O amor é o homem inacabado: Éluard e a dança sem música

Ontem, durante festa de casamento em Bento Gonçalves, minha atenção acabou sendo desviada para a dança de um casal. Eram um homem e uma mulher de mais de sessenta anos, vestidos de forma sóbria, apesar do calor excessivo aconselhar certa informalidade. Eles dançavam passos antigos, sábios, de quem já esteve em muitos lugares e partilhou de diferentes alegrias.

O fato é que estavam dançando techno. Ou algum outro “pancadão” do mesmo estilo.

Enquanto toda a pista dançava de forma desordenada, aos gritos e pulos, o casal de velhinhos trocava passos com as bochechas coladas. Lentos. O pé dele alternava de posição com o dela. Não erravam um passo. Às vezes aceleravam, em outras diminuíam. Sabiam o ritmo dos corpos. O único problema é que dançavam algo diferente da música que estremecia o salão como as trombetas de Jericó em um dia de fúria.

O que eles estavam escutando? Com certeza não era a mesma música que eu estava ouvindo (eu e meio universo). Eles estavam em outro mundo; escutavam uma melodia sem som, sentiam um ritmo sem existência. E era a mesma música interna, pois não erravam passos.  Talvez uma música do passado, talvez a música que eles compuseram juntos no silêncio de anos de convivência. Ou, talvez, a música não importa, nunca importou, e o que realmente vale a pena é sentir o ritmo que mora no outro.

Admiro estas pessoas capazes de parar o caos do cotidiano e fazer o Tempo interno delas virar o tempo do universo. São pessoas preparadas para qualquer situação. O telhado do salão poderia cair sobre a cabeça deles que não atrapalharia a sua dança. O mundo podia estar desmoronando e os passos continuariam vagando, etéreos, sem dar atenção para o desaparecimento do solo.

Nesta hora, lembro do poeta Paul Éluard (1895-1952), um dos criadores do movimento surrealista na França, conhecido em todo o mundo como “O Poeta da Liberdade” por ter lutado durante toda a sua vida contra todas as formas de dominação política. Lembro que o famoso poema “Liberdade” foi despejado por aviões ingleses no solo da França para motivar a Resistência francesa a continuar combatendo os nazistas.

Gosto de Éluard. Era um homem corajoso e capaz de defender as suas posições sempre com garra juvenil. Seu espírito não envelhecia. Ao contrário dos outros surrealistas, que pregavam a linguagem como um objeto a ser destruído e ela própria um meio de destruição, ou seja, a linguagem como inimiga, Paul Éluard considerava a linguagem com um propósito definível em si mesma, algo capaz de se bastar por si só e de nos levar a outros mundos e esferas de compreensão. (Hoje ainda afirmei que a realidade é uma cebola, e as pessoas olham só a casca mais superficial e corroída dela, esquecendo que, embaixo do aparente, existem várias camadas de outras realidades, tudo dependendo de qual ângulo se observa o assunto e até onde se deseja cavar. O mesmo acontece com a linguagem, esta sucessão de Tróias enterradas uma debaixo da outra, todas fadadas à destruição e ao renascimento).

Como todo poeta, Éluard era um homem apaixonado. Foi o primeiro marido de Gala, que depois o trocaria por Salvador Dalí, virando a musa do pintor. Em seguida, conheceu Nusch no sanatório para tratamento da tuberculose, com quem se casou e passou períodos de extrema felicidade. A morte da esposa acabou lhe surpreendendo e, por muitos anos, ele viveu em total infelicidade, descrita com detalhes no livro “Do horizonte de um ao horizonte de todos”, em que seus primeiros poemas são repletos de tristeza e angústia e, à medida em que a obra evolui, ele chega não à felicidade completa, mas à capacidade de admitir que pode viver sem amar. É desta época o poema que sempre recordo em momentos de tristeza:

Dificilmente desfigurado

Adeus Tristeza

Bom dia Tristeza

Você está inscrita nas linhas do teto

Você está inscrita nos olhos que amo

Você não é a pobreza absoluta

Desde que o mais pobre dos lábios denuncia você

Com um sorriso.

Éluard e Nusch. No espaço do olhar, palavras que não precisam ser ditas e uma música os une. É possível sentir.

Éluard e Nusch. No espaço do olhar, palavras que não precisam ser ditas e uma música os une. É possível sentir.

Éluard achava que jamais amaria outra mulher depois de Nusch. No entanto, conheceu Dominique Lemor e se apaixonou de novo, em total entrega. Escreveu um livro saudando o reaparecimento do amor na sua existência dolorida e o chamou de “O Phoenix”. Um ano após se casar, Éluard morreu.

