Livro: “Em que coincidentemente se reincide”, de Leila de Souza Teixeira

Nos últimos anos, com base nas leituras que fiz (e foram várias), percebi que a literatura oscila entre dois pólos: um deles é aquele defendido por Borges, que afirma desejar a obra absoluta, um livro sobre tudo, o “Liber Mundi“. Nele estaria sintetizado o universo, todas as histórias já escritas e ainda por escrever. Seria a reconstrução da Torre de Babel, cuja queda semeou a discórdia e a separação entre os homens. O livro representaria a reunificação da Humanidade, sendo, por conseguinte, algo completamente utópico. No outro extremo, existe a proposição feita por Gustave Flaubert em seu “Cartas Exemplares”, onde confidenciou a um amigo o seu desejo de escrever um livro sobre nada. Não o nada metafísico, mas um livro capaz de segurar a sua integridade somente em torno do estilo do autor. Seria uma obra sem tema específico, impossível de ser resumida em poucas palavras, mas que congraçaria todos os leitores em torno do estilo, este voo de beija-flor do autor sobre as linhas que traça.

No seu “Em que coincidentemente se reincide”, Leila Teixeira faz um livro sobre o tudo e sobre o nada, oscilando entre os dois entendimentos. Ora debruça-se sobre o vasto universo, ora equilibra-se sobre um abismo existencial. Não é um livro de emoções derramadas, apesar de estar carregado de sentimentos. Não é um livro racional, apesar de estar repleto de filosofia. No jogo dos contos que se duplicam em espelhos distorcidos, as histórias mostram-se encerradas e, ao mesmo tempo, como partes de uma outra e mais longa história que atravessa a existência.

Em alguns momentos, perguntei-me se não estava lendo um livro eterno. Não pensem que estou louco: não existe tal figura, o livro eterno, ou uma obra que se refaz a cada leitura, reformulando-se e refrasando-se, isto é algo que só existe nos contos de fadas. A obra de Leila é finita – os contos estão ali, aptos a serem lidos, mas não decifrados. Aí está a chave do sucesso do livro: deveriam avisar na capa que existem dois tipos de leitura admissíveis – uma, a leitura sensorial, descompromissada, que o leitor entra quando quer e sai sem maiores consequências, somente pelo prazer de ser agradado ou, duas, a leitura que procura decifrar signos e significados, que investe contra o texto como Dom Quixote contra o moinho, vendo um gigante ameaçador e encontrando a palavra sempre insuficiente e necessária. Deveriam escrever isto na capa do livro: leitores, tomem cuidado e pensem bem o que desejam da leitura. Apesar da esperança do cavaleiro da triste figura, o moinho ainda é sólido, e bater nele nos faz descobrir mais a nosso respeito do que sobre ele.

Preciso confessar que já li “Em que coincidentemente se reincide” três vezes: a primeira por curiosidade, a segunda para ter certeza de algumas questões que ficaram pendentes e a terceira para escrever uma apresentação sobre ele. Cada leitura foi feita como se eu estivesse diante de um livro novo. Ele foi lançado menos de quatro meses atrás, penso, e não é do meu feitio reler algo com tão pouco espaço entre leituras. O tamanho diminuto (96 páginas) é enganoso: um desavisado pode imaginar estar lendo um livro rápido. Contudo, quem se aprofunda nos contos, entra em um bosque tão insondável que não consegue deixar de encontrar novos caminhos e possibilidades interpretativas. Esta reiteração na leitura – estaria eu também coincidentemente me reincidindo? – me deixou com dúvidas a meu respeito. Se no intervalo de quatro meses eu li três livros diferentes dentro de um mesmo exemplar e com as mesmas palavras, quantos livros diferentes encontrarei dentro dos contos da Leila Teixeira até o fim da minha vida?

É uma dúvida interessante. Pensando a respeito dela após a minha TERCEIRA leitura (desculpem, mas este detalhe numérico ainda me espanta), cheguei à conclusão de que a autora conseguiu o feito de multiplicar os livros que existem dentro de um exemplar através de uma inédita utilização do tema tão batido do DUPLO.

Talvez todos os leitores da Leila tenham visto este fato, pois ele está anunciado dentro do título (que já remete ao duplo), talvez eu seja o único cego que demorou a perceber tal qualidade. O duplo é um dos temas mais recorrentes da literatura. Como exemplos de duplo, cito “William Wilson” do Poe, “O retrato de Dorian Gray” do Oscar Wilde e “O estranho caso do Dr. Jekyll e de Mr. Hyde”, do Stevenson. O duplo também é muito abordado pela crítica literária. No seu ensaio “O estranho”, Freud identifica o duplo com aquela sensação de “inquietante estranheza”, algo que é idêntico ao original e, ao mesmo tempo, completamente diferente. O conceito de estranho identifica-se com o algo não familiar, desconhecido e, por consequência, suspeito. O significado extrapola a diferenciação entre familiar e não familiar, chegando à conclusão de que o estranho é aquele algo já conhecido que se encontra enclausurado no inconsciente. Partindo do conto “O homem de areia”, do Hoffmann, ele menciona que o duplo existe para definir o mesmo, ou seja, o duplo é um desejo de individualidade do próprio ser por meio do confronto com uma criatura que lhe é semelhante. E existe duplo maior do que um escritor diante da obra, a sua individualidade sendo plasmada e repetida no subjetivo da própria criação?

