Planejando o Apocalipse das formigas com Musashi e Maquiavel

Há questão de um mês, enfrento com galhardia e um pouco de desesperança uma praga de formigas trazida pelo calor impossível que está flagelando o Rio Grande do Sul. Por semanas, tentei entender o ponto de origem ou interceptar as linhas de suprimento. Parecia uma tarefa fadada ao fracasso, pois descobri que o veio principal de onde elas saíam é o poço de luz que liga a fiação da casa ao resto do prédio. Ou seja: não conseguirei chegar ao formigueiro central, a não ser que diminua de tamanho e caminhe pelos canos e caneletas atrás das paredes de onde moro. A batalha virou algo homem a homem, ou formiga a formiga. Uma guerra de trincheiras.

Não bastando tal azar, praga simultânea se abateu no meu banheiro: cupins. Já espalhei veneno por todo o local, mas, a cada dia que passa, eles surgem vivos ou mortos. Se começarem a morrer primogênitos, acreditarei que as pragas do Egito estão se replicando em miniatura dentro do meu apartamento.

Contudo, semana passada, descobri um detalhe interessante. Vi alguns cupins debatendo-se, enfrentados por resolutas e ferozes formigas. O inimigo do meu inimigo tornou-se meu amigo. Penso em manobrar esta guerra: colocar uma trilha de migalhas de pão conduzindo as formigas da cozinha até o outro adversário. Se aumentar os contingentes das tropas do banheiro, pode ser que elas vençam os cupins com maior rapidez. Penso nos imperativos morais e éticos de manipular a Natureza desta forma e, sinceramente, não me importo. Vencer é tudo e se, para tanto, for necessário usar truques sujos, bem, que vença o melhor.

Gosto muito de livros de estratégia. O planejamento e a capacidade de ver um cenário hostil com olhos calmos e calculistas lembra muito o jogo de xadrez. Existe algo de hipnótico em projetar os pensamentos do inimigo, antevê-los, preparar-se para ele e, ao final, conduzi-lo à submissão. É o que faço diariamente no Direito. No entanto, ao contrário do pessoal, que adora um clichê até na hora de escolher livros, não dou muita atenção para “A Arte da Guerra”, do Sun Tzu. Sou realmente fascinado pelo “Go Rin No Sho”, ou “O Livro dos Cinco Anéis”, do Miyamoto Musashi.

A diferença entre eles é gritante: Sun Tzu se concentra nas táticas dos exércitos, no coletivo; Musashi é mais intenso, pois trata das batalhas individuais. A lição que ele coloca no primeiro capítulo é vital: a estratégia para vencer um homem em nada difere da tática de vencer 100 ou de vencer um milhão.

Miyamoto Musashi, o maior de todos os guerreiros, aquele que nunca perdeu uma batalha.Miyamoto Musashi, o maior de todos os guerreiros, aquele que nunca perdeu uma batalha.

Miyamoto Musashi, o maior de todos os guerreiros, aquele que nunca perdeu uma batalha.Miyamoto Musashi, o maior de todos os guerreiros, aquele que nunca perdeu uma batalha.

Musashi ensina o Caminho do Guerreiro, que passa necessariamente pela aceitação resoluta da morte, da derrota completa. Somente aceitando tal fato um homem pode se tornar invencível. É uma lição importante. Sabendo de tal destino, o homem nada mais tem a temer, pois já está morto na Terra. As Nove Regras que a pessoa deve seguir para se tornar um mestre de estratégia, capaz de vencer inimigos somente com um olhar, podem ser usadas em qualquer aspecto da vida mínima:

1- Não pense com desonestidade.
2- O Caminho está no treinamento.
3- Trave contato com todas as Artes.
4- Conheça o Caminho de todas as profissões.
5- Aprenda a distinguir ganho de perda nos assuntos materiais.
6- Desenvolva o julgamento intuitivo e a compreensão de tudo.
7- Perceba as coisas que não podem ser vistas.
8- Preste atenção até ao que não tem importância.
9- Não faça nada que de nada sirva.

