Os motivos (teóricos) da minha decepção com Péter Esterházy em “Os verbos auxiliares do coração”

Há algum tempo eu não escrevia nada mais teórico. Pelo menos nada publicável; mantenho meus escritos teóricos para consumo próprio. No entanto, devido à minha leitura de “Os verbos auxiliares do coração”, de Péter Esterházy, como parte do evento “Leituras do Séc. XXI”, senti necessidade de escrever as minhas considerações. Nem tanto em relação à palestra do professor Biagio D’Angelo – que foi muito acurada, inclusive ajudando a fundamentar o meu ponto de vista neste breve ensaio -, mas com o fato de eu ter me sentido logrado ao final da leitura.

Ao término da leitura de “Os verbos auxiliares do coração”, de Péter Esterházy, eu me senti incomodado. Foi difícil precisar o motivo. Em um primeiro momento, poderia ser a história, que trata da forma com que o autor/personagem/narrador lidou com a morte da sua mãe, em um acerto de contas amargo com o passado. Contudo, logo afastei esta possibilidade: a literatura de luto virou um rentável filão editorial e existem dezenas de livros explorando leitores com relação a tal sentimento, não causando mais o frisson que se esperaria de assunto tão polêmico (A este respeito aconselho a leitura do artigo da revista Época presente no link http://revistaepoca.globo.com/cultura/noticia/2011/09/literatura-de-luto.html). Em uma segunda análise, pensei que o desconforto poderia estar ligado ao fato do autor/personagem/narrador ter descrito as suas sensações após a morte da mãe em algo pretensamente biográfico (podemos confiar tanto assim no autor a ponto de saber que o escrito realmente ocorreu?). A figura da mãe é carregada de simbolismos, e pareceu-me confortável abordar um tema em que o leitor possui capacidade de identificação instantânea, pois todo mundo já perdeu algum ente querido e todo mundo tem mãe. Com estas variáveis na equação literária, torna-se difícil fazer um texto que não seja sucesso. No entanto, não foi isso que me deixou desconfortável, pois todos sabem que, desde a Ilíada e a Odisséia, na realidade só existem duas histórias em torno do qual a literatura circula nas mais diversas variações: a volta para casa e a batalha pelo auto-conhecimento. Por fim, após uma longa deliberação interna, consegui precisar o que me incomodou: a simbiose indecente e cômoda de autor/personagem/narrador, um dos traços da literatura contemporânea, em algo que considero uma vulgarização do voyeurismo, uma demonstração estéril de virtuosismo.

Seria um bom momento para citar Hannah Arendt e o seu conceito de “banalidade do mal”, que também se aplicaria no que pretendo escrever, pois Esterházy age dentro das regras da literatura de forma a banalizar os seus sentimentos e manobrar o leitor em busca de uma falsa epifania. Neste diapasão, considero o subtítulo “Uma introdução à Literatura” como a expressão mais irônica da sua real intenção, pois Literatura envolve sentimentos genuínos, ainda que o autor seja o primeiro mentiroso, pois, se transmite o que pensa com tal intenção, ele não é mais genuíno e nem é mais sentimento. Aqui não é o momento e nem o lugar correto para expor esta ideia. Prefiro me deter no traço do contemporâneo que detectei, gerando um afastamento dos meus sentimentos de leitor em relação ao livro.

Por muitos anos, a crítica literária debateu a figura do autor diante da sua obra: seria necessário ler um livro sabendo quem foi o autor ou as suas intenções na hora de escrevê-lo? Em alguns momentos, inclusive, chegou-se ao extremo de defender uma análise literária na qual o autor não teria mais nenhuma relevância, adotando somente a obra como paradigma de referência. Esta teoria foi chamada de “a morte do autor”, mas o assunto pertence ao campo da crítica literária. Sou um leitor, não um crítico. Destaco esta teoria somente para dizer que, hoje, ocorre o contrário do apregoado nela: parece-me que os livros contemporâneos só possuem validade quando lidos em conjunto com a vida do autor. A pulsão criativa tão louvada pelos críticos deslocou-se da epifania de um texto bem escrito para o quanto este texto está vinculado à vida do autor que o produziu. Quanto maior a identificação dos fatos narrados por ele com o seu texto, melhor seria a experiência de vida nele descrita. Os leitores estão se tornando voyeur das vidas dos autores, e confundem tal vinculação com excelência literária.