Muito se pode falar a respeito do duplo, é um assunto inesgotável, mas outros já lidaram deste tema com muito mais propriedade e entendimento. Retornando ao livro da Leila Teixeira, impressiona como o tema do duplo foi recomposto e recombinado. Sinceramente, como mencionei, achava este assunto um pouco batido (anos de filmes hollywoodianos contribuíram para esta minha frustração). A autora refrescou o tema e lhe deu uma nova abrangência. Eu diria que recriou o duplo no século XXI se não fosse um tanto exagerado dizer isto de um livro de estreia com exíguas 96 páginas. Melhor o caminho mais moderado: a autora flagrou um movimento quase imperceptível na sociedade, esta estranheza que nos faz ser tão díspares, e transferiu tal inconformidade para seus contos.

O duplo aparece ressemantizado. Ele não é mais a cópia do mesmo, possuindo novas variações. Existe o duplo óbvio: os contos se replicam e desfazem dentro do próprio livro, uma história é lida de uma forma e, em seguida, os mesmos personagens aparecem em outro contexto. Existe o duplo sentido: a interpretação do mesmo gesto por duas pessoas pode ter diferentes possibilidades, como em “(Ana)”, onde o toque acidental em uma perna desencadeia o longo fluir de sensações, nas quais o duplo é sempre ameaçado pela sombra incômoda do terceiro vértice do triângulo. Existe o duplo da linguagem: quanto de sentimento uma linguagem racional e entrecortada pode revelar sem romper a isenção, caso de “Corte seco”. Existe o duplo narrativo: os narradores da autora às vezes saem de um personagem e, como dançarinos, trocam de posições dentro do texto, conduzidos com delicadeza tal que, quando o leitor percebe, o passo impossível foi realizado. Existe o duplo simples, clássico: dois irmãos que se admiram, se amam e o caçula segue os passos profissionais e ideológicos do outro. Existe o duplo de situações: os conflitos na fronteira do Oriente Médio não são diferentes dos conflitos que surgem na fronteira Brasil-Uruguai, pois envolvem seres humanos, cujos dramas não conhecem limites. Existe o duplo no tempo: em “Oito”, a narradora passa suavemente do futuro para o passado e vice-versa e, como diante de um prestidigitador habilidoso, o leitor sequer consegue ver a mágica acontecer diante dos seus olhos.

Por fim, em um lance de supremo arrojo, Leila Teixeira faz o duplo do próprio autor: ela surge como a improvável personagem de um de seus contos, “Doutrina dos ciclos”, anunciando o suicídio que pretende consolidar. Os limites entre autor e personagem se desfazem; em um jogo arriscado, que poderia colocar em xeque a verossimilhança do livro todo, Leila se transmuta em outra Leila ficcional, e aquilo que pareceria um estéril jogo estilístico revela-se uma atitude de extrema sensibilidade. Muitas interpretações podem surgir desta aparição quase fantasmagórica da autora dentro da sua obra, mas a que mais gosto é aquela que identifica o fazer literário com um suicídio: não estaríamos nos jogando para a morte, para o público, a cada palavra traçada? Escrever também é doar uma parte da vida. Talvez por este motivo, os contos em que Leila surgem no livro (identifiquei a sombra dela espreitando atrás de outras histórias, depois que se entra uma vez, é necessário conviver com o ônus de tal decisão) são os mais sensíveis.

O livro se divide em duas partes, com contos que se encaram como se estivessem separados por um espelho. Engana-se quem imagina que, do outro lado do reflexo, vai encontrar a completude. Existe um espaço vago, impossível de ser preenchido pela história ou pelos personagens, somente pelo leitor. Unindo as duas partes do livro, encontra-se um singular conto, “Noctiluca”. O próprio termo é auto-explicativo: “noctiluca” é a luz que brilha na noite, como um farol. Assim como nenhuma das partes se encontra dentro deste conto, as duas estão representadas nele. As palavras são fortes, mas sem descambar para a auto-comiseração e sem se refugiar em comentários simplistas. A personagem que narra o conto está se desfazendo dentro das histórias, e espera que a luz seja suficiente para guiá-la de volta, conceder alguma concretude para o inefável perdido.

