Livro: “Silente”, de Renato Tardivo

silente

 

Daqui a alguns (ou muitos) anos, quando falarem da literatura das primeiras décadas do século XXI, com o necessário distanciamento que somente a passagem do tempo é capaz de proporcionar, talvez os teóricos e analistas se debrucem sobre as peculiaridades da produção literária de São Paulo. O Rio Grande do Sul anda repleto de lançamentos de livros interessantes, forçando a minha leitura a se manter restrita a estas plagas. Quando minha atenção escapa para São Paulo (ou outros Estados do Brasil, pois a literatura pernambucana também passa por um momento pujante, bem como a produzida no Rio de Janeiro, sempre solar e límpida), surpreendo-me ao ver livros com temática quase estrangeira, ainda que escritos em português. Em São Paulo, a característica mais singular é uma literatura urbana, mas diferente daquela que estou acostumado a ler. Quase não existe fantástico e, quando ele aparece, surge na forma de estranheza. Os sentimentos são cruéis e não visam as lágrimas, mas o impacto, o soco no espírito do leitor. Não se ambiciona a catarse ou a epifania; busca-se a síntese, o rompimento das expectativas, o silenciar da polifonia com um grande e único ponto final. Existe uma espécie de angústia dos paulistas com a própria cidade; o local em que vivem entranha-se na sua obra, construindo prédios gigantecos entre as páginas, deixando sombras de violências inomináveis a cada vírgula, traçando rastros velozes e indiferentes como os faróis de um carro em alta velocidade a cada frase. Os escritores procuram construir praças dentro de cada livro, locais em que se possa respirar um ar puro, ainda não conspurcado. Neste mundo fictício e longe do real, tão próximo da República de Platão ou da Utopia de Thomas More, os escritores paulistas tentam instituir um espaço em que a cidade se mantém afastada. No entanto, a sua sombra persiste, assim como o labirinto enlouquecedor de ruas, o sufocamento do ar respirado e trocado democraticamente entre anônimos, o onipresente som dos aviões que tecem suas ameaças do céu.

Estranho fenômeno ocorreu quando li “Silente”, do Renato Tardivo. A leitura aconteceu há alguns meses e foi normal, ou tão normal quanto pode ser uma leitura. Li o exemplar de forma direta, conto após conto, sem pular parágrafos ou antecipar finais para saciar a minha curiosidade. Eu já tinha lido metade do “Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura Arcaica” e fui forçado a parar no meio para revisar alguns conceitos essenciais de fenomenologia que tinha esquecido, o que é um grande mérito do autor, fazer uma obra capaz de forçar o leitor a voltar para outros livros apagados pela memória.

Normalmente, logo após terminar um livro, deixo passar uma semana para as impressões mais falsas desvanecerem e, então, sento na frente do computador para escrever estes comentários, que uso mais para exercício da forma e o prazer de debate interno (nem todos os comentários vão para internet, muitos são os chamados, poucos os escolhidos). Com “Silente”, eu me senti bloqueado, e isto não é algo comum. Não conseguia chegar ao âmago das sensações e pensamentos que tive ao ler os contos. Deixei o tempo fluir, pensando em como tratar um livro que parecia se esquivar do meu contato.

De repente, duas semanas atrás, comecei a experimentar insights. Do nada, eu via uma situação na rua e lembrava de algum conto de “Silente”. Conheci um homem milionário e deprimido, e lembrei da vida vazia retratada em “Cinema diário”. Uma mulher esbaforida entrou no elevador do prédio e, sem perceber que eu não era ascensorista, com olhos vazios falou o andar para que eu apertasse o botão, e lembrei de “Sétimo andar”. Um grupo de aeromoças passou por mim na rua, trocando aqueles sorrisos plásticos e pintados que somente elas possuem, e lembrei de “Doce perfume”. Os contos afloravam de forma natural, como se sempre tivessem estado na minha cabeça. Foi então que percebi: “Silente” não é um simples livro. É uma bomba relógio, feita para explodir algum tempo depois da leitura. Ele não entra na traiçoeira memória imediata, repleta de impressionismos e dúvidas; da mesma forma que uma insidiosa cobra, crava seus dentes direto no subconsciente do leitor e lá passa a residir, tal como um parasita, aparecendo nos momentos mais estranhos.