É uma tendência da literatura contemporânea, e vale a pena observar, pois a observação é o primeiro passo para a desconstruir um engodo ou reafirmar uma realidade. Para ficar somente em exemplos atuais, destaco dois livros em que isto aconteceu: “O filho eterno”, do Cristóvão Tezza, e o recente “A queda”, do Diogo Mainardi. São obras cuja análise não se detém no seu valor literário, mas em circunstâncias de vida enfrentadas pelos autores, abordadas “com coragem” (para usar um eufemismo tão amado pela crítica). São livros que necessitam de forma indelével da figura do autor para existirem e serem valorizados pelos leitores.

Todo leitor procura o autor dentro do seu texto, de forma consciente ou não. Impressiona na literatura atual que o status de autor tenha adquirido maior importância do que a própria história narrada, como se a tentativa de criar vida em um livro dependesse da aparição mágica do demiurgo na trama. Recordo aqui Foucault e a sua defesa do locus ocupado pelo autor em relação à história:

“(…). É sabido que, em um romance que se apresenta como o relato de um narrador, o pronome da primeira pessoa, o presente do indicativo, os signos da localização jamais remetem imediatamente ao escritor, nem ao momento em que ele escreve, nem ao próprio gesto de sua escrita; mas a um alter ego cuja distância em relação ao escritor pode ser maior ou menor e variar ao longo mesmo da obra. Seria igualmente falso buscar o autor tanto do lado do escritor real quanto do lado do locutor fictício; a função autor é efetuada na própria cisão – nessa divisão e nessa distância.” (“O que é o autor?”. In: FOUCAULT, Michel. Estética: literatura e pintura, música e cinema. Coleção Ditos e Escritos. V. III. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001. P. 264-298)

Na literatura contemporânea, a divisão entre narrativa e autor é cada vez mais desconsiderada. Em uma tentativa de criar vida na ficção, o próprio autor aparece na obra como autor/personagem/narrador, caso de Péter Esterházy. No entanto, não é a vida que um autor deve buscar, e sim a sua imitação. Se não existir um motivo específico ou ficcional para que o autor figure na narrativa, a sua presença se torna um fardo, além de demonstrar insegurança sobre a recepção, pois quem pode criticar “Os verbos auxiliares do coração” sem criticar o próprio autor que narra a sua gama de sentimentos díspares? A confusão de tragédia – no conceito aristotélico – com melodrama é visível, e a presença do autor só potencializa esta sensação de desconforto, de que criticar o livro é impossível sem criticar o autor que lhe deu origem. Pelo teor dos demais comentários e postagens feitas no blog do “Leituras do Séc. XXI”, o livro é elogiado mais pela pena que os leitores ficam em relação ao seu autor, e não pelo valor intrínseco da narrativa, cuja estrutura fria e cortante soa com o mesmo vazio estético de uma casa projetada por Le Corbusier.

Na primeira parte do livro, o autor/personagem/narrador se entrega a uma descrição detalhada dos sentimentos conflitivos que se sucederam pouco antes e pouco depois da morte da sua mãe. Na segunda parte, o autor se entrega a uma fantasia intertextual, em que trata da mãe como um misto de criatura verdadeira com ficção, tecendo longos comentários que demonstram a sua erudição e o manancial de obras que constituíram a narrativa, até terminar em um mistura bestial e excelsa de Édipo com Saturno. Poderia ter funcionado, se o autor/personagem/narrador não tivesse sacrificado a verossimilhança e o sentimento para demonstrar os seus livros de formação. O livro ficou no meio termo de um depoimento sentimental e um exercício de estilo, com a diferença de que não conseguiu virar nenhum dos dois, fracassando em ambas as tentativas.

