Kafka e Bias de Priene: como manter a integridade enquanto tudo desmorona

Às vezes, eu me pergunto se é possível manter-se íntegro em um mundo desintegrado.Talvez a pergunta correta seja – até quando se pode manter a integridade? Quanto tempo as ondas levam para esboroar o rochedo da pele?

Quando falo de integridade, não uso este conceito mundano que a equipara à honestidade, à retidão de caráter, à lisura dos procedimentos. Falo na ideia mais ampla: manter a coesão estrutural em um mundo que se despedaça em irrelevâncias, informações desnecessárias e excesso abusivo de interpolações. Não bastando a intervenção nas vidas alheias, as pessoas esforçam-se para colocar a sua existência no meio dos problemas do outro. Ninguém mais tem a decência da solidão, a capacidade de contemplar em silêncio os próprios problemas – tudo virou coletivo.

Quando eu era pequeno, pensei que as pessoas envelhecessem graças a um avanço progressivo do cansaço. Imaginava que as peles encarquilhando em rugas, que as olheiras e bolsões cercando os olhos e que o caminhar cada vez mais lento fossem atribuídos ao desgaste. Acreditava que as pessoas vinham ao mundo com uma quantidade predeterminada de falas a serem ditas, de atos a serem praticados, de atitudes a serem tomadas. Ao  esgotar este número, elas começavam a “queimar óleo”, consumindo a própria essência, envelhecendo por tirar energia de cada mínima reentrância para manter a máquina em funcionamento.

Talvez este pensamento infantil não esteja tão errado. Se as pessoas desperdiçassem menos energia, palavras e atitudes tratando de problemas dos outros, teriam mais tempo para se concentrar nas próprias vidas. Mantendo a integridade do pensar e do agir, talvez se consiga viver mais tempo e de forma mais proveitosa. Acredito que este seja o mote principal da meditação: concentrar-se em si mesmo, manter a estrutura fechada, lacrar as fissuras que o tempo e as distrações dos outros tentam criar.

Ainda assim, é possível manter-se íntegro quando os próprios átomos que nos formam estão em constante ebulição, quando as fraturas que nos formam são mínimas, quando a erosão é inexorável? É possível manter a concentração na pureza da própria essência quando o mundo inteiro conspira em sentido contrário?

Como sempre, quando a pergunta é mais assustadora do que a resposta, eu volto para Kafka, o homem dos abismos insondáveis que sorriem:

Não escrevi muito sobre mim nestes dias, em parte por preguiça (durmo tanto e tão profundamente durante o dia, tenho mais peso enquanto durmo), em parte também por medo de trair o conhecimento que tenho de mim. Este medo justifica-se por que uma pessoa só devia permitir fixar na escrita a sua autopercepção quando o puder fazer com a maior integridade, com todas as consequências secundárias e também com toda a verdade. Porque se isto não acontecer — e eu de qualquer maneira não sou capaz de o fazer — o que está escrito irá, de acordo com a sua própria finalidade e com o poder superior do que foi fixado, tomar o lugar daquilo que se sentia apenas vagamente, de tal modo que o sentimento verdadeiro desaparecerá enquanto o não valor do que foi anotado será reconhecido tarde demais.

Este trecho do “Diário” (1911) de Franz Kafka mostra que a integridade está em ser sincero consigo mesmo. É a mais difícil de todas as sinceridades, pois não dependemos da consideração do outro. Somente a nossa opinião importa. E uma das coisas que a vida me ensinou é que ninguém gosta de ser o vilão no romance da própria vida, ninguém gosta de ser o culpado, sempre existe outro a quem atribuir a responsabilidade.

Franz Kafka em uma vibe meio Magritte. Putz, isto dá outra postagem.

