Original, cópia, homenagem: um passeio pelo “Jardim das Delícias” de Hieronymus Bosch e o mesmo jardim de Vik Muniz

Nos últimos tempos, estou extremamente indignado com várias situações e lugares comuns. Fico resmungando a minha raiva pelos cantos. Contudo, hoje ocorre-me que eu não esteja indignado, talvez eu seja um inconformado. A Angela Dal Pos, que tem o delicioso blog “Morena de Pintas” (http://www.angeladalpos.com/), diz que eu sou rabugento. Por ser uma pessoa observadora e inteligente, ela constatou este traço da minha personalidade e me desmascarou. Outras vozes já se juntaram nesta constatação: impressionou-me que, para quase todo mundo que perguntei “você acha que sou rabugento?”, a resposta tenha sido tão imediata que quase não deu tempo de terminar a indagação: “Sim!”. Outros ainda chegaram ao requinte de acrescentar “puxa, como tu demoraste a notar isto”, o inquietante “Ah, tu sempre foi rabugento, mas a gente gosta de ti mesmo assim” ou o indefectível “mas isto sempre foi óbvio”. Curvo-me à maioria das vozes. Menos mal que “rabugento” tem um adorável som rançoso, misto de loja de antiguidades e bolor.

No entanto, é impossível silenciar a minha rabugice. Se o eventual leitor do blog quiser continuar vivendo no Mundo da Hello Kitty, onde tudo é bonito e fofinho, PARE AGORA.

Não dá mais para aguentar a quantidade de pessoas que usam indiscriminadamente a obra dos outros no interior da sua e depois dizem que é uma homenagem. Em geral, esta declaração ocorre quando a pessoa é descoberta. Neste momento, ela saca da cartola o coelho mágico: “ah, como és atento, caro leitor, eu homenageei o Fulano e tu enxergaste este detalhe!”. Um argumento medíocre para justificar que o truque foi descoberto, pois existe uma diferença quilométrica entre copiar alguém e homenagear esta mesma pessoa.

Nos meus tempos de mestrado, tivemos longas e irresolvidas discussões sobre esta matéria. A intertextualidade, base da Literatura Comparada, é usada de forma suja no (sub)mundo literário. Ao invés de se acercar de uma fonte, o autor procura reprisá-la em outros contextos, aclamando a sua originalidade em um primeiro momento e, ao ter o truque descoberto, refugiando-se no vago conceito da homenagem. Onde acaba a intertextualidade e começa a cópia? Como diferenciar a homenagem feita a um autor admirado da cópia descarada da sua ideia?

Não confundam cópia com plágio, que é um crime. Falo da cópia no aspecto mais primordial: aquela que mimetiza a IDEIA do outro, não as suas palavras. Tenho lido muitos livros por aí em que sinto o bafejar da respiração de outro escritor surgindo no meio da história que não lhe pertence, e não, isto não é intertextualidade. É uma cópia desavergonhada: pegar a ideia boa de outra pessoa e fazer de conta que é sua. E isto surge com clareza depois que se adquire suficiente treino de leitura: são adjetivos empregados fora do lugar em que o escritor está acostumado a colocá-los, é uma inusitada imagem poética adejando sobre a secura do estilo até então enxuto, é uma estrutura claramente baseada em outra história icônica lida. Todos estes fatos reprisam outras histórias em que eles já apareceram, em algo que chamo de “combo literário”, pois fazem fusões de estilos de outros autores, flutuações quase imperceptíveis para um olhar leigo, mas que restam evidentes para quem conhece um pouco de literatura.

A propósito, elaborei uma lista dos escritores mais copiados no meio das obras que li. Vamos aos nomes: na liderança absoluta, quase empatados, Luis Fernando Veríssimo e Borges (mais uma do “Momento Borges da Palestra”, hehehehehe). Em seguida, Cortázar e Gabriel Garcia Márquez. Nas obras mais recentes, quando a pessoa quer parecer mais intelectual, Vila-Matas e Bolaños. Quando ela quer só imitar um escritor que pensa fazer sucesso, J. K. Rowling, Stephanie Meyer, Stephen King (ainda que o melhor imitador do Stephen King seja o próprio Stephen King, que conta a mesma história da mesma forma desde que começou) e Tolkien. Na poesia, muita imitação de Carlos Drummond de Andrade e, em especial, Mario Quintana. Acho engraçado que as pessoas sejam clichês até nas escolhas de quem vão imitar. Adoraria ver alguém imitando Dickens, Dostoiévski, Tcheckóv ou a ironia de uma Jane Austen. Como sempre, até para fazer cópia está faltando leitura.

