Microcontos, sim, mas sem pressa

Na revista ÉPOCA da semana passada, li uma larga reportagem sobre as vantagens de ser lento e reflexivo em um mundo cada vez mais dinâmico, rápido, guiado por instintos. A reportagem prega as vantagens de desacelerar o ritmo, mesmo cercado de pessoas sequiosas por informações e com atitudes cada vez mais rápidas e impensadas. Para quem tiver interesse, aqui está o link da reportagem: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2012/10/desacelere.html

Nada contra as pessoas que se guiam pela primeira impressão e pelo desejo de tomar decisões rápidas baseadas no instinto: o único problema são as pessoas em si. Somente alguém com domínio pleno de um assunto poderia se dar ao direito de ser instintivo, pois, de tanto estudar os meandros da questão, pode guiar suas decisões de forma mais acertada. Imaginar que um homem de 19 anos decida de forma satisfatória uma questão complexa usando os instintos é ser ingênuo demais, ainda que, pelas leis das possibilidades, a chance de tudo dar certo pode acabar acontecendo.

Recordo uma situação que vivenciei na Faculdade de Direito: ao contrário dos outros professores, que costumavam ir para a aula vestidos com ternos lustrosos feitos sob medida por alfaiates, um professor ia para a aula de bermuda, sandálias e camiseta simples. Certa vez, em uma roda, conversávamos sobre esta diferença quando um colega mais experiente disse: “Ele pode vir dar aula com a roupa que quiser. Atingiu tal grau de conhecimento da matéria que ensina que sabe que as pessoas não estão contratando a sua roupa, a sua imagem, e sim o seu conhecimento”. Foi uma grande lição: hoje, tento identificar as pessoas que atingiram tal grau de especialização que a sua presença, imagem ou fatores externos são irrelevantes para demonstrar o conhecimento.

Tudo isto para falar em microcontos. Nunca gostei deles. Sempre me pareceram o cúmulo da preguiça criativa, chistes pretensamente espirituosos, não dotados de catarse, nem de epifania, nem de deslumbramento, mexendo somente com a história oculta em completa desconsideração ao leitor. É evidente que o leitor, em um mundo acelerado, adora a experiência de usufruir de algo “literário” condensado em uma frase. Encaixa com perfeição no seu dia a dia, a pessoa pode inflar o peito e declarar que leu um livro. No entanto, poucos são capazes de memorizar a sensação causada pelo conto. Geralmente, eles são lidos e consumidos no próprio ato da leitura. Literatura fast food.

Posso citar dezenas de exemplos de microcontos que ofendem os meus princípios como leitor. É um dos poucos casos em que, se eu citar um microconto ruim, estaria fazendo injustiça para dezenas de outros microcontos ruins não citados. Brincadeirinhas bobas e simplórias, com jogos de palavras medíocres.

Quando estudei na graduação da UFRGS (não se preocupem, foi somente um semestre), tive um colega, um rapaz de olhos sonhadores. Todo dia de aula, ele chegava na frente do quadro negro, bafejava, erguia uma expressão súplice para o céu e – sabe-se lá qual musa brincalhona que acorria ao seu chamado – escrevia um microconto no canto do quadro. Em seguida, exaurido, sentava-se na sua cadeira e acompanhava a aula. Ai do professor que tentasse apagar o microconto, corria o risco de ser linchado. Todos os meus colegas elogiavam e alguns professores, para não se desgastar com a turma (meu Deus, como eu espero que seja este mesmo o motivo!), também louvavam o impulso criativo do colega. Em um ano inteiro, não vi um microconto que prestasse. Por alguns tempos, me diverti anotando-os no caderno, mas logo percebi que o rapaz imaginava que eu estava admirando o seu trabalho, então parei.

Quando conto esta história, recebo sempre o mesmo comentário: “ah, mas no Brasil são tão poucas as pessoas que leem ou escrevem, se o rapaz se sente feliz fazendo isto, mal nenhum ele está praticando!”. Não. Esta desculpa eu não aceito mais. Ele está praticando um mal, sim. Está submetendo ao público o seu esforço interno, está fingindo que isto vem das musas da criação, está impondo – com uma boa dose de convencimento e empáfia – uma visão distorcida do que é literatura. Pois literatura, amigos, é trabalho braçal e exaustivo da forma, é acordar todo dia e pegar um broquel para quebrar uma montanha de granito. Se o rapaz realmente deseja escrever e mostrar o seu trabalho, ele que vá ler mais, tentar mais, escrever mais, refletir mais, não fazer de conta que é um autor desconhecido tocado pela inspiração profunda dos grandes criadores.

