Livro: “A árvore que falava aramaico”, de José Francisco Botelho

O maior elogio que um escritor pode conceder para outro é admitir que gostaria de escrever um livro igual. Contudo, esta é a mais absoluta das impossibilidades. Não existem dois livros idênticos: mesmo se o escritor copiasse o livro do outro, ele teria a sua visão de mundo, já nos ensinou Borges no “Pierre Menard, autor de Quixote”. O próprio escritor é incapaz de se repetir, pois o acréscimo de mais leituras distorce aquele retrato de uma época traçado no lançamento da obra. Cada livro é uma joia única: impossível de ser repetida, impossível de ser sentido com a mesma frescura com que foi originado.

Por sua vez, o maior elogio que o leitor pode conceder a um autor é dizer que as histórias lidas são tão reais que soam como se fizessem parte da sua história de vida, como se o escritor estivesse vigiando a existência alheia em busca de instantâneos indiscretos para colocar nos seus contos. Poucos são os autores que conseguem criar uma verossimilhança tão forte, capaz de se imiscuir na vida do outro e substituir trechos do real.  Estes são os escritores perigosos – aqueles que mudam a vida de alguém através de palavras.

Ao término da leitura de “A árvore que falava aramaico”, de José Francisco Botelho, foi nesta dupla condição que me senti: a relutância em admitir que tinha lido algo único e irrepetível e, ao mesmo tempo, a incômoda sensação de que as histórias de Botelho entravam sem pedir licença na minha vida, ora assemelhando-se a uma existência que eu não tive, ora rivalizando com antigos e inconfessados pesadelos.

Sem sombra de dúvida, um dos livros mais singulares e inusitados que li neste ano repleto de boas leituras. E olhem que estou comparando o valente livro de Botelho com leituras tais como Martin Amis, Henrik Sienkiewicz, Nikolai Leskov e Marcel Schwob, entre outros.

Vários fatores serviram para destacar este livro. Em primeiro lugar, destaco a absoluta falta de jogos estilísticos. Botelho não escreve de acordo com o manual de técnicas literárias, não faz desafios buscando uma estética vazia. Estava com saudade de ler um escritor que não se preocupa com cortes, narradores inusitados, brincadeiras com a estrutura. O leitor deseja uma boa história. A forma com que o autor vai contar é irrelevante: o importante mesmo é se a história cativar desde a primeira linha. Não tinha notado este detalhe entre todas as leituras que realizei até estar diante de “A árvore que falava aramaico” – a falta que uma boa narrativa faz no mundo atual. As obras contemporâneas andam tão repletas de deslocamentos espaciais e temporais, tão cheias de intervenções narrativas, tão repletas desta gosmenta primeira pessoa que se confunde com o autor, que é um alívio indescritível ler uma obra onde tais facilidades são desprezadas em detrimento de uma boa história. Foi assim que a literatura nasceu: com um grupo de homens escutando a história narrada por outro. Foi assim que Homero se tornou eterno, mesmo sem ter escrito nada. No final do dia, o que realmente importa – e aquilo que iremos lembrar – é se a história foi bem ou mal contada.

No entanto, não podemos confundir ausência de jogos estilísticos com falta de estética. Este é o segundo fator que destaco em “A árvore que falava aramaico”. Botelho é um artesão das palavras. Não ourives, esta metáfora batida, mas artesão. Com suficiente silêncio, pode-se escutar, entre as páginas do livro, o martelo desbastando as figuras de linguagem, o formão aplainando as arestas dos adjetivos, a mão acariciando a volúpia da palavra em busca da sua forma exata. Cada frase, por mais mínima que seja, é um trabalho de arte. Não existe frase impune ou sobrando em nenhum dos contos. Não suficiente o fato de usar as palavras necessárias e inevitáveis para contar a história, o autor espicha as frases ou as encolhe ao seu bel prazer, modulando a velocidade da história, seja acelerando-a, seja retardando-a. Assim como os jaguares de “O evangelho do jaguar”, sente-se que a Literatura desliza com a suavidade de um felino preparando o bote no leitor incauto. Mais “A circularidade dos parques”, de Cortázar, seria impossível.

Um terceiro fator que se destaca, ainda ligado às palavras, é a capacidade com que o autor constrói novos adjetivos por meio da junção de palavras dos mais diferentes tipos de constituição gramatical. Aliás, é a minha única e pequena ressalva ao livro como um todo: são tantos adjetivos belos sucedendo-se que, em alguns momentos, ocorria praticamente uma overdose estética. Em alguns momentos, senti falta de algo um pouco menos barroco, um pouco menos esplendoroso. Mas, diante das belezas produzidas, este é um detalhe quase mínimo. Nos tempos atuais, procura-se cada vez mais afastar o adjetivo das histórias, como se ele fosse um vilão para a fluidez da narrativa. Botelho não se importa com esta moda e os utiliza da forma mais caudalosa e fascinada possível, deixando a força das palavras aflorar em meio ao texto. Eu tinha esquecido da beleza dos adjetivos e de como eles podem ressemantizar e ressignificar um texto.

