Cadeira tranquilizante e o mergulho do albatroz

Não parece tão difícil manter a tranquilidade. É uma questão de eliminar os sentidos que nos distraem. Em seguida, prender-se em um ponto seguro, imutável, e mergulhar nas águas silenciosas que moram no fundo da consciência.

Quando criou a “cadeira tranquilizante”, Benjamin Rush (1745-1813) buscava uma cura para as doenças mentais. Nos dias atuais, este método é considerado cruel: imobilizar uma pessoa e privá-la dos seus sentidos é desumano.

Será mesmo? Será que deixar uma pessoa mergulhada no abismo dos próprios pensamentos é tão terrível assim? Às vezes, interrogo-me se todo este excesso de estímulos sonoros e visuais que o homem inventou não serve para afastá-lo do seu eu interno, esta criatura que, tal Chtulhu no fundo do oceano, se esconde na reentrância mais profunda da alma.

Faço um exercício de suposição. Imagino um homem preso na cadeira. Seus braços e pernas estão imobilizados; os olhos não vêem, os ouvidos não escutam, o tato se limita a percorrer as ranhuras da cadeira. Sozinho, sem interação social, no início pensamentos desordenados percorrem o homem. Logo, a diminuta voz nasce no seu profundo e, como uma flauta se opondo suavemente à orquestra no concerto que lhe pertence, inicia uma litania insistente que, aos poucos, apaga a orgia desenfreada conduzida pelos pensamentos. O homem não tem onde se esconder, pois seus sentidos estão “tranquilizados”.

A voz – podemos chamá-la de consciência ou de alma, é irrelevante – cicia segredos, lembra fatos, revela detalhes que se imaginavam desaparecidos. Sem distrações, como um albatroz à procura do peixe, a nossa cobaia mergulha nas águas plácidas do seu íntimo, onde lhe aguarda o mais temido dos encontros – um espelho. O que o homem vai ver somente ele sabe: seja uma imagem boa ou ruim, será o ponto alto da sua presença no planeta. Na beira da praia da existência, diante do longe horizonte, ele tem o seu encontro em Samarra, olhando o próprio nêmesis que jazia sepultado por camadas e mais camadas de distrações mundanas.

Gosto de pensar que será um encontro agradável.

No entanto, não acaba assim. O experimento prossegue. Ele está preso. A cadeira ainda o imobiliza. E chega um momento em que até mesmo a voz interna se cala.

E o homem continua cavando, em uma arqueologia do ser. O que se esconde no fundo da consciência, por trás da voz interna? Qual espécie de demônio incontrolável que mora no mais fundo, qual a chama real que alimenta o espírito humano no mais longíquo recôndito?

É interessante, mas sempre associo a primeira voz, melíflua, que se confunde com a consciência, com uma falsa voz, mentira criada pela mente para esconder a verdade. E acredito que somente escavando mais profundo e escapando destes falsos ídolos que insistem em ilusões efêmeras que se chega a quem toca a lenha da fornalha do nosso espírito. E associo esta entidade a algo maléfico, algo impossível de ser encarado sem perder a sanidade, algo tão terrível que inventamos distrações justamente para não ter que encontrar a Besta que mora no fundo. E associo esta assim intitulada Besta a um Big Bang, como se cada pessoa possuísse, no próprio interior, o Universo inteiro prestes a desabrochar. E, sim, eu considero a criação do Universo como algo de extrema malignidade, uma ruptura inaceitável da ordem, do silêncio e da matéria.

Não sei. Talvez as pessoas tenham mais sabedoria do que imaginam. Talvez seja realmente desumano prender alguém em uma cadeira tranquilizante. Não se sabe ao certo o que pode acontecer. Ou quem um indivíduo pode acabar encontrando. Melhor continuar criando distrações em um mundo cheio de irrelevãncias. É mais CONFORTÁVEL.

E lembro da música “Silent Lucidity”, do Queensryche. Será que não atingimos a lucidez final ao mergulharmos  na nossa própria alma? O extremo da fragmentação ainda é a menor de todas as unidades. A lucidez pode ser a única coisa que nos mantém intactos. Todo homem é um Universo e, no fim do seu insondável penhasco, se esconde algo.

Não me deixem próximo de uma cadeira tranquilizante. A tentação de mergulhar pode ser grande demais – é sempre com hesitação que o albatroz volta para o céu, o peixe remexendo no bico.

There’s a place I like to hide
A doorway that I run through in the night
Relax child, you were there
But only didn’t realize it and you were scared
It’s a place where you will learn
To face your fears, retrace the years
And ride the whims of your mind
Commanding in another world
Suddenly you hear and see
This magic new dimension
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Arquivado em cadeira tranquilizante, Consciência, Queensryche, Tranquilidade

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