Em postagem anterior deste blog (http://wp.me/p24M2p-fY), contei que assisti Leila de Souza Teixeira ler o “Noctiluca” em um evento. Este foi o meu comentário: “A leitura da Leila também foi diferente daquela que fiz. Pela primeira vez, percebi a construção intrincada de cada frase, com a sua pontuação elegante, a forma com que o assunto se desenrola quase como um novelo, trazendo o leitor para se perder no meio da trama. Não existia palavra sobrando ali e, o que a leitura não tinha de sensibilidade, tinha de beleza e aspereza, em uma sensação quase dolorosa de tão física. Quando li “aleluia”, palavra repetida algumas vezes no início, podia sentir anjos abrindo a história ao meio e gritando com vozes repletas de luzes “ALELUIA”, trazendo claridade ao conto. No entanto, da forma com que a Leila interpretou o “aleluia”, é mais como uma lanterna tímida no meio da escuridão do abismo, um vagalume distante que acende e apaga, quase indiferente na sua tristeza. Ao contrário da leitura feita pelo Juarez, aquela praticada pela Leila demonstrou que a sua história é mais atemporal e os sentimentos do autor estão espalhados atrás da forma. Creio que, daqui a alguns ou muitos anos, se ela tiver a oportunidade de ler o conto em voz alta novamente, o sentimento passado com a leitura será pouco ou nada diferente daquele que vi ontem.” De certa forma, minha impressão tem muito a ver com o sentido da história dentro da estrutura do livro: “Noctiluca” é um conto de ideias, algo que fornece a espinha dorsal do duplo; seria mais ou menos como o cabo do espelho, ou a aresta que determina seus limites. Ele não foi feito para ser entendido, pois funciona como uma espécie de decodificador dos sentimentos espalhados pelos outros contos.

Nos contos de “Em que coincidentemente se reincide”, encontram-se referências claras ao estilo de Cortázar, Hemingway e Borges. Incomodou-me um pouco que estas referências tenham ficado tão explícitas e fáceis de detectar. Os contos que me pareceram mais fortes e impactantes foram aqueles em que se tornou impossível ver a fonte de onde Leila Teixeira tirou a sua inspiração, aqueles que partiram mais da sua emoção do que do desejo de seguir uma forma pré-estabelecida. O conjunto do livro e a ideia tão cuidadosamente forjada perderam um pouco da sua coesão, foi como se a autora precisasse de um “padrinho literário” para contar a história, como se não confiasse no próprio talento narrativo, cuja mostra foi fartamente exemplificada no restante do livro. Da mesma forma, em alguns momentos, uma certa irregularidade pesou sobre a narrativa. No mesmo evento que citei acima, Leila confidenciou que os contos foram escritos em muitos tempos diferentes e no espaço de alguns anos. Esta circunstância restou visível em determinados trechos do livro, pois alguns contos revelam uma linguagem madura e uma construção elaborada, ao passo que, em outras histórias, as construções narrativas pareceram perder um pouco da poesia. Foram pequenos ruídos na minha experiência como leitor (como TRÊS VEZES leitor, não canso de me admirar), mas não foram suficientes para afetar a minha opinião geral do livro. Talvez seja um pouco de rabugice, no sentido de desejar ler mais livros da Leila antes que ela demore outra década para lançar o próximo trabalho. Pelo material lido, ela não precisa se sentir insegura com o seu trabalho – é o de uma escritora mais madura do que a sua idade cronológica revela.

Nos contos, a autora faz muitas referências ao trabalho de fotógrafos e de editores do cinema. Sua linguagem também guarda resquícios da capacidade de flagrar um instante e transformar em narrativa, assim como possui forte viés cinematográfico. Mesmo quando descrevem os sentimentos invisíveis de um personagem, as palavras passam concretude e certeza; é um texto enxuto, mas as emoções transmitidas nele são abundantes. Ao escolher o duplo como tema primordial das suas histórias, Leila de Souza Teixeira se inscreve no rol dos autores que já abordaram esta inquietude, e não fica devendo nada para ninguém. Sem medo de soar clichê ou ultrapassada, ela transformou em contos as incertezas descritas no poema “O Outro”, de Mário Sá-Carneiro:  “Eu não sou eu nem sou outro,/ sou qualquer coisa de intermédio,/ pilar da ponte de tédio,/ que vai de mim para o outro”. Se conseguiu ter sucesso ou não, é algo que somente suas próximas obras dirão. O que posso falar, com certeza, é que “Em que coincidentemente se reincide” vale não somente uma leitura, mas algumas. E falo isto na condição de uma pessoa que já leu a obra mais de uma vez e continua se sentindo em um misto de fascínio e inquietação – como todo bom duplo nos deixa.

 

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2 Comentários

Arquivado em Duplo, Em que coincidentemente se reincide, Leila de Souza Teixeira, Literatura, resenha, Temas de crítica literária

2 Respostas para “Livro: “Em que coincidentemente se reincide”, de Leila de Souza Teixeira

  1. Só posso dizer que sonho com o dia em que possa ter a resenha de um livro meu neste blog. Saberei que terá valido a pena, sentimento que a Leila deve ter experimentado. 🙂

  2. Kelli Pedroso

    Eu também recomendo o livro da Leila. Excelente resenha, como sempre.

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