Em “1599 – Um ano na vida de William Shakespeare”, de James Shapiro (já resenhado neste blog), o autor menciona que Shakespeare se destacou do restante da produção literária mundial pelo uso de novos vocábulos. Não vou recordar os números exatos, mas, segundo ele, enquanto Shakespeare usou em média 15.000 palavras diferentes,  o escritor que mais se aproximou dele utilizou mais ou menos 3.000 palavras diferentes. O autor insinua que a utilização do maior número de palavras do vernáculo está diretamente ligado ao sucesso de uma boa narrativa, pois representa novidade e fluidez da história. Longe de mim comparar Botelho a Shakespeare; já cometi várias heresias neste blog, mas, desta vez, passarei longe. No entanto, não posso deixar de realçar o fabuloso léxico do autor e o fato dele invocar palavras que há muito tempo eu não lia, retirando-as do fundo do dicionário e oxigenando-as como se o seu uso fosse cotidiano. Por mais estranho que possa parecer, a alternância de palavras antigas com outras novas não deixa a narrativa rançosa, difícil, mas a transforma em uma progressão de surpresas agradáveis.

Por fim, vamos aos contos. O livro é dividido em duas partes, “As peripécias” e “Grimório”. Na primeira parte, os contos são um pouco mais estendidos e a maioria possui temáticas que representam cenas do interior do estado do Rio Grande do Sul. Juntar a variedade léxica do autor com as palavras peculiares do gaúcho foi uma combinação especial. Nos tempos atuais, muitas pessoas procuram se afastar da temática regional, sonhando encaixar a sua história no universal. Botelho vai para o caminho oposto: ele mergulha na sonoridade das palavras do interior mais interior do Rio Grande do Sul. Não chega ao nível próximo do hermetismo de um Simões Lopes Neto, pois alterna vocábulos gaúchos de singular existência com outras palavras mais eruditas, e sem perder a verossimilhança e o fio narrativo, o que é sempre meritório.

Nesta primeira parte, é difícil destacar algum conto como emblemático. “No dia em que o mundo quase acabou” e “Os gringos” são duas histórias de amor impossível e misterioso, mas contadas com extrema delicadeza e uma intensidade quase sexual. O menino que descobre o sexo com a prima é pouco diferente do peão de estância que se apaixona por uma mulher com quem não consegue se comunicar por palavras, somente pelo sentimento. O conto que dá título ao livro relata a chegada de um primo forasteiro e cheio de segredos em uma família, e de como o menino descobre que o homem futuro já mora no seu interior, mas ainda não está na hora de despertar. “Os caranchos”, conto que introduz algumas das temáticas da segunda parte do livro, é puro Quiroga, quase uma releitura de “À deriva”, à medida em que o homem desliza para a morte sem que a confortadora inconsciência o liberte do fardo dos últimos momentos de vida, permitindo-lhe assistir o horror que se avizinha.

Na segunda parte, “Grimório”, os contos passam para o fantástico e para o imponderável. Afastam-se um pouco dos dramas comezinhos e seguem para o campo das ideias e das teorias. Em “Na casa de nossos pais”, é contada a misteriosa relação entre dois irmãos e o restante da família que abandonaram para correr mundo, sendo que, quando um dos irmãos retorna, descobre que o tempo paralisou em um único cômodo da casa e os irmãos abandonados viraram ratos. A certeza inexorável do personagem em acreditar no impossível é enganosa: o seu olhar encontra-se de tal forma conspurcado pela culpa de ter abandonado a casa dos pais que não se sabe sequer se a família realmente existe ou se ele inventou os ratos para expiar seus sentimentos contraditórios. É um conto forte, repleto de significados que mereceriam uma análise mais detalhada, pois ficou insinuado um certo abuso sexual. “Legião ou o homem multitudinário” é uma história encantadora, verdadeiro refresco para as narrativas massificadas repletas de sentimentos que assolam a literatura atual. É um conto de ideias, um conto de filosofia própria e de consequências impossíveis de serem mensuradas. O autor relata a história de quatro homens, mesclando-os e dissolvendo-os, tudo para relatar a sua tese improvável: de que existe um homem possuindo outros e tomando conta dos corpos alheios, uma espécie de praga invisível (senti outro eco de Quiroga, desta vez com “O travesseiro de plumas”, uma criatura insidiosa que assume o corpo e a vontade do outro sem ser detectado). A forma com que o narrador descobre esta teoria é prodigiosa: o homem que está deitado sorrindo é o mesmo homem que está de pé. É o duplo levado às últimas consequências, pois os dois se olham e ambos se imaginam originais. Além disso, também é um conto que me passou outro desconforto: a duplicação de Nielsen (ou a sua capacidade de possuir e se espalhar entre os outros) é mais ou menos a forma com que a cultura se dissemina no mundo atual e como as modas surgem e desaparecem.