Também tenho uma lista de autores – alguns relativamente famosos – que andam por aí posando de originais e seus textos não passam de cópias malfeitas de textos alheios. Não vou revelar os noms, mas eles sabem quem são. E saibam: “meninos, eu vi”.

Vivemos em uma sociedade que considera cópia ou desconstrução da ideia original como homenagem. Estão errados. Homenagem não é colocar o escritor ou artista cuja obra respeitamos dentro do livro. Alguns chegam ao ponto de colocar epígrafes do próprio escritor homenageado, como se fossem esquecer depois de quem roubaram a ideia, deixando o “homenageado” a participar, constrangido, da cópia malfeita da sua própria concepção de mundo. Em algum lugar do mundo, colocar epígrafes dos autores homenageados devia ser crime.

Homenagem é levar a obra do outro a um novo patamar de significação, é fazer além do que foi sonhado, dar um passo maior ainda do que o original. Poucas pessoas conseguem realizar este movimento, pois envolve um estudo profundo da obra do homenageado e uma criatividade virulenta, capaz de superar a matriz original e fazê-la parecer um pastiche trêmulo diante da imensidão do novo. É algo que o próprio homenageado, se pudesse ler, sentiria-se honrado por ser a semente que deu origem a esta nova ideia.

Os exemplos de homenagens feitas com sucesso são poucos, pois esbarram naquelas infelizes que resultaram em cópias pálidas. Na literatura, penso que um dos exemplos mais fantásticos tenha sido “Ulisses”, de James Joyce, que destruiu e homenageou Homero. Se queres ser grande, procure encarar um gigante. Joyce fez isto e, ao mesmo tempo em que homenageou, escreveu algo completamente inovador, ressemantizando o próprio termo da epopéia como vinha desde a época dos gregos.

Outro exemplo que considero incrível são os contos de Horacio Quiroga quando contrapostos a Edgar Alan Poe: é impressionante como o contista uruguaio consegue retirar a atmosfera urbana dos terrores de Poe e transplantá-la para a floresta, longe da civilização, deixando-a ainda mais assustadora. A prosa gótica e rebuscada de Poe presta-se para um uso urbano e, por este motivo, Quiroga inventa uma linguagem gótica peculiar capaz de transmitir a escuridão no meio da selva. Lendo os contos de Quiroga, é impossível não se fascinar ao ver como eles são semelhantes aos de Edgar Alan Poe e, ao mesmo tempo, tentam se afastar e até repudiar a influência, desejando caminhar por conta própria, sem a ajuda de muletas. Aliás, aí está a distinção maior entre cópia e homenagem: enquanto a cópia é preguiçosa e quer ficar o mais próximo possível da fonte original de inspiração para se apossar de um pouco da luz alheia, a homenagem estabelece uma relação de amor platônico e repulsa visceral com o objeto original, uma espécie de atrito, repleto de raiva e respeito.

Outro exemplo de homenagem é o realizado por Vik Muniz para o quadro “O Jardim das Delícias”, de Hieronymus Bosch. Feito pelo misterioso pintor entre os anos de 1480 e 1490, faz parte de um tríptico, em conjunto com “O Paraíso Terrestre” e “O Inferno Musical”. É um quadro enciclopédico. Bosch pintou um sem-número de personagens, fazendo citações elípticas e agrupando-os de forma caótica. Colocou criaturas reais e outras imaginárias. Misturou corpos e situações de tal forma que o jardim das delícias assemelha-se a uma orgia desenfreada. Gosto muito de Hieronymus Bosch, é um dos meus pintores favoritos, em especial pelo desejo insano de retratar o universo dentro de uma tela. Sempre imaginei os quadros dele projetando-se para o interior, indo até o infinito na busca do absoluto, sendo a face da tela somente a superfície do lago em que se esconde o abissal. Também gosto de quadros que contam histórias, e este é um dos maiores modelos, pois existem centenas de histórias e enredos ocultos na disposição dos seus personagens e das cenas. Para qualquer canto que se olhar, surge uma história e, se combinarmos os cenários, elas também se tornam infinitas.

“O Jardim das Delícias”, de Hieronymus Bosch

Certa vez, em um momento de desvario, pensei em imaginar e escrever as histórias que existem dentro deste quadro. Logo constatei ser uma tarefa maior do que o humano, maior do que as minhas possibilidades de tempo (recordo de um conto de Umberto Eco, presente no “Segundo Diário Mínimo”, onde ele faz conjecturas sobre um rei que tentou fazer um mapa com o tamanho exato do seu país e colocando todos os habitantes no seu interior, tentando encontrar uma forma de tornar viável e visível este mapa impossível). Resolvi terceirizar a função: dividi os personagens e as cenas e pensei em chamar alguns colegas escritores para me ajudar nas histórias. Para meu desapontamento, constatei que precisaria de, no mínimo, 80 escritores, e alguns teriam que contar mais de uma história. Para quem não consegue juntar 09 pessoas para jogar basquete, é uma tarefa hercúlea encontrar outros 79 escritores para realizar um pedido deste tipo.

