Filme: “Prometheus”

 

Na minha opinião, o cinema foi criado especialmente para o gênero da ficção científica. Não existe gênero melhor para abordar as vantagens do progresso da ciência, as inquietudes do homem submetido ao antigo duelo contra a máquina, a vontade de procurar respostas no infinito – e existe infinito mais absoluto do que o espaço? O homem é o lobo do próprio homem, disse o Herman Hesse. Eu adaptaria para “a ciência é o lobo do próprio homem”.

Com relação à excelência do gênero da ficção científica, recordo que Isaac Asimov (ou teria sido o Ray Bradbury?) considerava a literatura como tendo sido projetada para escrever ficção científica. Um exagero, mas às vezes eu me interrogo se tudo, inclusive a vida, não é mesmo uma gigantesca parábola científica elaborada por alguma mente.  Mente capaz de não somente formular a sua gênese como respeitar as opiniões contrárias e até fomentar discussões sobre a própria existência, em um processo de auto-desconstrução eterno, sabendo que o melhor lugar para esconder uma folha seca ainda é no meio da floresta.

Ontem assisti “Prometheus” (2012). Quando soube que seria dirigido pelo Ridley Scott, fiquei imediatamente interessado: ele sabe contar histórias de ficção científica. Vou citar somente duas que merecem estar na lista de qualquer pessoa que ame ficção científica: “Blade Runner” e “Alien – O oitavo passageiro”. Não tive oportunidade de assisti-lo quando estava no cinema.

É um filme excelente. Tanto nos acertos quanto nas falhas. Inclusive as falhas são até mais interessantes do que os acertos, pois permitem vislumbrar possibilidades tão aterradoras que dificilmente seriam exploradas sem uma ponta de receio. “Prometheus” tenta responder a mais antiga pergunta dos humanos: quem nos criou? Sempre digo que é perigoso fazer uma pergunta sem ter uma boa ideia de qual será a resposta provável. Os tripulantes de “Prometheus” descobrem que a resposta é mais terrível do que se poderia imaginar.

Os conflitos secundários são tão interessantes quanto o principal. Eu até diria que, se retirássemos os aliens do filme, ele acabaria se mantendo com suas próprias forças, tamanha a relevância das subtramas. O homem que não deseja morrer para conduzir o seu império econômico por toda a Eternidade não é tão diferente do sonho de viver para sempre, algo que não passa de uma extensão do seu egoísmo. A filha que espera toda a vida para substituir o pai e sente-se roubada pela vontade do progenitor de continuar vivo é a representação de um conflito humano ancestral. Até onde um cientista iria para provar a sua teoria é um ponto de extrema relevância – não podemos esquecer os experimentos feitos pelos nazistas com pessoas vivas, tentando demonstrar as suas teorias, e quanto de repulsa isto nos causa hoje.

No meio desta subtramas, aparece um robô. Ridley Scott gosta de robôs: nos três filmes que citei, eles aparecem em diferentes posições, alternando-se entre amigos e inimigos, entre sensíveis e indiferentes, entre mortais e frágeis.  No caso de “Prometheus”, o robô é interpretado com dignidade por Michael Fassbender. Muitos anos separam os filmes de Ridley Scvott entre si, e chamou a minha atenção o grau de ironia e perversidade que foram conferidas ao robô mais recente. No entanto, não é uma perversidade intencional, e sim maquiavélica: os fins justificam os meios e, como o robô é programado com fins, tudo se torna justificável no seu propósito, pois ele está “seguindo ordens”. É o velho dilema de Nuremberg vindo à tona para nos assombrar: os nazistas mataram milhares de pessoas cumprindo ordens. Assim, onde está o mal, nas ordens que foram dadas ou nas pessoas que lhes obedeceram? Somente a capacidade de ser humano pode responder esta pergunta. E vários personagens insultam o robô dizendo que ele não é humano, mas, para meu espanto, o mais humano é justamente a máquina. Na sua última indagação, o robô pergunta para Noomi Rapace qual o sentido de encontrar o criador para perguntar o motivo do seu ódio. A resposta: “você não sabe a importância disto, pois não é humano”. Ora, em outro momento do filme o robô faz questão similar para outro personagem e, ao receber a resposta (“nós criamos vocês por que podíamos”),  fica subentendido que, por conhecer o seu criador (os homens), o robô não tem a necessidade de perguntar o motivo da sua criação, ele existe e basta. Assim como o seu ódio de não ter uma alma e a cobiça em se apropriar dos sonhos (da alma) alheia são condições de extrema humanidade, que destoariam de um robô se não soubéssemos que ele foi programado e é reflexo dos motivos da sua existência.