“O evangelho do jaguar” está entre os contos mais inquietantes que já li. O jogo de xadrez encontrado em um apartamento deserto é um vampiro psíquico. Coloquei-o no mesmo patamar de uma “Configuração dos Lamentos”, pequeno quebra cabeças que, acaso decifrado, abre as portas do Inferno, tudo na obra de Clive Barker (passar de Shakespeare para Clive Barker deve me assegurar chibatadas em algum lugar). As engrenagens do jogo, o fato do personagem duplicar-se enquanto está jogando, o simbolismo borgeano dos jaguares que espreitam o movimento das peças tornadas vivas por um curioso movimento anímico, tudo contribui para um arrastar mágico da história. O xadrez exaure o homem enquanto lhe promete a divindade. O personagem oscila entre o sonho e a realidade e, no final deste conto, Botelho dá uma nova e perturbadora versão para o duplo. A impossibilidade de fazer os dois reis se matarem ou morrerem simultaneamente força o personagem a encontrar uma única saída para o dilema de matar o humano e o divino. Lembrou “O Sétimo Selo”, com o personagem jogando xadrez com a própria morte.

Nos últimos eventos em que compareci, constatei um peculiar hábito: quando instados a esclarecer as influências ou ecos que bafejaram as suas histórias, geralmente os escritores apontaram Borges como referência. Borges transformou-se um porto comum onde quase todos os autores atuais se refugiam. Tenho sérias dúvidas se estes autores leram Borges ou ouviram falar dele, pois não sinto tantas influências assim quanto eles informam (apelidei este de “Momento Borges” da palestra, hehehehehe). Percebo esta resposta na ponta da língua de todos os escritores por que é fácil encontrar, em alguma curva do labirinto borgeano, o falso fio de Ariadne que levará o autor a encontrar um pouco do DNA do escritor argentino na sua criação. Chama minha atenção que José Francisco Botelho não tenha a ambição – ou pretensão – de se reconhecer como um herdeiro de Jorge Luis Borges. Ele presta suas homenagens aos temas tão caros ao autor já falecido, mas prefere utilizá-lo como trampolim irônico para a sua própria criação. Quando os jaguares surgem, impossível não lembrar de “A escrita de deus”. O próprio tema da divindade constante na história desconstrói a ideia de Borges. A viagem no tempo em “Agora” lembra contos borgeanos em que tal assunto também foi discutido, com a ressalva de que Botelho considera que o deslocamento no tempo é simples forma de repetição de algo já vivido (ou seja, viver no passado, algo que tantas pessoas fazem sem precisar de máquina do tempo). A caixinha deixada pelo primo Salim em “A árvore que falava aramaico” remete a um aleph.

No entanto, a aproximação maior entre estes dois escritores se dá naquilo que outros precipitados e auto-intitulados “herdeiros” falham de forma estrondosa. Grande parte dos escritores acham que o segredo de Borges está nos jogos racionais. Contudo, o grande segredo é a utilização da linguagem dentro da história, e isto é algo que só se consegue com a conjugação de um vasto cabedal de leituras e um bem apurado senso de ritmo, ou a conjugação de um espelho e uma enciclopédia. Isto não é para qualquer um. Borges era um poeta, mestre na utilização dos ritmos dentro da história através das metáforas e de uma pontuação quase rompendo a lógica formal do discurso. Botelho também é um homem dotado de grande poesia e conhecimento das estruturas da língua, que usa sem pudor dentro dos seus contos, sem medo de soar pomposo ou hermético. Apesar deste grande ponto de aproximação, sinto – sem sequer saber o motivo e, por isto mesmo, é algo completamente impressionista – que Botelho desconsideraria esta comparação que muitos passam uma vida buscando (já me deram vários livros para ler em que o próprio autor se manifesta influenciado pelas mesmas Musas que atormentavam Borges). Para ele, a honestidade com a história se situa acima da comparação leviana e fácil com jogos narrativos de outro autor. Com uma leitura atenta, é possível perceber que, nos momentos em que Botelho podia ceder à tentação de emular o autor argentino e fazer um joguinho insosso, ele preferiu manter-se fiel a si próprio, e isto representa uma grandeza que poucos autores atuais possuem.

