não vou perguntar o nome ou as intenções. Só vou mexer a picareta.

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2 Comentários

Arquivado em Cândido, DVD, Keira Knightley, Literatura, Procura-se um amigo para o fim do mundo, resenha, Steve Carell, Voltaire

2 Respostas para “Filme: “Procura-se um amigo para o fim do mundo” (2012)

  1. Kelli Pedroso

    Um amigo me indicou este filme. Assisti e gostei.

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