Como também é praxe neste tipo de filme, é criada a dúvida sobre a Humanidade de outra personagem. O piloto da nave pergunta, de forma direta, se Charlize Theron é um robô. É uma dúvida relevante, pois ela não aparenta nenhum traço de humanidade. Para provar a sua condição de humana, a mulher se oferece para transar com o piloto. Este ato provaria a nossa condição de humano? Máquinas seriam incapazes de imitar o ato sexual? Não vou nem entrar no mérito de bonecas infláveis e outros itens. Prefiro lembrar do lindo conto de Isaac Asimov, “Prova“, constante no livro “Eu, robô”, onde um homem é tão perfeito – até nas suas deficiências, que soam programadas para soarem naturais – que as pessoas duvidam da humanidade do outro. Qual a prova suprema de que alguém é humano, como fazemos para demonstrar isto? É uma questão sublime. E irrespondível.

Diante de dúvidas tão devastadoras suscitadas pelo filme, a possibilidade do nosso DNA estar no corpo do alien também nos transforma em criadores daqueles que pretendem nos destruir. É um círculo: criamos e somos criados, destruímos e somos destruídos. A cena inicial liga na última – a criação encontra caminhos estranhos para se manifestar, e do ódio pode nascer uma criatura. Não pretendo adiantar o filme, mas a questão principal é justamente definir o motivo do nosso criador nos odiar. Por ser uma questão muito complexa, as falhas do roteiro se encontram aí: por que o nosso demiurgo deixaria inscrições nas paredes para nos guiar até ele? Mais simples seria erradicar os traços da sua passagem. Se teve a tecnologia para vir até a Terra, por que não nos destruiu ainda no estágio inicial da criação? Outras dúvidas surgem, mas eu não acredito na verossimilhança absoluta. Sempre existe um espaço na realidade para a velha e boa burrice. Prefiro pensar que os aliens não cogitaram neste plano, ou que razões extras e misteriosas lhe impediram de executá-lo. Também existe a possibilidade de que nem todos os alienígenas desejassem erradicar a corruptela do seu DNA que resultou na civilização humana, ou também deveriam existir criadores que nos amavam ao invés de nos temer como ameaças. Muitas possibilidades surgem, abrindo novas interpretações. O bom filme de ficção científica não tem respostas, e sim perguntas.

O filme é repleto de símbolos, que vão desde o nome da nave (explicação desnecessária, às vezes é melhor deixar o mistério, creio que existiu uma certa desconfiança com o tipo de espectador para quem o filme se direcionava) até o sombrio nascimento da criatura, trazida à luz sem nenhuma espécie de sentimento que não seja o horror e parafraseando o próprio parto de um ser humano, que possui cenas horríveis também. O mistério do Engenheiro que morre no início não foi bem explicado e, por isto, reúne possibilidades quase infinitas, desde um sacrifício até uma execução. Em tal contexto simbólico, o surgimento do alien é quase uma homenagem ao “Alien – O oitavo passageiro”, e é mais um simbolismo dentro de outros. Ridley Scott homenageia a própria criatura e o filme em que ela apareceu, dando-lhe uma perturbadora indagação: será que, ao entrar no corpo dos seres humanos, o alien também não quer se integrar ao seu criador, entender o seu sentido de vida? E não é isto que nós, seres humanos, não fazemos todo dia? Aliens – demasiado humanos.

Um último detalhe: na abertura do filme, as imagens de uma possível Terra jovem, nos seus primeiros anos, logo antes de surgir a vida, me deixou extremamente comovido. A força quase mitológica da natureza ainda intocada, ainda juvenil, foi inebriante. São para cenas como esta que o cinema existe, para que possamos sonhar com aquilo que perdemos – e recapturar um pouco da sua magia.