Façamos uma auto-análise: nossos comentários sobre os livros se prendem à história narrada e a sua capacidade de atração ou estamos falando de como o autor articulou a sua experiência de vida dentro de um livro? São abundantes as análises de livros tentando vinculá-lo às vidas dos seus autores. Quando não conseguem isto, o desconforto é palpável, haja vista a quantidade de indagações e criações mirabolantes que perseguem a crítica quando a figura do autor de uma obra portentosa se desvanece sem deixar um campo seguro de análise, caso de Shakespeare. Aliás, como se torna difícil analisar uma obra literária sem a muleta confortante que é a vida do autor! Tudo soa tão explicável quando fazemos esta análise em conjunto – até mesmo a arte.

No caso de Esterházy, o desconforto é ainda maior, pois ele anuncia a sua intenção de nos comover pela escolha do assunto logo no prefácio. Quando afirma “Faz quase duas semanas que minha mãe morreu, tenho de me entregar ao trabalho antes que a necessidade demasiado ardente de escrever sobre ela recue para o mutismo covarde com que reagi à notícia da morte”, é quase impossível distinguir se a força motriz do impulso criativo é o desejo de compartilhar a angústia dos sentimentos com o leitor ou se é a vontade de aproveitar uma tragédia para escrever um livro. Nenhuma pessoa de sã consciência vai dizer que Esterházy escreveu “bobagem” quando pretendeu abordar a morte da própria mãe. O que incomoda é que o próprio escritor veja a intensidade do assunto e coloque uma estrutura literária visando compartilhar a sua intimidade com o leitor, que espia por entre a cortina, ansioso pela vulgaridade de uma exibição familiar. O meu desconforto se situa no fato de não considerar isto pulsão criativa, e sim no fato de que o escritor viu, na sua tragédia pessoal, a bela oportunidade de fazer literatura sobre um tema universal. E declare isto, não para angariar simpatia ou repulsa, mas como uma exibição narcisística. Podemos dizer que toda forma artística é uma extensão do narcisismo do seu criador, mas, ainda que respeite esta vontade de brincar com os leitores, receio que o escritor falhou naquilo que é mais importante: a verossimilhança.

Não estou dizendo que o livro seja mau escrito, longe disto. Inclusive penso que a história se constrói mais nos intervalos entre a narrativa e as notas de rodapé, que geram ondas de atrito e tensão, e isto é interessante. Contudo, resta evidente que o autor se refugiou na segurança de um desabafo, transformando suas sensações em uma obra literária, mas que, retirado o suporte do luto pela mãe, não se sustenta sozinho. Pouco se diferencia de um diário e – para situar em uma obra de alcance mundial – perde feio para a veracidade do “Diário de Anne Frank”. O autor deglutiu a emoção e, ao invés de transferir a dor supostamente sentida para o leitor, acabou criando uma falsa confissão ou admissão de culpa. Os leitores conseguem ver o autor e não afastam o livro da sua imagem, simpatizam com a dor não por causa da narrativa, e sim por causa da figura intrometida do próprio criador.

Tenho dúvidas se um livro pode se fundar exclusivamente na figura externa do autor. O importante deveria ser as ações internas, a fluidez da história, as mudanças e os sofrimentos experimentados pelos personagens. Quando o autor coloca o foco sobre si mesmo como parte constituinte da trama, ela acaba enfraquecendo, pois se torna uma imitação de pulsão literária. Ainda bem que a “Poética” de Aristóteles faz coro às minhas declarações, quando afirma:

“A mais importante dessas partes é a disposição das ações: a tragédia é imitação, não de pessoas, mas de uma ação, da vida, da felicidade, da desventura; a felicidade e a desventura estão na ação e a finalidade é uma ação, não uma qualidade. Segundo o caráter, as pessoas são tais ou tais, mas é segundo as ações que são felizes ou o contrário. Portanto, as personagens não agem para imitar os caracteres, mas adquirem os caracteres graças às ações. Assim, as ações e a fábula constituem a finalidade da tragédia e, em tudo, a finalidade é o que mais importa”. (ARISTÓTELES, HORÁCIO, LONGINO. A poética clássica. 7a ed. São Paulo: Cultrix, 1997, p. 25).

