O debate necessário, a revista VEJA e as falácias argumentativas

Uma das coisas que mais sinto falta no mundo atual é um bom DEBATE.

Tenho muitas dúvidas, sobre muitos assuntos. Por mais que veja pontos contrários ou positivos, sou incapaz de fechar várias questões. Precisava que novas ideias arejassem as minhas, imprimindo um sopro de novidade.

Quando falo em debate, não penso na discussão longa e estéril na qual um contendor tenta submeter as suas opiniões sobre o outro, não raro usando gritos e falácias, com o apoio entusiasmado de uma claque cega e surda. Ao contrário: imagino uma conversa elucidativa, em que duas pessoas inteligentes e muito seguras sobre os seus pontos de vista debatem os pontos de divergência e os de confluência, possibilitando a abertura de novos questionamentos para quem assiste.

Em um mundo que virou uma grande partida de futebol, este desejo é uma utopia praticamente inalcançável. As pessoas estão cada vez mais furiosas. Tudo virou assunto para divisão, desde política até o que é melhor, margarina ou manteiga, cachorro ou gato, homem ou mulher. Ou somos chimangos ou somos maragatos. Ou somos esquerdistas ou somos direitistas. Ou estamos certos ou estamos mais certos ainda.

O Parlamento inglês do passado é uma boa representação do debate saudável. Pontos de vista opostos se digladiam no centro, não para formar a opinião da parte adversa, mas para trocar pontos de vista.

Vendo toda a polêmica que cercou o artigo de J.R. Guzzo na VEJA n.º 2295, publicado nesta semana (14 de novembro de 2012), a constatação se tornou ainda mais forte.

Primeiro, vou falar do meu percurso de leitura. Desde a publicação do artigo, li mais de dez comentários feitos sobre ele, todos unânimes em criticar o articulista (aliás, odeio este termo). Ainda não tinha lido o próprio texto, o que só aconteceu hoje. E o que li me deixou estarrecido. Esperava muito mais. É um artigo chato. Bobo. Com argumentos simplistas e frágeis. O autor deixa entrever um ranço de ideias ultrapassadas e um sem-fim de clichês. Em circunstâncias normais, o texto sequer chamaria atenção do público. Então, por que despertou esta onda de raiva?

O momento que todos os leitores destacaram para atacar o colunista foi a triste metáfora que utilizou espinafres e o casamento com uma cabra, em uma pobreza argumentativa que traça relações com o homossexualismo. Uma parte de mim se ilude com a ideia de que as pessoas se enfureceram com o mau uso da metáfora, mas, como tenho aprendido a duras penas, é impressionante a quantidade de gente que leva as metáforas ao pé da letra. Estamos perdendo a abstração, e isto é complicado para quem mexe com as palavras, pois a metáfora não é a ideia em si, mas um simulacro para permitir a melhor visualização do argumento.

Vou fazer um mea culpa: se metáforas ruins fossem o indicativo de excelência para a argumentação de um texto, eu estaria ralado.

Metáforas são facas de duplo gume: quando dão certo, são geniais, como “os olhos de ressaca de Capitu”, uma das mais desgastadas da nossa literatura. No entanto, quando dão errado, elas equivalem a uma capotagem com o veículo em velocidade superior à 200 quilômetros por hora (outra metáfora, esta desastrosa para pessoas que perderam parentes em acidentes de trânsito, e eu estou incluso neste grupo).

Não bastando o mau uso da metáfora, algum gênio editorial da revista achou ela criativa e resolveu transplantá-la para o título, pinçando três palavras de alcance linguístico equidistante e buscando anunciar um entrelaçamento através do texto. Não é a primeira vez que a VEJA faz isto se achando espirituosa, e é tão enfadonho quanto assistir a um jogo de futebol da segunda divisão neozelandesa. Colocar “parada gay”, “cabra” e “espinafre” chama atenção do público para ver a forma usada pelo colunista para interligar os três temas. No entanto, como o destaque no título ainda não era suficiente, o mesmo gênio editorial resolveu fazer uma colagem dadaísta, colocando a imagem de uma cabra e de um pé de espinafre juntos. Sabem como é, o leitor não entende as palavras se não ver a imagem.

Tão patético e pouco criativo que chega a ser original.