Vou colocar o trailer. Não faz jus ao filme, assemelha-se a um trailer de horror, mas a parte do filme em que tal horror ocorre é quase insignificante diante do suspense que foi até chegar nela:

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4 Comentários

Arquivado em Cinema, Isaac Asimov, Literatura, Prometheus, resenha, Ridley Scott

4 Respostas para “Filme: “Prometheus”

  1. Vi, em 3D, na época da estréia. Eu sou super fã do mundo Alien. Estava curiosíssima para saber a “origem”. Sai com a sensação de que o importante é o processo interminável de criar.
    Beijoss

    • Lelena, eu também sou muito fã do mundo Alien e da sua mitologia. Apesar de ter lido muitas críticas contrárias ao filme, feitas por amantes do “Alien – O oitavo passageiro”, achei um início digno, apropriado e com mistérios suficientes para dar uma revitalizada nas questões antigas suscitadas pelos outros filmes. A ideia de uma criatura maléfica emergir do corpo do outro, além de expressar nascimento, também é um princípio de destruiçao, um assunto que eu acho muito interessante, uma metáfora poderosa. Devo admitir que o meu filme predileto é o “Aliens – O Resgate”, onde eles saem no braço mesmo com as criaturas, mas gosto de todos os outros filmes também. Um abraço, obrigado pela leitura, sempore atenta, sempre arguta. 🙂

  2. Sou fan (meu teclado nao tem o “til”) da série ALIENS, mas confesso que foi bem decepcionante o Prometheus, nao pelo desempenho dos atores ou aspecto visual, mas sim pelo roteiro mal executado na minha opiniao.
    O que encheu o filme de furadas, do meu ponto de vista, ridículas. Pode ser que eu estivesse esperando mais. Mas vamos lá, dois arqueologos encontram inscriçoes numa caverna paleolitica e teorizam que seja o lar de nossos ancestrais extraterrestres, e sem nenhuma confirmaçao cientifica levam a proposta para uma corporaçao que compra a ideia e manda uma expediçao espacial de bilhoes de dólares para lá sem nenhum motivo forte o suficiente para justificar tal fato.
    Um grupo de cientistas escalado sao verdadeiros idiotas – tirar o capacete e sistema de respiraçao num planeta alienigena sem se preocupar com os agentes patogênicos desconhecidos é coisa de leigo, nunca o comportamente esperado de profissionais da ciencia.
    A equipe de cientistas profissionais atua de maneira mais incompetente do que adolescentes acampando no Crystal Lake numa “Sexta Feira 13” qualquer.
    A criatura que cresce e se desenvolve a um tamanho absurdo a partir do nada. É lógico que um organismo para alcançar maior massa, deve consumir algo e nao se pode construir estruturas físicas-organicas do nada.
    Isso pode parecer uma reclamaçao minha, mas o filme se propoem a ter uma pegada mais estilo SciFic-Hard, ou seja, Ficçao cientifica mais realista que explora temas possiveis, como manipulaçao genética, origem da vida, criogenia, viagem espacial, robotica, inteligencia artificial, etc. Temas que nao sao tao ficticios assim. Eu nao estaria reclamando disso num filme de StarWars que vai mais para o lado de Space-Opera, mas a proposta da serie Aliens é distinta.
    Ao meu ver era um filme que prometia muito, muito mesmo. E de certa forma me decepcionou muito com um roteiro.