Todo dia exercito estas regras, em especial as últimas quatro. Ser capaz de analisar as próprias condutas e percepções de uma forma crítica é um constante teste para a paciência e para o auto-conhecimento. Quando as pessoas não enxergam estranhezas que eu vejo de forma natural, oscilando nos ares, rodeando seus sentidos, percebo que tudo é uma questão de ponto de vista. A Literatura é somente um olhar diferente sobre o mesmo mundo que nos cerca, e nada mais.

Uma das minhas técnicas de batalha preferidas se chama “Prender a Almofada”. Significa impedir que o inimigo levante a cabeça e consiga formular uma estratégia. Deixá-lo perder tempo com ações inúteis, desperdiçando uma energia preciosa, enquanto perturba a paz interna do outro bloqueando as suas ações úteis. Fazer o inimigo consumir-se na sua própria energia até o momento em que se passa ao controle dos atos do outro.

Não é tão difícil quanto parece. As formigas ainda não sabem, mas todos os atos que tomei nos últimos dias levaram-nas a uma batalha desesperada contra os cupins. Controlei os pontos de acesso ao apartamento e tive que ceder à evidência de que elas se esgueiram por entre os canos internos do prédio. Bloqueei os locais onde elas costumavam se aglomerar. Dediquei-me à uma limpeza exaustiva e diária dos pontos onde poderiam existir farelos de comida. Transformei a vida delas em um inferno em toda a casa, mas mantive o banheiro intocado. Espero que os canais de comunicação funcionem, espero que formigas famintas avancem como as hordas do Apocalipse para cima dos invisíveis cupins que não consigo achar. Depois que liquidarem com a tarefa, então concentrarei o veneno que as repugna em um único local da casa: o banheiro, onde o Waterloo delas será travado. O trabalho para vencer uma formiga será o mesmo com que vencerei 100 milhões.

Ah, sim, como os leitores atentos devem ter percebido, eu gosto muito de Maquiavel. Talvez um dos maiores erros que a Faculdade de Direito cometeu tenha sido me forçar a estudar e fazer trabalhos detalhados sobre “O Príncipe”. E acredito que Musashi teria muito orgulho ao ver que sigo as Nove Regras, mesmo em uma coisa tão aparentemente banal como uma erradicação de pragas domésticas. Pelo menos até o dia em que eu entrar no banheiro e ver uma formiga gigante me esperando, mexendo antenas peludas, o corpo fornido por cupins que eu acabei fornecendo, um verdadeiro Leviatã criado pela minha pretensão.

Assim como a Guerra pode acontecer em um minúsculo banheiro, a Literatura também aflora em locais estranhos, indevassáveis. Íntimos.

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4 Comentários

Arquivado em A Arte da Guerra, Cupim, Estratégia, Filosofia, Formiga, Generalidades, Guerra, Maquiavel, Miyamoto Musashi, O Livro dos Cinco Anéis, Sun Tzu

4 Respostas para “Planejando o Apocalipse das formigas com Musashi e Maquiavel

  1. Kelli Pedroso

    Creio que os cupins são mais nocivos. No meu apartamento também tem estas pragas. Não sei o que fazer, pois além de ter alergia, não localizo os malditos. Preciso fazer algo imediatamente. Tenho medo de entrar no quarto, e não encontrar mais os armários.
    O teu texto, como sempre, é genial.

  2. Pois sim, espero que vença as formigas e os cupins. O diabo desses dois tipos de insetos é que são como pedaços de um organismo maior que é forte por seu poder de dispersar-se. Atingi-los no seu cerne é quase impossível.
    Ah, e lembrei das moscas do teu conto também.

    • Oi, Alexandra. A organização das formigas e dos cupins não cansa de me espantar, assim como a sua capacidade de ficarem invisíveis quando lhes convém. Eu acredito firmemente que existe um Grande Cupim ou uma Grande Formiga em algum local, destilando gotas ou pequenas células que viram cupinzinhos ou formiguinhas, não é possível que existam tantos assim.
      Quanto às moscas, pelo visto tenho um estranho fetiche por animais pequenos e (aparentemente) inofensíveis. 🙂

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