Antes de prosseguir, anuncio que acho lastimável esta tendência moderna de identificar o escritor com a sua profissão, como se existisse alguma explicação lógica para a pulsão criativa, como se fosse possível traçar um inevitável paralelo entre a profissão de alguém e o seu fazer literário. O fato de Renato Tardivo ser psicanalista não tem nada relacionado com os seus contos. Eles se sustentam por si e por seu valor literário inerente. O autor não se refugia na narração insossa de dramas ou na busca de sentimentos superficiais. Ao contrário, afunda no não-aparente, desconstruindo o personagem em um movimento quase arqueológico, à procura das motivações que estão no fundo. O máximo que esta vinculação do escritor com a profissão representa é algo que detectei na obra de outros psicanalistas – em especial o grande Juarez Guedes Cruz, já tratado neste blog -, ou seja, uma grande sensibilidade no trato da alma humana. No entanto, não é um privilégio exclusivo dos psicanalistas.

Impressiona que um livro tão pequeno (74 páginas) tenha tantos contos (14), acrescidos de um posfácio do Rinaldo de Fernandes. Esta constatação matemática já demonstra que Renato Tardivo é um escritor da linha de Hemingway, aquele tipo que busca extrair o máximo de sentido com o mínimo de texto. Se eu fosse seguir a norma teórica do conto, diria que ele precisa ter unidade de tempo e de espaço, em torno de uma ação única e com uma história oculta (ou cifrada). No entanto, só estes elementos não bastam para fazer um conto bem sucedido, é necessário um burilamento exaustivo da forma, até que cada palavra seja a única possível e necessária em cada frase. Tardivo é bem sucedido em boa parte do livro, ainda que a minha chatice tenha detectado algumas frases ou expressões sobrando, mas não foi algo que atrapalhou a leitura. Apesar disso, o esculpir das frases é sempre algo a se observar.

Abrindo o livro, um conto quase singelo e de força inesperada, “Câncer”, traça uma analogia entre o ato de criar com a pulsão de morte que reside em todo ser humano, ao mesmo tempo em que o narrador está transando. Três elementos díspares, cada um digno de um tratado, e condensados com eficiência em duas exíguas páginas. Em “Silente”, o narrador transita por um estado quase lisérgico, uma espécie de limbo, alternando histórias em diferentes momentos de tempo enquanto está no hospital, imobilizado por conta de um acidente de trânsito. Ao mesmo tempo em que deseja ser salvo, ele anseia pela libertação, e esta história se assemelha a um mosaico construído pelo próprio leitor. Não é um conto que se define dentro do livro, a história surge mesmo é na apreensão do leitor daquilo que ele imagina que aconteceu e, como toda boa história, deixa lacunas que o outro terá que descobrir sozinho, com as suas próprias vivências. Sem sombra de dúvida, “O avesso da casa” é um dos contos mais nojentos que já li, e destaco isto com admiração, pois construir uma nojeira dentro do texto literário precisa de muito timing e precisão para não ficar caricato, além de necessitar manter coerência com o personagem.

Existe uma forte preferência pelo tema do suicídio e morte: quase todos os contos possuem esta temática, que é bem trabalhada, mas, como um jogador que comete várias faltas pequenas e acaba ganhando um cartão amarelo pelo “conjunto da obra” (no eufemismo usado pelos narradores de futebol), pelo somatório acaba gerando uma pequena sensação de deja vú. O fato dos contos serem muito bem desenvolvidos faz com que esta impressão se apague, mas, se considerarmos que a vida gira em torno da pulsão de morte, nada mais apropriado que eles também reflitam tal angústia.