O resto do texto é de uma obviedade constrangedora. A única coisa que se pode acusar a VEJA é tratar os seus leitores – que lhe pagam a peso de ouro por um pouco de conteúdo – como um grupo de descerebrados.  O próprio colunista sabe que seus argumentos são toscos e, dentro do texto, já faz um breve libelo à liberdade de expressão, assunto muito caro aos jornalistas. É uma estratégia discursiva hábil: ele sabe que, quando atacarem o seu texto, poderá se defender alegando que quem está sendo atacado é o seu direito de se expressar.

Uma enorme falácia argumentativa: se falarem mal da simplicidade rasteira dos meus argumentos, vocês estão atacando a liberdade de expressão. Se falarem bem, estão falando bem dos meus argumentos. Não há como vencer estratégia discursiva tão simplória: aconteça o que acontecer, o colunista está correto.

Colocar isto dentro do próprio texto é admitir a sua incapacidade argumentativa de antemão, é uma bomba-relógio desconstrutivista: mais ou menos – ainda estamos no campo das metáforas ruins –  como colocar uma roupa amarelo-limão e colar um cartaz nas costas “Não riam de mim, não sei ver as cores!”. Surpreende que um truque tão baixo de retórica ainda seja usado: na Grécia antiga, Demóstenes iniciava os seus discursos se xingando e se fazendo de coitado, pois, depois que atacava, todos os seus oponentes eram acusados de reprisar críticas já feitas. Na próxima edição, antecipo que tratarão da liberdade de expressão. Chega a dar sono tanta previsibilidade. Recentemente, em uma audiência na Vara Especial de Violência contra a Mulher, falei que o maior inimigo da Lei Maria da Penha são as mulheres e o seu uso indiscriminado e impensado do instituto (é uma LONGA história a forma com que cheguei a tal conclusão, se quiserem outra hora conto). O mesmo pode ser dito da liberdade de expressão: se algum dia ela acabar ou for limitada, os culpados exclusivos serão os jornalistas e o péssimo uso que fazem do seu direito de expressão.

(Eu adoraria ver um debate sobre a liberdade de expressão. O que fazem com este instituto é de uma imbecilidade atroz. Podemos falar tudo o que quisermos, pois, se formos atacados, vocês estão atacando o nosso direito de expressão. Uma argumentação um tanto quanto covarde e delimitadora de responsabilidade. Mas, se a cada direito corresponde um dever, qual é o dever correspondente à liberdade de expressão? Ela possui os limites inalcançáveis que os jornalistas lhe atribuem? Como fica o confronto entre liberdade de expressão e ideologia? E – o mais importante de tudo – a quem interessa que este debate nunca ocorra?).

É uma pena que nenhuma voz sensata tenha se levantado contra o artigo do J. R. Guzzo. O que mais li foram vituperações, ironias e fatos elencados de forma destemperada. Até perderia um pouco de tempo me divertindo em refutar os argumentos do colunista e mostrar as falácias argumentativas utilizadas, bem como mostrando os clichês, as comparações desajeitadas, o mau uso de informações estatísticas, os erros crassos de silogismo e lógica, as ideias confrontantes. Tenho conhecimento o suficiente para ver tais defeitos na articulação do texto. No entanto, já fiz muito disso na Ritter, quando realizei o curso de Revisão Linguística e Textual, geralmente usando os textos dos colunistas das revistas brasileiras. São sempre os mesmos problemas de lógica argumentativa. Não existe desafio nenhum nesta tarefa.

As pessoas carecem de estrutura emocional sólida para refutar argumentos frágeis, o que acaba os perpetuando. O erro mais atroz cometido nos comentários sobre o artigo foi a descontextualização e o fatiamento do texto para análise das suas partes integrantes item a item. Um dos conceitos comunicacionais mais básicos diz que o texto é formado por frases, mas o sentido só é dado observando a unidade argumentativa do todo, senão vira frases esparsas. Analisar as sentenças de um texto não é a mesma coisa que analisar o seu conteúdo. É pura preguiça. E isto serve a quem? Ao articulista e à sua tão-falada-e-mal-empregada liberdade de expressão, que se vê legitimado pela falta de um ataque coerente.

Sinto falta de um espaço em que ideias podem ser debatidas, e não discutidas. O mundo está cada vez mais ideológico, no sentido de que cada mínima comunicação precisa ser defendida até a morte e sem respeito à opinião do outro. De tanto falar em Bakhtin, uma hora vou acabar virando um bakhtiniano, mas ele tinha razão: todo discurso é ideológico. O problema atual é que todo discurso está ideológico demais, está beirando a irracionalidade.