Para o autor tcheco, escrever é uma forma de manter a integridade. No entanto, só funciona se a pessoa for completamente sincera em relação à própria escrita. Se não vai ser verdadeira, se não for capaz de olhar o próprio rosto no espelho, melhor nem escrever: o risco de dissipar a emoção no meio das palavras é alto demais, não vale a pena correr o risco de escrever com a ilusão de que se pode esconder o sentimento.

Em Kafka, manter a integridade é ser fiel a si mesmo, nos defeitos e nas virtudes.

Ele próprio admite não ter tal integridade, o que explica o sono mencionado no início do parágrafo, a sua hesitação em começar a escrever enquanto não tiver sufocado as interferências alheias enquanto a própria verdade está embaçada.

Se eu fosse ajudar Kafka a encontrar esta escrita verdadeira do qual foge e se esquiva no “Diário”, em um sono repleto de auto-negação, lembraria de um filósofo pré-socrático cujas lições podem ajudar a encontrar a integridade perdida. Cada aforismo dele serve como um mantra, concentrando a alma para que ela não se desvaneça. Falo de Bias de Priene, que viveu no século VI a.C e que, na sua época, foi considerado um dos Sete Sábios da Grécia, colocado no mesmo patamar que Tales de Mileto, Sólon de Atenas e Quílon de Lacedemonia.

(Gosto muito de uma história relacionada a Bias: pescadores atenienses localizaram um escudo de bronze com a inscrição “Ao mais sábio”. Não preciso nem lembrá-los de que a guerra de Tróia começou com o pomo de ouro destinado “à mais bela”, ou seja, outra bronca se avizinhava. As virgens do templo apressaram-se a levar este escudo à Assembleia, que indicou Bias como o mais sábio, digno de receber tal honraria. A vaidade era perigosa naquela época; atrair a atenção para si mesmo era arriscado em uma sociedade invejosa, como ainda é. Bias recusou o escudo, dizendo que o único ser digno de tal título era o deus Apolo. Foi uma decisão sábia: ao mesmo tempo em que evitou que o orgulho e a fama consumissem com a sua vida, mostrou para os outros que a sabedoria e a vaidade podiam ser deixadas com quem ambiciona títulos estéreis. O importante não é ter o título, o importante é ser. Como Bias era um excelente advogado, também vejo esta conduta como ele passando a bola adiante, direto para a divindade, sem se comprometer).

Os aforismos de Bias de Priene são a melhor forma de encontrar a integridade que tentam nos tirar a todo momento. Penetrar na individualidade do outro é o sonho de toda a pessoa – quem não gostaria de viver outras vidas, outras histórias? Pensando em cada uma das frases, podemos descortinar onde está o problema – e como fazer para escapar dele.

Bias começa dizendo que “a maioria dos homens são perversos”. Não é uma possibilidade, e sim uma constatação: quanto menos tempo levarmos para discutir o óbvio, mais se ganha para tentar resolver a questão. Sabendo que a natureza humana pende de forma inapelável para o mal, podemos antecipar que muitas das nossas interações sociais visam justamente a destruição da integridade, a intromissão do outro – como um aríete – na nossa vida. Outra frase: “Sê lento para começar a agir, mas, depois de começar, persevera de forma firme até a ação encerrar”. A capacidade de manter-se lento é cada vez mais desprezada nos dias atuais, mas a lentidão também representa a refletir para uma decisão correta. Mais importante é perseverar no propósito depois que inicia: vivemos em um mundo cheio de ações interrompidas pela metade. Seríamos mais íntegros e felizes se não precisássemos nos preocupar com as pontas soltas deixadas para trás. “Não fales precipitadamente, pois é sinal de insânia” é uma lição que deveria estar colada em todas as paredes humanas: quem fala rápido o faz por que pensou sem cautela, e mais lucro teria se tivesse guardado os pensamentos consigo ao invés de espalhá-los nesta cacofonia enlouquecedora que se chama de mundo.