    • Grande senhor Tiago:
      Como ressalvei em algum lugar da resenha, o filme é cheio de falhas, sim. Mas talvez sejam elas que deixam o filme tão interessante, tão humano. Se não existissem estes buracos no roteiro, se a história fosse toda amarradinha e fechada em cada mínimo detalhe da mitologia que cerca os filmes da série ALIEN, talvez o filme ficasse morno e ninguém estaria o discutindo (o remake de “The Texas Chainsaw Massacre” deu tantas explicações psicológicas para os motivos do assassino que a graça de imaginar o motivo pelo qual um cara pega uma motosserra e sair por aí fatiando gente acabou se perdendo). É para preencher estas lacunas que precisamos usar a imaginação e, pelo o que eu vi na internet, existem pessoas que realizaram voos imaginativos tão fantásticos que valeriam, por si só, filmes novos. Só esta discussão já valeu a pena todos os buracos do roteiro de “Prometheus”.
      Cara, por muitos anos eu vi filmes em que as pessoas ficavam mais preocupadas em encontrar furos ou fraquezas científicas do que em discutir possibilidades. Eu acho que pensar assim delimita o filme. Sim, ele possui alguns erros e um bocado de inverossimilhanças, mas a vida também não é feita de erros ou de impossibilidades? Uma ficção científica precisa ser realista com nossos padrões de normalidade? Podemos realmente aceitar que são homens da nossa realidade que estão em um filme de ficção científica ou que ele representa uma corruptela da nossa civilização, uma realidade alternativa? Todo cinema é uma realidade alternativa. Neste caso, nossos padrões do que seja normal precisariam ser revistos.
      Acho que existe muita vontade de encaixar o filme dentro de padrões humanos, mas, ora, se fizermos isso, ele deixa de ser filme e passa a ser realidade. Precisamos dar um espaço para a fantasia, discutir o global, ao invés de nos preocuparmos com detalhes. Precisamos dar espaço para o roteirista imaginar.
      Concordo que existem algumas inverossimilhanças, mas elas não me atrapalharam. Até entendo que a proposta da série ALIEN é uma ficção científica mais realista, mas acho que estas duas palavras são incompatíveis: ou é ficção e, por consgeuinte não é realista, ou não é ficção. Nas objeções apresentadas na tua mensagem, prefiro pensar no contrário: o roteirista não é um idiota completo. Se ele colocou estas cenas, colocou por um motivo. Quais os segredos ou os motivos (ou até explicações) para estas cenas terem ocorrido? Por que os astronautas tiraram o capacete (será que tudo não foi uma ilusão, será que eles não estavam sendo atacados por algum agente alienígena, uma bactéria?)? Por que o alien cresceu tão depressa em tão pouco tempo, será que ele não é uma mutação? O que eram os desenhos na caverna, convites, ameaças ou homens apontando o lugar de onde veio o inimigo? Se formos dar um crédito ao roteirista e pensar nos motivos pelo qual ele pode ter colocado estas incompatibilidades com a nossa realidade, as respostas para tais perguntas criam um universo de possibilidades.
      Eu não sou uma pessoa que entende muito de ciência, longe disto. O pessoal na internet apontou muitas incongruências que eu nem tinha visto. O que eu fico meio incomodado é que ninguém mais quer imaginar. A imaginação virou um crime. Estamos cercados por pessoas “realistas” que acham que imaginar é errado. Está todo mundo tão cético que só aceitamos filmes com detalhes reais e amarradinhos com a nossa realidade. Ora, na nossa realidade, uma menina não gira a cabeça 360 graus (“O Exorcista”), não existem monolitos negros na Lua (“2001”) e não existem nem viagens espaciais ou aliens. Uma das coisas que mais me irritam em filmes é quando o roteirista vem e dá uma explicação completa, detalhada, redundante (sempre digo que é o momento em que o autor aparece para explicar, tintim por tintim, o que o leitor burrinho não entendeu, hehehehe). A realidade não é assim: existe uma série de coisas que não conseguimos explicar, e nem a ciência ainda chegou lá. Podemos nos dar ao direito de imaginar e não precisamos colocar freios na imaginação, do tipo “ui, isto todo mundo vai dizer que é bobagem!”. Bobagem em que mundo, em que termos? Em ficção científica não existe o inverossímil, existe somente o mal feito. E isto só aconteceria se um personagem morto reaparecesse ou um robô mostrasse emoções incompatíveis com a sua programação.
      Acho legal que tu tenhas visto estes erros, respeito muito a existência deles, mas, pensando no global, um filme que deixa mais perguntas do que respostas é um bom filme. Se chegarmos às respostas, novas interpretações podem surgir. Não estou dizendo que todo o filme está certo, mas que pensar nas possibilidades contidas nos “erros” pode levar a uma nova abordagem mitológica da série ALIEN.
      Um abração, velho, gostei do teu comentário.

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