Vamos parar de pensar

Recentemente, em alguma conversa, defendi a ideia de que aquilo que separa o homem do seu sonho é o pensamento.

Estávamos falando de futebol. Tal assunto me interessa pouco, usei-o somente para embasar meu argumento. Tirando o tolo fanatismo que cerca tudo ao redor do esporte bretão, afirmei que o Internacional só foi campeão do mundo por que Adriano Gabiru, o homem que marcou o gol do título, não pensou no que estava fazendo. Se tivesse pensado que ia marcar um gol contra o invencível Barcelona da época, em uma luta que reprisou Davi e Golias, seus joelhos teriam tremido com as implicações de tal descoberta.

Como não pensou, ele foi lá e fez o impossível. O homem improvável no local exato.

(Sonho com o dia em que inventaremos uma máquina capaz de ler pensamentos do passado. Muitos mistérios serão descobertos. No entanto, também saberemos que alguns momentos essenciais da história humana não foram sequer refletidos com a cautela que se esperava dos envolvidos. Talvez por tal motivo – a inevitável decepção que nos aguarda, a sensação de que toda a História da Humanidade paira sobre os ombros de homens insensatos – que ninguém invista tempo nesta pesquisa).

Lendo “O imitador de vozes “, de Thomas Bernhard (já prometi, a resenha está a caminho), deparo-me com um pequeno conto que ilustra a minha reflexão. Vou transcrevê-lo:

Um dançarino famoso

Em Maloja, conhecemos um ex-dançarino famoso da Ópera de Paris que, certa noite, entrou em nosso hotel numa cadeira de rodas empurrada por um jovem italiano de Castasegna, a quem o dançarino contratara por vários anos. Como ficamos sabendo pelo próprio dançarino, ele havia caído em plena estreia de um Rafael de Händel que Béjart coreografara exclsuivamente para ele e, desde então, ficara paralítico. Contou-nos ainda que, de súbito, perdera a consciência e só a recuperara dois dias depois. Era possível, disse-nos, envolto num casaco caríssimo de pele de castor, que seu infortúnio tivesse se devido ao fato de, pela primeira vez na carreira, ele ter pensado na complexidade de certa combinação de passos, o que sempre temera fazer ao longo dos quinze anos de uma carreira que já o levara a todas as grandes casas de ópera do mundo. Enquanto dança, afirma ele, o dançarino jamais pode pensar em sua dança: deve apenas dançar, e nada mais.

Pensar é morrer. O sonho de voar só existe quando não pensamos nele.

O conto de Thomas Bernhard sintetiza bem o problema: quando o dançarino entendeu a complexidade do ato que ia realizar, ele se tornou incapaz de consegui-lo. Covardia, medo, receio, tudo isto brotou no seu peito na hora em que ele descobriu que era somente um ser humano e, por esta condição, poderia fracassar.

Pensar demais é perigoso. Pensar é abrir brechas para que as ervas daninhas se alastrem, trazendo consigo o medo de falhar. E, diante de tal antecipação, a possibilidade da queda se torna concreta. Tão impressionante era a coreografia feita especialmente para ele que, ao fracassar, o dançarino perdeu aquilo que mais gostava de fazer e ficou paralítico. O pensamento rompeu a confiança e o resultado foi o sacrifício da própria essência do dançarino: sua mobilidade.

(É interessante que ele apareça no conto não só conformado, mas quase feliz. Bem vestido, bem cuidado, capaz de usufruir visualmente daquilo que antes realizava, mas sem mobilidade. O pensamento que tirou as suas pernas se instalou na sua vida e acalmou a sua voracidade interna, a sua insatisfação, o demônio invisível que o levava à dançar. Ele se tornou um tigre domesticado, e gosta desta posição. O pensamento traiçoeiro que se imiscuiu na sua mente não acabou somente com a dança; também quebrou o seu espírito e lhe transformou em um acomodado).

Se o beija-flor pensar, um milissegundo que seja, sobre a impossibilidade das suas asas sustentarem no ar um corpo pesado, não conseguiria levantar vôo.

Não defendo o instinto. Ele é perigoso, falso, conduz a conclusões errôneas. No entanto, a frase final do conto encerra uma grande máxima da vida: “Enquanto dança, afirmou ele, o dançarino jamais pode pensar em sua dança: deve apenas dançar, e nada mais”. 

O mesmo pode ser dito da escrita. Enquanto uma pessoa escreve, não pode pensar naquilo que está escrevendo, deve apenas sentir a história escorrendo por entre os dedos. Pensar é começar a falhar, é trazer insegurança para a narrativa. Tenho visto muitos livros atuais – por alguma estranha ironia, a vida me colocou em um emaranhado de literatura contemporânea do qual está difícil se desvencilhar – e o que mais irrita é ver o percurso psicológico feito pelo autor no ato de escrever. Ele está pensando demais enquanto escreve e, assim, vejo narrativas medrosas, com receio de assumir posições ou ferir o politicamente correto, personagens sendo incluídos por um obscuro sistema de cotas (“melhor colocar uma mulher para atrair o público feminino”), situações forçadas para agradar o leitor de forma artificial (em especial cenas de sexo fora de contexto). Esta atitude é um bocado irritante. Se a pessoa vai escrever, pelo menos que seja sincero consigo mesmo; que pare de racionalizar e se abandone ao que está fazendo.

Se pretendemos dançar, vamos fazer com todas as nossas energias, com toda a nossa gana. Não vamos pensar no que estamos fazendo, pois o pensamento só existe para colocar obstáculos. Portanto, não sejamos o dançarino que cai ao notar, pela primeira vez depois de anos de prática, a complexidade dos passos de dança executados. Ao invés disto, sejamos Adriano Gabiru, vendo a bola a sacudir as redes e pensando “fui eu mesmo quem fiz isto? Parece um sonho que outra pessoa me contou!”.

Basta não pensar e tudo se torna possível. As dificuldades só existem por causa do pensamento. Ceder a ele é perder o sonho.

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Arquivado em Dança, Futebol, Generalidades, Literatura, Pensamento, Thomas Bernhard

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