Mexendo no livro enquanto escrevo este texto e fazendo releituras rápidas de trechos de alguns dos contos, constato que gostei de quase todos, e isto é raro de acontecer, deixando evidente a frase do autor de que “a literatura é um ato de generosidade”. Gosto muito da idealização do passado confrontada com a passagem do tempo em “Marília” (um conto muito comovente), aprecio demais a proposta misteriosa e tensa de “Desembarque” (em especial o seu final), “Travessia” é uma pequena obra prima na exploração dos sentimentos da filha com a mãe, geralmente a literatura aborda o caminho contrário. O único que não gostei tanto é “Doce perfume”, mas mais por uma questão ideológica própria do que pelos méritos do texto: não aprecio contos cujo centro do conflito é mexer com as percepções de gênero dos personagens, estilo “você está pensando que sou um homem e, no final, seu preconceituoso, vai descobrir que sou uma mulher”. Eles sempre me parecem uma brincadeira com as percepções, não um conflito real, pois todos sabem quem são, ninguém pensa nisto como forma de surpreender o outro. Contudo, volto a dizer que é uma opinião pessoal.

Iniciei este texto falando de como a cidade de São Paulo se internaliza na obra dos seus autores, queiram eles ou não, em uma sensação que remete à claustrofobia. “Silente” é um bom exemplo desta percepção. Nenhum dos contos foi feito para gerar emoções baratas nos leitores. Ao contrário, as emoções são delicadas, diluídas no movimento da metrópole que se mexe com a lerdeza de um paquiderme, mas com a inexorabilidade de quem vive um dia de cada vez. As imagens poéticas são poucas e bruscas, quase escapam no meio da paisagem árida. É confortante ler uma literatura que não apela de forma descarada para emoções simples, uma literatura que toca a alma com a mesma sutileza com que o arco acaricia as cordas de um violoncello. Bom exemplo é o conto “Semente oca”, onde a morte de um filho é descrita pelo ângulo do pai que recebe a inquietante notícia através do telefone. Sonho e realidade se misturam na narrativa e os sentimentos, explosivos, são controlados com esforço em uma angustiante sequência repleta de incredulidade e horror: “Nosso filho morreu. O quê? Nosso filho morreu. O quê? Nosso filho morreu. O quê? Nosso filho morreu. O quê? Nosso filho morreu. O quê? Nosso filho morreu. O quê? Nosso filho morreu. O quê? E nessa troca de palavras, três para um lado, duas para o outro, eles misturavam também afetos como jamais haviam feito. Nosso filho morreu. O quê? Nosso filho morreu. O quê? Nosso filho morreu. O quê? Nosso filho morreu. O quê? A lâmina de sol, que virara negrume, que tornara a ser de sol, e negrume, e sol, e negrume, encharcava a parede do quarto. Nosso filho morreu. O quê? Nosso filho morreu. O quê?” A repetição do mesmo diálogo passa um escalonamento das emoções enfrentadas pelo protagonista do conto, sendo possível ao leitor imaginá-las na ordem que ocorreram – ou não, também pode transmitir uma sensação de que o mundo parou e morreu naquele segundo exato. É preciso extrema habilidade narrativa para realizar este balanço narrativo.

Situando as suas narrativas em estágios que beiram a inconsciência, o sonho e o delírio, Renato Tardivo constrói um livro de intensidades ocultas. Os contos curtos escondem universos de possibilidades. Os sentimentos estão em um código que os sentidos demoram um pouco para decifrar, mas, quando conseguem, se entranham no espírito e não mais o largam. No entanto, você, caro leitor que desejar mergulhar neste livro, saiba que só sentirá o seu verdadeiro impacto daqui a algumas semanas. Neste momento, você verá todos os contos acontecerem ao seu redor e pensará, incomodado, que o autor previu o seu futuro. Acalme-se, isto é impossível: ele só viu o seu verdadeiro rosto, aquele que o espelho hesita em mostrar. Apesar de ser um livro silencioso por definição, “Silente” é uma obra que conversa direto com quem manda – o inconsciente. Não é à toa que sempre nos alertaram de que as pessoas quietinhas são as mais perigosas.

 

P.S.: como reclamaram da ausência dos links de compra dos livros que cito, começarei a colocá-los para quem tiver interesse em adquirir:

Silente: http://www.7letras.com.br/silente.html

Porvir que vem antes de tudo: http://www.atelie.com.br/shop/detalhe.php?id=612

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1 comentário

Arquivado em Literatura, Renato Tardivo, resenha, Silente

Uma resposta para “Livro: “Silente”, de Renato Tardivo

  1. Fiquei com muita vontade de lê-lo!

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