Vou colocar um vídeo do YouTube que retrata o quadro nas suas minúcias mais espantosas e inquietantes:

No início deste ano, o Arthur Tertuliano (que também possui um ótimo blog, com este link: oleitorcomum.blogspot.com.br), sabedor da minha admiração por este quadro, me falou que o artista plástico Vik Muniz fez uma versão com peças de quebra cabeça. Sou muito reticente com estas intervenções artísticas sobre uma obra cujo original gosto tanto, mas me propus a olhar. E o resultado me impressionou:

“O Jardim das Delícias”, homenagem a Hieronymus Bosch feita por Vik Muniz

Vik Muniz fez uma homenagem a Hieronymus Bosch, mas levou a obra até um novo patamar. Utilizando o quebra cabeça, ele mostrou que a figura enciclopédica retratada pela ambição de Bosch não possui mais a concretude do passado. Vivemos em um mundo fragmentado, onde cada pessoa é uma peça tentando encaixar nas outras em busca do seu lugar. Não existe nada mais caótico do que um quebra cabeça com as partes ajustadas, mas não encaixadas. O espectador sente que existe uma ordem ali. No entanto, ela está dissolvida em meio ao caos típico do universo.  Os elementos mínimos retratados no original, tais como animais e criaturas míticas, perderam-se no breu da divisão das peças, escorrendo por entre as rachaduras do quadro. Na pós-modernidade e na rapidez da visão que nos faz prestar cada vez menos atenção no pequeno, não existe mais tanta necessidade de cuidarmos dos detalhes, o que importa é o conjunto geral. Muitas interpretações podem ser feitas a respeito da homenagem feita por Vik Muniz. A mais contundente delas é que a obra de Hieronymus Bosch não é intocável, ela precisa ser redefinida no mundo atual.

A versão de Vik Muniz se afastou do original de Bosch e ganhou vida própria. Quando lembro do quadro original, a sombra da incômoda versão acaba se refletindo junto na memória. Não consigo mais ver um sem pensar no outro. Este é o verdadeiro conceito de homenagem: romper o padrão, desafiar o antigo, redefini-lo e, no meio da ruptura, também prestar os seus respeitos ao original. É um relacionamento de admiração relutante, mais do que um aceno de amizade. Irrita muito que, na literatura contemporânea, a preguiça de imaginar tenha virado insossas tentativas de homenagens que mais insultam o homenageado com seu puxa-saquismo do que lhe respeitam através do desafio.

A cópia de outros estilos como forma de afirmação é exatamente aquilo que parece: um ato covarde. As obras canônicas não estão nem aí para elogios. Elas sabem que é no confronto e na brusquidão da batalha que seus verdadeiros valores se realçam. Portanto, ao invés de seguirmos a multidão que aplaude bovinamente a qualidade do texto de outra pessoa, sejamos aquele que recolhe os braços e diz: “eu posso mais do que isto, eu posso explicar de outra forma a obra que você fez!”. Os ousados sempre são as pessoas mais interessantes.

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1 comentário

Arquivado em Arte, Cópia, Edgar Alan Poe, Epígrafes, Hieronymus Bosch, Homero, Horacio Quiroga, Intertextualidade, James Joyce, Literatura, O jardim das delícias, Original, Temas de crítica literária, Vik Muniz

Uma resposta para “Original, cópia, homenagem: um passeio pelo “Jardim das Delícias” de Hieronymus Bosch e o mesmo jardim de Vik Muniz

  1. Homenagem é ter seu nome e blog citado pelo autor de O homem despedaçado 🙂
    Obrigada!
    Quanto a sua reflexão sobre plágio x homenagem, nada tem a ver com a sua rabugice, pois não se trata de ser um mau-humorado neste caso, mas um sujeito coberto de razão. Não se trata de uma picuinha, mas um assunto sério, que deveria ser assim encarado por todo mundo que escreve ou que lê e que merece um mínimo de respeito e o direito de não ser enganado.
    A propósito do Vick Muniz, há um documentário excelente chamado “Lixo Extraordinário” sobre o trabalho dele com materiais oriundos de um lixão de SP e das pessoas que lá trabalhavam, que é incrível. E que apareceu na abertura daquela novela Passione. Recomendo muito!
    E obrigada por dividir mais essa reflexão.

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