Antes disso, ainda na sua fase depressiva, o escritor francês fez um poema que sintetiza, de certa forma, aquilo que assisti ontem na pista de dança:

O Amor é o Homem Inacabado

Todas as árvores com todos os ramos com todas
[as folhas
A erva na base dos rochedos e as casas
[amontoadas
Ao longe o mar que os teus olhos banham
Estas imagens de um dia e outro dia
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A transparência dos transeuntes nas ruas do acaso
E as mulheres exaladas pelas tuas pesquisas
[obstinadas
As tuas ideias fixas no coração de chumbo nos
[lábios virgens
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A semelhança dos olhares consentidos com os
[olhares conquistados
A confusão dos corpos das fadigas dos ardores
A imitação das palavras das atitudes das ideias
Os vícios as virtudes tão imperfeitos

O amor é o homem inacabado.

O casal na pista de dança ontem mostrou-me que o importante não é amar, e sim nunca parar de amar. O homem é um ser inacabado, inconcluso, fragmentado. Quando se torna capaz de escutar uma música invisível e dançar com alguém aquilo que somente os dois espíritos conhecem, ele atinge a sua essência. A ausência de um ecoa no preencher do outro. As peças do quebra-cabeça encontram seu sentido, a ranhura que lhes complementa. Élouard amou e foi trocado por Dali; amou de novo e a morte veio lhe tirar a felicidade. Qualquer homem aceitaria a sua sina e morreria sozinho, mas o poeta amou mais uma vez, a última. Como uma fênix, venceu a tristeza e voltou a escutar o som da alma de outra mulher.

Em todas as vezes que amou, Éluard entregou-se de forma juvenil ao viço do sentimento. Pablo Picasso, comentando a poesia do amigo, disse-lhe: “Você segura a chama entre os dedos e pinta como um incêndio”. Por muito tempo, pensei que ele estivesse se referindo à intensidade do poeta francês. Ontem, observando a dança quase impassível que cortava aquilo que era o esperado no salão de festa, a frase atingiu um novo significado: ele amava a linguagem da mesma forma com que amou as três mulheres – de forma delirante, visceral, violenta. Éluard dançava com as palavras uma música que somente os dois entendiam. Escrever era uma forma de completar a sua alma. Escrever era também dançar no escuro, com um parceiro imaginário.

Acima do techno, acima do ruído, existia uma música que aquele casal de idosos estava escutando e acompanhando com seus passos tímidos de dança. A capacidade de completar o abismo do outro e dançar uma música invisível – isto sim é amar. Isto sim é escrever.

* E esta postagem é uma comemoração a vocês, caros leitores que me completam, e que hoje fizeram este blog atingir DEZ MIL VISUALIZAÇÕES (10.012, para ser mais exato). Muitíssimo obrigado pela leitura e, se já achei um milagre chegar a 1.000 visualizações, 10.000 é simplesmente enlouquecedor. Obrigado mesmo.

5 Comentários

Arquivado em Dança, Generalidades, Literatura, Paul Éluard

5 Respostas para “O amor é o homem inacabado: Éluard e a dança sem música

  1. alexandra

    Muito bonito, Gustavo. Mais bonito ainda é achar um casal que se ame tanto depois de tanto tempo. Abraço

    • Oi, Alexandra, que honra saber da tua leitura. É realmente bonito ver um casal ainda se amando apesar da passagem corrosiva do tempo, capaz de levar tudo consigo, menos um sentimento puro. Nõ é somente na pista de dança que se observa este fato; às vezes eu vejo casais andando pelas ruas em um mundo só deles, de mãos dadas como se fosse a primeira vez, trocando olhares e sorrisos sem máscara alguma. É consolador saber que existem sentimentos capazes de atravessar os anos sem perder o seu viço e a sua pureza.
      Obrigado pela leitura, um abraço

  2. Kelli Pedroso

    Ainda há esperança. A sincronia entre um casal é uma relíquia. Antes dela vem o respeito e a confiança: dois elementos essenciais em um relacionamento – ao menos para mim.
    Parabéns pelos acessos! Eu que agradeço por escreveres coisas tão bonitas e interessantes. Sempre aprendo algo nos teus textos.

    • Obrigado pelas palavras de incentivo, Kelli. O importante, além da sincronia do casal, também é saber que sempre existem novas possibilidades de sincronias, novos ajustes, novas histórias. Mesmo que Éluard imaginasse estar morto para o amor, o sentimento não desistiu dele, foi só mudando de fortma e de apresentação. O importante não é seguir a música, é criar a própria melodia com qualquer pessoa, e isto vale tanto para uma relação amorosa quanto para uma relação familiar ou de amizade. Valeu pelo comentário!

  3. Entre tantas observações que posso fazer a respeito desse texto riquíssimo, preciso destacar a de que escrevo para completar minha alma também. Ela é exigente, sabe como é, e não me deixa em paz🙂 Fabuloso texto, Gustavo. Uma reflexão profunda sobre como a vida se renova mesmo ainda sendo vida. Não há vida após a morte mas há após a vida mesmo rsrsrs Parabéns!! Beijoss

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