Não existem pessoas capazes de conversar e mostrar a validade do seu ponto de vista, eles estão mais interessados em desconstruir (destruir) a ideia do outro. Temos tantas dúvidas, debates são importantes. Na minha opinião, em toda a questão do homossexualismo, o maior inimigo é a incapacidade de vozes lúcidas contraporem argumentos válidos e buscarem uma posição intermediária. O mesmo pode ser dito do confronto entre ateísmo e religião. Por exemplo, eu adoraria ver um debate entre o Richard Dawkins e o Papa, em que ambos não se atacassem e sim buscassem um meio termo, um espaço de respeito mútuo. No entanto, as raivas das posições e a necessidade de impor pontos de vista sobre o outro não ajudam em nada a tomada da decisão. Desta forma, prosseguimos no meio de uma Babel ideológica, cada um vendo quem grita mais alto como forma de demonstrar que tem o melhor argumento. Não estamos tão longe assim dos macacos.

Quando penso nos perigos da ideologia (no seu conceito bakhtiniano, por favor, em que ideologia é sempre a opinião inserida no discurso), recordo um cliente do passado. Ele aparecia no escritório completamente vestido com o fardamento do Grêmio. Toda vez em que aparecia, estava com a roupa do time de futebol, e interpretei que era a única roupa social que ele gostava de usar. O cliente falava de futebol e, como este assunto é um daqueles que não vale a pena falar, eu mais escutava do que respondia. Aos poucos, comecei a ver que a mesma paixão que nutria pelo Grêmio convertia-se em ódio quando ele mencionava o Internacional (sequer era capaz de dizer o nome, era sempre “o outro time”). Fiz todo o processo dele, ganhamos a causa e o homem ficou muito satisfeito. No último dia, quase saindo, ele perguntou: “O senhor também torce para o Grêmio, não é?”. E eu respondi que torcia para o Inter. Ele quase desmaiou: colocou as mãos na cintura, arregalou os olhos e disse “Mas por que o senhor me tratou bem? Por que foi correto comigo? O senhor devia me odiar!”. Eu disse o óbvio: não odiava ele e nem o seu time, eu respeitava a sua opinião e preferência clubística. Aliás, acrescentei, este assunto não era relevante para o processo e pouco me importava o time para o qual ele torcia (no decorrer do processo, ele descobrira o nome do juiz para ver se o magistrado era conselheiro do Inter e presumir se iria prejudicá-lo). Foi embora sem apertar a minha mão e nunca mais apareceu. Depois soube que ele reclamou pela cidade que eu tinha lhe mentido e lhe enganado. Sei a verdade: ele não consegue viver com a ideia de que existe um colorado que lhe tratou bem. Vai contra todo o seu sistema de valores.

Uma pessoa que pensa que somente um lado está correto é a pessoa mais fácil de ser enganada, pois permanece cega diante de evidências sólidas. Não existem verdades absolutas, somente pessoas com opiniões divergentes. Talvez ouvir o que o outro lado tem a dizer seja espantoso. Talvez seja revelador ou repugnante. De qualquer jeito, você só saberá ouvindo – e separando as bobagens argumentativas das ideias realmente válidas.

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2 Comentários

Arquivado em Argumentação, Debate, Falácias, VEJA

2 Respostas para “O debate necessário, a revista VEJA e as falácias argumentativas

  1. Ótima reflexão, Gustavo, como sempre. É incrível como a intransigência estraga o debate. Eu também gosto de ver os dois lados, apenas discordo de vc quanto a querer fechar em relação a certas ideias, pois enquanto vivemos é possível mudar de opinião, e qualquer posicionamento tem lados positivos e negativos. Enfim, não existe o totalmente certo ou errado, existem seres humanos falíveis. Por isso, um brinde ao debate que nos permite pensar e crescer. Abs

    • Tens razão, Angela. Nós nunca fechamos uma questão; é a morte quem nos encontra no meio do caminho e acaba fechando as decisões que estão sempre entreabertas. Mas sinto falta de uma discussão adulta sobre assuntos sérios, não este acúmulo de falhas argumentativas e ideias antigas. Vamos expandir o debate, vamos sentar e conversar sem preconceitos. A liberdade de expressão é um belo direito, mas a liberdade para um debate é ainda mais relevante. E não podemos esquecer que, se uma resposta é mal dada ou é equivocada, sem atingir a fragilidade do argumento do outro, ela acaba justamente enfatizando o argumento errado. Não podemos cair nesta armadilha. Um abraço, e obrigado pela leitura – como sempre – atenta.

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