Eu e Gabriele

Hoje pela manhã, olhei a caixa onde ela repousava no seu sono de gisant e disse: preciso de ti, velha amiga. E ela saiu ao mundo. E fez-se o Verbo – novamente.

Saiu cheia de razão: imaginava que eu a tivesse trocado por outro modelo mais recente ou até mesmo – horror dos horrores – por algum computador. Gastei poucos minutos limpando-a e ouvindo seus queixumes. Ao contrário de outros escritores, não temos uma relação passional , hostil ou amorosa. Precisamos um do outro, e este é o conceito mais puro de amizade, aquele que Montaigne esculpiu ao falar de La Boétie quando perguntaram o motivo dele ter amado o amigo: “Por que era ele, por que era eu.” Nenhuma explicação é suficiente nestes assuntos.

Não existe objeto mais sexual do que uma máquina de escrever. Cada arremetida do dedo é uma estocada que faz o corpo metálico estremecer. Cada letra tem o seu grito peculiar (às vezes eles se sobrepõem em múltiplos esgares) – e quantos gritos moram dentro da menor das palavras? A literatura escoa com dor e gozo. Cada palavra sai com a responsabilidade de ser a exata, ou a folha precisará ser refeita. Cada batida, uma dor no dedo, uma dor na máquina. Se você vai sofrer, não pode errar. Ela te ensina a respeitá-la e que existe um preço por cada tecla impensada, por cada palavra mal refletida, por cada distração.

Até o termo “máquina de escrever” é mágico. Quem escreve a história, o homem ou a máquina? Aí está uma pergunta que não consigo responder. Às vezes, acho que as teclas servem de caixa de ressonância para meus pensamentos. Em outras ocasiões, parece que as teclas possuem o seu próprio ritmo e sabor, como se a história lhes pertencesse e os meus dedos fossem escravos da sua sedução.

Eu reluto muito em usar a máquina de escrever. Neste mundo de facilidades, a maciez do teclado e a facilidade de corrigir o erro faz com que tudo soe impulsivo. Quando retiro a máquina do seu descanso, sei que entrarei em uma espiral de dor. Sei que o negócio ficou sério e que a história está, enfim, madura.

Sei que vai doer mais em mim do que nela. Ainda assim, Gabriele me promete o triunfo. Um triunfo digno dos generais romanos – e completamente solitário. Gabriele é o escravo que anda atrás do vitorioso, sussurrando: “lembra-te que és humano”. Lembra-te que pedi teus dedos e tua mente em sacrifício por este triunfo. Lembra-te que és carne e eu sou ferro.

Gabriele não sabe, mas tenho outra máquina de escrever com quem dividi muitos dos meus erros e dores. Está no meu escritório, e dorme o sono dos paquidermes (ela é extremamente pesada, e o simples ato de levantá-la já demanda uma força grande, idêntica àquela necessária para fazer ressoar suas teclas antigas). Toda vez que a olho, ela me passa uma sensação de tranquilidade, de ser inexorável no seu silêncio. Suspeito que ela existe desde o início dos tempos e que continuará existindo após o fim do Universo. Se estou em um momento religioso, penso que foi nela que Deus se sentou para escrever nossa história. Se me sinto mais racional, sei que o Big Bang começou com uma tecla, disparada com fúria contra o papel branco.

Máquinas de escrever também servem como túneis do tempo. Cada tecla ressoa com o fantasma das minhas pancadas de outras vidas em que já estive; elas ainda estão doloridas, ainda lembram do espancamento, da violência. Passando a ponta do dedo sobre elas, quase posso ver os momentos em que estava teclando, ou as palavras que elas formaram com suas letras, as palavras virando frases, as frases virando parágrafos, os parágrafos virando capítulos, os capítulos se transformando em livros. Quase consigo sentir meu passado, apesar das teclas implorarem por um futuro.

Eu sei que pode soar anacrônico escrever em uma máquina de escrever nos tempos atuais, com a abundância de facilidades para escrever. Pode parecer uma tola homenagem aos escritores que já se debruçaram sobre elas. Pode ser a igualmente tola sensação de que, para escrever, precisa de mais do que alma, precisa também usar o corpo. Pode ser a vontade (ou a paranoia) de que as palavras sobrevivam aos traiçoeiros bytes – nunca sei onde o meu texto está dentro do computador. O que realmente sei é que existe algo de tranquilizante no som que ela faz. No seu peso. No conforto do inexorável metal, na engrenagem que move a olhos vistos e faz a letra ganhar carne e sangue de tinta.

Teclar nela é como voltar para casa. Eu e Gabriele, novamente contra o mundo. Eu e a minha máquina – lutando contra a astuta história que se esconde na bruma da inexistência.

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4 Comentários

Arquivado em Crônicas, Literatura, Máquina de escrever, Produção Literária

4 Respostas para “Eu e Gabriele

  1. Kelli Pedroso

    Nossa, Gustavo, que texto mais lindo. Me arrepiei em vários parágrafos. Uma das coisas mais lindas que já li. Clap! Clap! Clap!

  2. Concordo com a Kelli. É perfeito. E me pergunto se vc realmente ainda escreve nesta máquina ou é um fingidor na exata acepção de Pessoa incutindo em nós a dor que não sentes.

    • Hahahaha, Angela, quem dera eu fosse um fingidor no estilo de Pessoa: assim meus dedos não doeriam tanto (doem as pontas dos dedos, as marteladas são fortes, não estamos mais acostumado com a dor, faltam-nos os calos necessários). Quem sofre mais é o teclado, pois, quando volto para ele, o coitado pena com a transferência das pancadas que dei na máquina de escrever. Na dúvida, meus dedos continuam batendo forte.
      Como escrevi, quando invoco a Gabriele, o negócio ficou sério. A brincadeira acabou. Começou a Copa do Mundo. É um pacto com o diabo, mas vale a pena cada mínima dor.
      Obrigado pela leitura e pela lembrança do Pessoa, ri bastante. 🙂

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