Livro: “O imitador de vozes”, de Thomas Bernhard

Posso dizer que a leitura de “O imitador de vozes”, de Thomas Bernhard, foi uma experiência singular. Não pretendia comprar o livro; já ouvira falar do autor e algumas pessoas até tinham dito que eu ia gostar de lê-lo ou que pensávamos parecido, mas não fiz nenhum movimento de aproximação (dizem isto a respeito de tantos autores e tantos livros que não consigo precisar exatamente o que os leitores pensam sobre o meu próprio estilo). Além disso, estou repleto de leituras obrigatórias que devem ser realizadas, e seria insensato comprar mais um livro se não poderia lê-lo tão cedo quanto gostaria. Por este motivo, chega a ser espantoso que tenha visto o livro. Logo na capa, um conto inteiro chamou a minha atenção. Ao chegar em casa, li a primeira história, a segunda e, quando vi, estava na décima, em seguida na trigésima, até chegar ao inapelável fim. Thomas Bernhard me laçou e me manietou, subjugando-me com habilidade tal que eclipsou todas as minhas outras obrigações e leituras.

Acredito que deixei a minha admiração transbordar, pois menções a Bernhard apareceram em duas postagens anteriores deste blog. Isto aconteceu por que o livro é bom. Exageradamente bom, eu diria, se fosse permitido conceito tão vago. “O imitador de vozes” é formado por pouco mais de 100 pequenos contos. As histórias são secas. A brusquidão da linguagem, associada à quase inexistência de imagens poéticas, faz com que os contos cheguem próximo a notas escritas em alguma coluna de jornal ou aos registros taquigráficos de uma história maior. Inclusive a exiguidade da narrativa faz com que uma certa frustração surja no leitor: é como chegar no meio de uma piada e sair antes que ela termine. Você pega boa parte da ideia, mas  algo muito importante se perde. Este algo precisa ser preenchido pela imaginação.

As histórias oscilam do nonsense ao bizarro, sempre usando situações corriqueiras. Algumas são cortadas de forma tão abrupta que não se sabe se a história acabou ou se o fim foi somente um pretexto para algo muito bem escondido e que escapou da leitura. Atrás de um edifício de fachada simples, Bernhard esconde estruturas complexas e repletas de desníveis narrativos. É impressionante como o autor consegue transitar do cotidiano para o absurdo com poucas palavras. Por exemplo, o conto “Descoberta” tem todos os elementos de uma fábula moderna: industrial milionário compra local paradisíaco ao pé dos Andes, manda construir um hotel luxuoso para presentear o seu filho e, na véspera da inauguração, tal filho morre. O industrial se recusa a voltar ao local e também a vendê-lo. A construção é abandonada para a natureza, que se apossa, sem cerimônia, do hotel outrora luxuoso, demonstrando a sua certeza e inexorabilidade, ou a sensação de que a vida continua, a despeito de todos os planos grandiloquentes dos homens. Apesar do conto parecer quase o resumo da história, várias interpretações diferentes se escondem em cada frase. Os motivos do industrial para construir e, em seguida, deixar destruir o hotel não são claramente explicitados. Ao final, a natureza parece se vingar do h0tel que lhe desafiou, invadindo o espaço onde outrora reinava, agindo com a autoridade de um rei deposto que retorna ao país natal.

Por outro lado, a grande maioria dos contos flerta com a notícia jornalística, tratando de suicidas, de mortes estranhas e misteriosas e de problemas legais. No conto “Exemplo”, o narrador conta a história prosaica de um homem condenado por exportar carne de vaca e que, ao final do julgamento, o juiz do caso faz um longo discurso contra o réu, antes de dizer que ia dar um exemplo para a coletividade: levanta-se, saca uma arma e dispara contra a própria cabeça. A estranheza da situação narrada lembra as anotações de Tchekhov – por que o juiz se matou? O desejo de dar um exemplo para a coletividade justificaria um suicídio? Percebe-se que é uma questão maior do que o próprio conto.

Fascinaram-me ainda os contos de situações, quando Bernhard narra uma história calcada no real e que, de surpresa, entra no campo do impossível.  “Piccadilly Circus” conta a história de um homem apaixonado pelo metrô londrino que, certa noite, é surpreendido ao ver chegar um trem cheio de mortos na estação. Em “Impossível”, um pequeno exercício de teoria literária: dramaturgo famoso recusa-se a assistir as interpretações feitas com base no seu texto. Um dia, assiste peça sua em Dusseldorf e decide processar o teatro, o diretor e os atores para que lhe devolvam o texto. Ao final, decide processar o público para que também faça tal devolução, algo impossível, e acaba sendo colocado em um manicômio. Depois de publicada, a obra não mais pertence ao autor. Importante diferenciar a posse da obra da posse dos direitos sobre ela. É impossível que o autor pretenda a devolução de algo que não lhe pertence. O próprio conto “O imitador de vozes”, que está na capa do livro em oferecimento para o público, é um mistério que também enfrenta questões literárias: o imitador de vozes é o escritor, capaz de duplicar as vozes alheias para maravilhar o seu público com tamanha verossimlhança. No entanto, imerso no amálgama de vozes duplicadas, na intertextualidade das suas referências, quando lhe solicitam o mais simples, a demonstração da própria voz, o imitador não consegue. Podemos realmente afirmar que somos únicos e criativos, que a nossa voz é límpida e original, que não estamos duplicando a voz de outros escritores, de nossos pais, da sociedade que nos cerca? São questões inquietantes que saem da leitura de Bernhard.

