Uma possível epígrafe para “O homem despedaçado”

O caos está instalado entre as minhas leituras. Os livros tomaram posição e se acumularam, indecentes na sua recordação sombria das histórias ainda não lidas. Sinto-me constrangido de chegar em casa e ver as pilhas se avolumando, ansiosas para serem diminuídas. Leituras obrigatórias disputam espaço com leituras por prazer, e o único que pode resolver o problema sou eu, em uma briga enorme com o tempo.

Ainda assim, surpresas continuam aparecendo no meio da pilha. Comprei um livro chamado “Franz Kafka Essencial”, lançado pela Penguin em 2012 (vou colocar o link com mais informações: http://www.companhiadasletras.com.br/penguin/titulo.php?codigo=85033). Confesso que já tinha boa parte das obras que estão neste volume, mas, em uma primeira vista, gostei da tradução do Modesto Carone e gostei dos comentários histórico-literários feitos a cada divisão. Melhor achar estes detalhes nos próprios livros do que na Wikipedia.

Kafka sempre é uma leitura que me deixa inquieto. Não consigo entender qual é a mecânica do pensamento dele, e isto me deixa preocupado, ranzinza. Alguns contos dele parecem estar criptografados em um código que somente o autor possuía a chave para decifrar. O mais interessante em Kafka é que eu não consigo ver homem algum por trás da escritura. Nada. As palavras parecem brotar do inconformismo do papel. Em uma época deprimente na qual precisa se ler o homem para poder se entender o livro (ou, pelo menos, é assim que a crítica e os meios de comunicação agem), as obras inclassificáveis nesta zona de conforto são as quem mais me atraem.

E eis que, no meio de alguns dos aforismos que ele escreveu (os quais, segundo o tradutor, são apresentados na última versão antes da sua morte), além de encontrar leopardos, indagações sobre Deus e curvas de raciocínio que se encerram em paredes abruptas cheias de lógica, acho uma frase que serviria como epígrafe para o conto “O homem despedaçado”, que dá título ao meu livro:

“Existem no mesmo ser humano conhecimentos que, a despeito da completa diferença entre eles, têm o mesmo objeto, de tal forma que só é possível concluir que há sujeitos diferentes no mesmo ser humano”.

Por caminhos tortuosos, Kafka e eu chegamos à mesma conclusão: dentro de cada pessoa, existem centenas de milhares de outras pessoas, cada uma correspondendo a uma realidade não vivida. A única diferença é que o autor tcheco identifica este detalhe mapeando os conhecimentos díspares que uma pessoa pode deter e que, desta forma, revelam diferentes facetas. Eu utilizo um meio físico, o espelho dividido, onde todas as realidades moram e nenhuma é real.

Vou um pouco mais longe na minha suposição: imagino que, de tantas variações de um único homem, logo é inevitável que estas variações acabem encontrando com as alternâncias de outro ser, pois até o infinito pode ser sintetizado  (esta é a gênese de outro dos meus contos, “Várias variantes”, cujo título original era “Várias variantes variáveis variam com variações invariáveis”, ou seja, de tanto variarmos, chega uma hora em que a própria diferença se torna previsível). Desta forma, todas as pessoas estariam interligadas por uma argamassa invisível, uma rede subterrânea de pontos de contato que nos fazem comungar de um único ser. Em outra realidade, eu sou outro, eu sou você, eu sou todos.

"Refletimos sobre as criaturas escondidas nos espelhos e seus segredos cristalinos. Conversamos sobre a imagem que Narciso viu no lago, se era o e seu reflexo ou centenas de versões, uma dentro de cada gota d'água. Ponderamos sobre a verdade contida nos espelhos, se esses objetos não aprisionariam os homens em somente uma faceta do real."

“Refletimos sobre as criaturas escondidas nos espelhos e seus segredos cristalinos. Conversamos sobre a imagem que Narciso viu no lago, se era o e seu reflexo ou centenas de versões, uma dentro de cada gota d’água. Ponderamos sobre a verdade contida nos espelhos, se esses objetos não aprisionariam os homens em somente uma faceta do real.”

Não sei se já espero inquietação e penumbra por trás das palavras de Kafka, mas este aforismo me deixou pensativo por alguns dias. É um pouco espantoso que tenhamos visto que cada homem é uma quantidade infinita de outros homens. No entanto, o fato dele considerar isto como consequência dos vários conhecimentos que se congregam e espraiam de uma pessoa mostrou mais esperança do que eu próprio em “O homem despedaçado”.

Kafka considera que um advogado, por exemplo, pode ser um pedreiro, pode ser um arquiteto, pode ser um químico, pode ser um físico, pois estes conhecimentos derivam dele e se agregam na sua mente, surgindo quando necessário. Eu me considero mais pessimista: o homem é infinito por que é podre, não por saber mais. Suas variações o tornam único, mas também acabam com a noção de individualidade. Somos todos criaturas desvanecidas no meio de um grande e maléfico ser, a polifonia tenebrosa de uma voz tão alta que seu som seria capaz de enlouquecer. Imaginamo-nos únicos e singulares, mas não passamos de reles pedaços cristalinos de maldade.

Não me recordo de ter lido este aforismo em outro momento da minha vida. No entanto, fico chocado de constatar que eu posso ter escrito um conto que remeteu à mesma ideia defendida por Kafka, mas, se tivesse usado o seu aforismo como epígrafe, o autor tcheco pareceria um raio de luz e de esperança a iluminar a minha história. Um menino ingênuo. E achar isto de Kafka, o escritor que revelou as piores facetas do ser humano, é perturbador. Revela mais a meu respeito do que eu gostaria de saber, e talvez neste fato esteja a verdadeira origem da minha incomodação. Ou seja: para me entender e para conseguir colocar fim às minhas dúvidas, terei que passar por Kafka, este Everest que se avizinha no meu horizonte literário.

Serão férias sombrias.

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Arquivado em Franz Kafka, Literatura, O Homem Despedaçado

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