 

 

Eu imaginava que minha opinião sobre microconto – eu os chamo de “a solução da preguiça”, fazendo chiste com o diálogo, chamado entre os teóricos de “a solução da facilidade narrativa” – fosse permanente, e estava errado. Agora percebo que tive más experiências com o microconto e, se ele for feito com talento, sem pressa, medindo cada palavra e cuidando do excesso, pode dar certo. Não é uma impresão completa: para mim, não é a mesma coisa que um conto, e acho até que existe um problema de definição aí, pois compará-lo a um conto completo é desgastar o conceito e parodiá-lo. Deveriam buscar novas formas de chamá-los, pois até a expressão “microconto” é preguiçosa, apoiando-se em uma definição anterior mais abrangente.

Mudei minha opinião por dois fatores. O primeiro foi a leitura de “O imitador de vozes”, de Thomas Bernhard, que me mostrou que contos podem ser pequenos para concentrar maior carga dramática. Em breve colocarei a resenha aqui no blog. Não são exatamente microcontos, eu sei, e sim contos reduzidos. A exiguidade narrativa contribui para a criação do clímax mais na mente do leitor do que dentro dos limites da história. E Thomas Bernhard faz isto com maestria, alternando sensações e gerando linhas de mistério típicos do contemporâneo. Se o conto fosse mais extenso, ele não conseguiria tais efeitos.

O segundo fator foi a descoberta involuntária de um microconto escrito por Ernest Hemingway, tido como o melhor já feito. Bem, vou contar a mitologia completa: certo dia, reunido com os amigos, Hemingway foi desafiado a escrever uma história com seis palavras. Diz a lenda que, na hora, ele pegou um guardanapo e escreveu:“For sale: baby shoes, never worn.”. Traduzindo – “Vende-se: sapatinhos de bebê, nunca usados.”

Como toda história, acho difícil de acreditar que Hemingway tenha sido tão rápido assim. Faz parte do mito do autor-criador-que-traça-palavras-geniais-em-um-guardanapo essa sensação de que as criações surgem como Palas Atena das cabeças alheias. No entanto, este microconto tem frequentado a minha memória há mais de duas semanas. Em várias situações, as mais diferentes possíveis, eu me lembro dele. Por este motivo, admito que, quando bem feito, um microconto pode ser eficaz. Ainda assim, o que mais atrapalha chegarmos ao microconto bom é o excesso de ruins que tendem a cercá-lo e exaurir a sua força.

O microconto é a síntese da aceleração do mundo na vida literária. Muitos autores apelam para ele imaginando que a genialidade e a impressão literária podem ser sintetizadas em algumas palavras. Por este motivo, acredito que a desaceleração é ainda mais necessária no momento de se fazer algo acelerado. Criar devagar e com calma é mais importante do que elaborar um chiste rapidinho e imaginar que escreveu uma micro-história.

O maior inimigo do microconto é ele próprio. De tão apressado, feito por autores rápidos para leitores sem tempo, ele acabou se esquecendo que é literatura. Desacelerem, amigos escritores, curtam a paisagem: não tenham medo do tamanho da história, não tenham medo da pressa do leitor. Se for boa a experiência, todos chegaremos ao mesmo ponto: o final.

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2 Comentários

Arquivado em Ernest Hemingway, Generalidades, Literatura, Microconto, Pressa, Temas de crítica literária, Tempo, Thomas Bernhard, Uncategorized

2 Respostas para “Microcontos, sim, mas sem pressa

  1. Kelli Pedroso

    Confesso que gosto de microcontos, mas é como escreveste: é muito difícil encontrar pequenos textos com qualidade. Agora, uma coisa é certa, a prosa extensa, principalmente o conto, está acima de tudo.

    • Sim, é complicado encontrar microcontos de boa qualidade. O pessoal confunde facilidade com preguiça narrativa: escrevem ditos ou frasesinhas engraçadas e chamam de microconto. O mesmo acontece com o haikai, que também é desvirtuado na sua essência poética por um bando de engraçadinhos fazendo junções poéticas de palavras sem nenhum sentido de permanência, só para chegar perto do bonitinho. Não sei se podemos considerar o conto como a forma literária acima das outras, não sei se podemos fazer este tipo de divisão, mas, da mesma forma qu ocorre com o microconto, geralmente quando o conto é ruim, o problema não é a história, é o maior ou menor descaso com que o escritor conduziu a trama. Portanto, quanto menor a prosa, mais cuidadosa e habilidosa ela deve ser pensada e escrita. Beijo e obrigado pela leitura. 🙂

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