Eu, o devorador de pecados

Muitas vezes eu escutei histórias de pessoas que desistiram do Direito por serem incapazes de ouvirem certas perguntas – ou de chegarem a certas conclusões. Em todos estes anos de exercício profissional, já enfrentei os mais diversos dilemas éticos, problemas intrincados e questões de inegável criatividade, que me fizeram ver que as capacidades de engendrar maldades (e bobagens) do ser humano é inesgotável, a pedra jogada em um poço e que nunca chegará ao fundo.

Mas, em segredo, eu temo a última pergunta, a gota que encherá o copo, a questão que serei incapaz de responder sem perder a Humanidade.

Um dia ela chegará. Várias pessoas que respeito – e que desistiram do Direito – alertaram-me, com as suas histórias, de que, em um dia ainda desconhecido, encontrarei meu nêmesis. Incapaz de responder, cederei o pescoço à Esfinge e, antes de ter meu corpo jogado nos desfiladeiros que cercam Tebas, desistirei do jogo e capitularei da boa luta.

Cada pessoa que entra na minha sala pode ser o portador da pergunta. Em cada história ouvida, pode espreitar a loucura,  a impossibilidade de traduzir a experiência alheia em parâmetros racionais.

Vivo com este medo. Talvez a pergunta nunca apareça, ou talvez eu seja incapaz de ouvi-la. No entanto, ainda assim, ela existe. E espera o momento para atacar.

Ontem, chegou muito perto. Desagradavelmente próximo. Se fosse um cometa, teria passado a poucos quilômetros da esfera terrestre.

O homem conta uma caudalosa, árdua história. Torce as mãos; os olhos vagam por todo lugar, menos em mim, o interlocutor. Ele evita o assunto, e eu espero. Tenho paciência e tenho tempo. Queira ou não, a história virá. Ela sempre se oferece para quem deseja ouvi-la, para quem lhe anseia com sofreguidão.

E ele não me frustra. Fala que o seu falecido pai foi diagnosticado com câncer no estômago. Após o primeiro dia de quimioterapia, voltou para casa quieto. Sentou-se no pátio e passou algumas horas lá. Era noite quando o filho foi buscá-lo. A pergunta é inevitável: “o que houve, pai?”. O velho o encara com sofrimento genuíno: “Filho, quero que tu me faça uma promessa”. Depois do jovem recusar algumas vezes,  o pai consegue que ele concorde. Então, pede: “Não vou mais em nenhuma sessão de quimioterapia. Não aguentarei tamanho horror novamente. A dor é imensa demais. Não vou mais ir e não quero que você me leve mais”. O filho é o único que mora com o pai, o responsável por levá-lo ao hospital. Ele hesita, mas o pai diz que, se é para morrer, que seja sem dor, sem sofrimento, sem quimio.

Ele concorda. Não leva mais o pai no hospital. Omite os diagnósticos sombrios para os seus irmãos. Como era de se esperar, a saúde do velho se deteriora cada vez mais.

No final, levaram ele para o hospital. Está a família ao redor da cama. O velho sofre. No seu último momento, quase na última respiração, ele aponta para o jovem e diz, com raiva: “Foi você quem me matou”. E morre, deixando para trás o espírito do próprio filho, estilhaçado em mais pedaços do que a terapia pode emendar

Nos dias posteriores, os irmãos investigam. Logo descobrem que o pai não apareceu nos últimos tempos no hospital para o tratamento, apesar das recomendações contrárias dos médicos.  Sempre desaparecidos, de repente os irmãos se tornam presentes. E ávidos. Após um almoço de família, colocam o irmão contra a parede e ameaçam: ou ele desiste da herança em favor dos outros dois ou ele será preso por homicídio doloso. E, então, o homem faz a pergunta que interessa, a única possível e que lhe trouxe até aquele momento:

“Doutor, fui eu? Eu matei meu pai mesmo?”

A questão escapa do jurídico. Ele não tem medo da lei. Na sua voz, reside a dúvida, e não é a dúvida de um culpado, é a dúvida de um ser que pode ter matado o próprio pai por causa de um erro de interpretação, por causa de uma cabeça prejudicada pela quimio ou com os primeiros sinais da demência.

E a resposta é mais dolorosa ainda. Sem redenção alguma, sem alívio.

Sim, matou. Deveria ter pego esta vontade do pai por escrito. Deveria ter se cercado de testemunhas. Deveria ter consultados seus irmãos.

Deveria. Mas não fez.

Alinhavamos a estratégia de defesa, o que fazer para quando chegar a hora, como pressionar, como fingir mais fortaleza do que a realidade. Quando ele saiu, por mais paradoxal que pudesse parecer, estava aliviado. No fundo, sabia a resposta, só confirmei aquilo que ele sabia.

No entanto, a pergunta me assombrou o dia inteiro. Ele matou mesmo o pai? Uma pessoa pode matar a outra sem querer? E que espécie de jogo demoníaco foi este praticado pelo pai, que lhe pediu uma morte sem dor e, na hora H, como uma vingança tola, resolveu culpar outra pessoa pela sua decisão? E o gosto ruim preenche a minha boca enquanto perco um pouco mais de esperança na Humanidade, sabendo agora que filhos podem matar os pais por omissão, que pais podem transferir culpas invisíveis para um filho,  que o egoísmo no momento final fala mais alto do que a piedade, que irmãos podem usar uma tragédia para destruir outra pessoa.

Reflito sobre o peso das perguntas que ouço e das atrocidades que presencio. Penso em quanto tempo ainda tenho antes que elas comecem a fragmentar a minha índole. Cada vez menos.

Tudo o que consigo pensar é que acabei virando um “devorador de pecados”. No passado, em muitas comunidades, era comum que colocassem um pão sobre o peito do morto ou sobre seu esquife. Acreditava-se que os pecados eram transferidos para este alimento. Em seguida, entrava em cena o “devorador de pecados”, um homem que devorava este pão, ingerindo os pecados do outro e alcançando-lhe o perdão eterno, garantindo uma alma límpida, sem máculas. Sempre me angustiou a quantidade de pecados e podridões que um único homem pode aguentar sem corromper a sua essência. Imagino o homem andando pela cidade, com passos fortuitos, envergonhados, os olhares alheios fugindo da sua sombra incômoda, sabendo que ninguém iria lhe convidar para jantar naquela noite, mas que ninguém erraria o seu endereço na hora de comer o último pão de um falecido.

De certa forma, a questão que me assombra é pouco diferente da angústia que meu cliente experimentou.

Para salvar a alma do outro, vale a pena perder a própria?

Continuo esperando a última pergunta.

Túmulo de Richard Munslow, último devorador de pecados da área de Shropshire. O seu epitáfio é desagradável e revelador: “”I give easement and rest now to thee, dear man. Come not down the lanes or in our meadows. And for thy peace I pawn my own soul. Amen.”

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s