Outro aforismo de Bias eu já disse várias vezes, e considero a lição como a mais importante para alguém manter-se são em um universo que tende para a desagregação: “Faze da sabedoria a tua provisão para a viagem desde a juventude até a velhice, pois ela merece mais confiança que todos os outros bens”. Todos os bens e pessoas podem falhar e até desaparecer, mas a sabedoria e o conhecimento dos próprios limites é a única coisa que ninguém consegue retirar do outro. Tendo esta noção segura, percebe-se que somente a sabedoria agrega. O investimento é maior na auto-contemplação, o que traz à tona outro aforismo, “reflita nos próprios atos”. São tão diversas as atrações e distrações que insistem em infestar as nossas mentes que a reflexão é algo cada vez mais raro. Em duas postagens neste blog, comentaram que eu vejo mais coisas do que existem na realidade (foi sobre o livro do Peter Esterházy e sobre o filme “Os Mercenários 2”). A questão está distorcida: será que eu forcei a interpretação do que eu vi ou será que os outros não querem mais pensar sobre aquilo que enxergam?

Duas frases são complementares na sua lição: “Aprende a saber ouvir” e “fale sempre com algum propósito”. Vou iniciar decompondo a primeira frase: “saber ouvir” é diferente de “ouvir”. “Aprenda a “saber ouvir” implica escolher as palavras e os sons que devem ser realmente escutados. Quem abre os ouvidos para o mundo guarda um tesouro e, se conjugar esta característica com a fala sempre direcionada para algum assunto, não tem como permitir a aproximação de ondas indevidas que, maliciosas, exploram a pedra em busca de diminutas rachaduras por onde possam se imiscuir.

Por fim, o mais importante aforismo de Bias de Priene, a lição que todos deveriam observar: “Vê-te num espelho”. Parece simples, mas o complicado se esconde atrás da aparência. Alguém realmente se olha no espelho? Alguém tem noção plena de quem é, da sua própria identidade? A melhor imagem que temos a nosso próprio respeito é aquela que os outros querem que nós tenhamos, ou aquela que a sociedade nos impõe. É necessária grande dose de reflexão para se contemplar, despido das valorações alheias. Só conseguimos nos manter íntegros e a salvo das pessoas que tentam nos colocar no meio de redemoinhos insossos se soubermos quem é o verdadeiro eu, aquele que até o espelho esconde. Aprendemos a humildade ao fitar a própria face; tornamo-nos mais condescendentes com as nossas falhas.

Para ver o próprio rosto no espelho, é necessário desconstruí-lo: talvez não seja uma experiência pacífica.

É difícil se manter coeso na atualidade. Kafka relaciona a sua dificuldade em se concentrar ao medo que possui de encarar a verdade, dizendo que o escritor incapaz de encará-la está cometendo um grave equívoco. Por outro lado, Bias de Priene constroi um interessante muro de aforismos, com o objetivo de nos desligar do mundo externo e deixar-nos concentrados naquilo que importa: o eu e as suas riquezas internas. São duas maneiras de responder a pergunta com que iniciei a postagem: sim, é possível manter a integridade no meio do caos. Demanda muito cansaço, muita reflexão e muito esforço, mas entrar para dentro de si mesmo e fechar a porta para o vasto mundo é o melhor caminho para não perder a voz própria no meio desta selva polifônica que virou o globo terrestre.

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1 comentário

Arquivado em Bias de Priene, coesão, Filosofia, Franz Kafka, Generalidades, Integridade, Literatura, Magritte, Pintura, Polifonia, Sete Sábios da Grécia

Uma resposta para “Kafka e Bias de Priene: como manter a integridade enquanto tudo desmorona

  1. Kelli Pedroso

    Excelente texto! Sou exceção, pois gosto de me isolar. Tenho o hábito de refletir sobre meus atos e propósitos. Às vezes, gosto tanto da minha solidão, que desligo o celular e tiro o telefone da tomada. O silêncio é saudável. Se as pessoas fossem mais reservadas e/ou cuidassem mais de suas vidas, ao menos, seriam mais tranquilas.

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