Impossível não destacar dois elementos que unem as histórias, dando-lhes uma atípica unidade temática (alô, alô, Rafael Ban Jacobsen, autor da orelha). O primeiro é a presença do “mal de arquivo” de acordo com Derrida, ou seja, o desejo dos personagens de recorrerem às classificações e às enumerações, tudo para reter e prender a memória, descendo ao nível mais arqueológico possível com o intuito de recapturar o tempo perdido. O arquivo aparece claramente em dois contos, “A grande obra” e “O coração do mundo”, em especial através de personagens que recorrem à memória como forma de manter a coesão do mundo que ameaça se dissolver ao redor deles. Muito poderia ser dito a respeito deste assunto nos outros contos, em especial abordando Derrida, mas vou ser forçado a parar para que esta resenha não fique com um tamanho mais indecente do que já se encontra.

O segundo eixo temático é que quase todo conto apresenta um mistério que simplesmente não é resolvido. Seja a caixa deixada pelo primo Salim com o narrador em “A árvore que falava aramaico”, seja os estranhos nunca divisados que irão para uma ilha em “Viagem noturna” (outro dos meus contos favoritos), seja a real motivação pela qual o baphomet foi adotado por uma família que lentamente desaparece em “Baphomet”, seja o conteúdo da gaveta do senhor Pacheco em “O coração do mundo”, seja a origem do jogo de xadrez em “O evangelho do jaguar”, seja as marcas amarelas feitas na cidade e a segregação progressiva dos habitantes em “A grande obra”, boa parte dos contos apresenta uma dúvida que não será resolvida. Como o objeto na gaveta do senhor Pacheco, este item mágico e inominado que lhe dava paz no meio de um mundo burocrático opressivo, cabe ao leitor preencher a dúvida da forma que bem quiser.

Foi reconfortante ler um livro que não subestima a inteligência do público. Um livro sem vôos estilísticos estéreis, com linguagem rebuscada e sensível. A sucessão de mistérios não resolvidos e a criação de uma realidade tão próxima daquela que vivenciamos deixou-me, como leitor, com uma sensação de angústia e expectativa pelos próximos livros. No final das contas, talvez o mais intrigante de todos os objetos sem explicação deixados para o leitor resolver seja o próprio livro, com suas pequenas imitações de vida, esta “Configuração dos Lamentos” (ai, de novo) esperando ser decifrada. A maior lição que José Francisco Botelho ensina em “A árvore que falava aramaico” é que, para ser contemporâneo, o autor não precisa usar truques. Ele pode beber da literatura clássica, não precisa fragmentar a narrativa, não precisa alternar narradores ou usar linguagem moderninha. O escritor de verdade só precisa de uma história. De posse dela, os leitores sentarão aos seus pés e, acalentados pela lira criativa, irão subir aos píncaros celestiais ou descer às profundezas do inferno. Uma lição tão importante e que, nos dias atuais, parece ser cada vez menos lembrada.

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4 Comentários

Arquivado em Horacio Quiroga, Jacques Derrida, Jorge Luis Borges, José Francisco Botelho, Literatura, Literatura Contemporânea, Mal de Arquivo, resenha, William Shakespeare

4 Respostas para “Livro: “A árvore que falava aramaico”, de José Francisco Botelho

  1. Nossa, muito completa essa análise, me deixou com vergonha das minhas “qualquer coisa” que já ousei chamar de resenha. Fiquei com muita vontade de ler o livro.

    • Angela, duvido muito que tuas resenhas sejam “qualquer coisa”, até por que já as li e gostei muito delas. No final do dia, o importante é falar sobre livros, um assunto muito mais instigante do que aparenta ser, capaz de despertar paixões violentas e ódios exarcebados.
      O livro do José Francisco Botelho vale muito a pena a leitura. Foi uma das gratas surpresas que tive este ano. É o raro caso de livro que não tem um conto ruim.

  2. Kelli Pedroso

    Gustavo, a tua resenha me deixou simplesmente louca para adquirir esta obra. Creio que irei devorá-lo. O livro já está na minha lista de aquisições literárias. A propósito, esta resenha foi escrita com maestria.

    • Obrigado pelas palavras de apoio, Kelli. É um excelente livro mesmo, tanto para quem escreve (E lê material de qualidade) como para quem lê (que se depara com histórias bem construídas e narrativas interessantes). O Botelho escreve muito bem, com domínio e segurança. Não deixa a história descambar e nem perde o fio da narrativa. Estou curioso pelos próximos trabalhos dele. Para uma obra de estreia, este livro ficou extremamente maduro.

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