Os contos encerram deixando sempre um traço de inconformidade, a sensação de que algo mágico e singular aconteceu diante dos olhos do leitor, que não viu o que era. São enganadoramente pequenos: por mais diminuto que seja, cada conto possui um universo repleto de significados que se estendem além dos seus limites físicos. Este é o traço da boa literatura: fazer a história caminhar solta pelo mundo. Chamou minha atenção o constante uso do pronome “nós” como narrador da história: um dos narradores é o autor, por evidente, concedendo verossimilhança ao próprio texto. O outro pareceu-me ser um companheiro, uma esposa, um familiar, e percebi que podia ser qualquer um, inclusive o leitor. Se não for um problema na tradução (voltarei a este assunto), seria uma estratégia muito interessante a inclusão do leitor como auxiliar do narrador, pois me senti como se estivesse ao seu lado, entrando em bares perdidos de localidades de nomes tão estranhos que parecem mágicos, caminhando por entre as salas de tribunais, conversando e colhendo histórias de estranhos anônimos.

Ao final de “O imitador de vozes”, fiquei com duas sensações opostas: ao mesmo tempo em que percebi um certo cansaço por ter sido submetido a um mundo duro e de regras indefinidas, materializado em mais de 100 contos onde a instabilidade com o real é a regra, mal vejo a hora de reler o livro e mergulhar de novo neste universo ainda a ser decifrado. Discordo frontalmente das palavras colocadas na orelha do livro: não acho que o autor esteja preocupado com a política ou que a sua obra apresente uma sociedade regida por aparências. O livro vai muito além desta caracterização simples. Thomas Bernhard mostra o desconforto de ser humano em um mundo no qual a Humanidade cada vez mais se torna massificada (para não dizer embrutecida). Além disso, revela as imponderabilidades do real, as fraturas que deixam a verdade do mundo tão fragilizada, a estranheza que se esconde no cotidiano de cada um de nós se apontarmos a lupa para o local correto.

Uma única ressalva: não sei se foi problema de tradução ou se era a realidade do texto literário, mas, em vários momentos, senti que a frase não estava seguindo a intenção do autor. Por falta de habilidade com o trato literário de um texto, pareceu-me que a tradução estava correta do ponto de vista gramatical, ainda que não estivesse confortável para a fluência da leitura. Existiam maneiras melhores de escrever algumas frases, e a falta de ritmo narrativo, as frases espichadas sem vírgulas ou conectivos, a pouca variedade do léxico do tradutor, tudo isto prejudicou bastante a minha leitura. Seria algo a se prestar atenção. Boa parte dos comentários que li sobre o livro criticavam, de forma indireta, a forma com que ele foi construído na versão em português. É impossível não pensar se, na língua original, tais problemas aparecem. Até por que, se isto acontece mesmo no idioma originário, novas possibilidades de leitura surgiriam de tal desconforto.

Apesar deste pequeno problema, Thomas Bernhard vale muito a leitura e a reflexão. Foi o primeiro escritor em muitos anos que me fez ler o livro quase sem parar, de um extremo ao outro, deixando-me  mais intrigado e com dúvidas a cada página ultrapassada. Preocupou-me muito que o mundo descrito pelo autor austríaco seja tão próximo e, ao mesmo tempo, tão misterioso. Mesmo tendo atrapalhado a minha rotina de leituras, intrometendo-se nela quase como o seu narrador xereteia e desnuda os dramas alheios, Thomas Bernhard foi um desvio que valeu a pena, praticamente um oásis no meio das leituras áridas e desconexas que me esperam.

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2 Comentários

Arquivado em Literatura, resenha, Thomas Bernhard

2 Respostas para “Livro: “O imitador de vozes”, de Thomas Bernhard

  1. Pois eu não conhecia a criatura nem de nome!!
    Quanto mais leio, mais preciso ler, oh, vida 🙂
    Vou procurar para comprar.
    Beijos

    • É o mesmo sentimento que eu tenho, Lelena: quanto mais leio, mais livros aparecem. É a legítima Hidra de Lerna! 😀
      “O imitador de vozes” vale muito a pena. Para quem trabalha com a forma do conto, ele é uma aula de concisão e de histórias ocultas. Além disso, é desconfortável e tenso: as histórias ficam um bom tempo na memória do leitor. Vais gostar da experiência de ter o mundo sacudido por forças invisíveis, misteriosas.
      Beijo, obrigado pela leitura

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