Sabendo que a emoção foi deglutida e assimilada antes de virar livro, tudo é feito para gerar uma falsa sensação de intimidade. As confissões inoportunas, os rompantes e desabafos, a fúria dos sentimentos, tudo soa falso. O autor pretexta uma pulsão irresistível para escrever. Utilizando a figura de um autor/personagem/narrador, é impossível não ser bem sucedido. Ele utiliza a curiosidade mórbida do público leitor com as suas reações para criar intimidade e, neste aspecto, o leitor é pouco diferente da pessoa que diminui a velocidade do carro para contemplar as vítimas fatais de um acidente de trânsito.

Na literatura contemporânea, é quase impossível dissociar a narrativa da figura do autor. Estamos regredindo na nossa análise: deixamos de ver a verdade de vida contida no texto literário e consideramos mais autêntico o texto que mais se aproxima da vivência do autor. Sabendo disto, o autor se refugia no comodismo de narrar, sob um verniz literário, uma história pessoal, seja de tristeza, separação, angústia, superação, vitória. É a vulgarização do voyeurismo; estamos virando voyeurs da vida de um autor.

Tal fato não deveria me decepcionar, pois é uma das cláusulas do longo contrato de ficção firmado entre autor e leitor. No entanto, em Péter Estérhazy, incomodou-me esta tentativa de brincar com os meus sentimentos, a vontade de usar a literatura não como catarse do sentimento, mas como exploração comercial dele, quase um deboche, uma demonstração de perícia técnica estéril e forçada. Quando vejo a história das suas outras narrativas, deparei-me com um comportamento reiterado: Esterházy escreveu “Harmonia Caelestis” dissecando a sua relação pessoal com o pai e “Uma mulher” foi escrito revelando os bastidores de uma relação amorosa. Não conheço toda a obra dele, e inclusive adquiri o “Uma mulher” para ter certeza desta impressão, mas o indicativo não parece ser muito bom. Ele só consegue escrever sobre aquilo que vivenciou. Não existe criação genuína ou pulsão original; existe a tentativa deliberada de dissecar um sentimento com falsidade e gerar uma leitura confortável. Aliás, quando o autor fala da própria vida em uma forma ficcional, isto é considerado ficção?

No texto anterior que fiz no blog “Leituras do Séc. XXI” (http://leiturasdosec21.blogspot.com.br/search/label/Gustavo%20Melo%20Czekster), reclamei da preferência absoluta da literatura contemporânea pelo narrador em primeira pessoa, que considerei preguiçoso e acomodado. “Os verbos auxiliares do coração” são a epítome desta declaração: o autor anuncia que vai expor as vísceras, mas, na realidade, só revela o seu penteado através de um espelho fosco, quase sem ocultar a vaidade, quase como se dissesse “minha mãe morreu e, olhem só, fiz literatura com isto!”. Talvez minha visão esteja defasada, mas ainda acho mais válida a ficção de um homem que descreve seus sentimentos sobre a morte da mãe sem que referido autor apareça para validar a sua experiência ou – mais relevante ainda – um autor capaz de descrever a morte da mãe sem truques estilísticos e estando com a própria mãe ainda viva, criando para o leitor uma imitação de vida tão forte que espanta pela força. De passagem, recordo da morte de Dora em “Capitães de Areia”, do Jorge Amado, de como ela ganha o status de mãe dos meninos de rua, gerando sentimentos em todos eles, e de como o seu fim acaba sendo uma experiência catártica para o leitor, sem que o próprio Jorge Amado apareça na trama para reforçar a aparência de vida da tragédia vivenciada.

Interrogo-me se esta tendência da literatura atual não seja um grande problema; interrogo-me se estou lendo a vaidade sublime de um autor que se pretende eternizar dentro de um livro ou se estou lendo a representação de vida dentro de um livro. Recordo aqui o sábio alerta de Elias Canetti sobre Sartre: “Sartre sempre se orgulhou e justificou com o fato de se expor. Mas é bastante importante não se expor. Deveríamos recuar e esperar até nos sentirmos arrebatados por dentro. Não deveríamos nos obrigar a dar respostas. Responder não é nada. Responder é falta de liberdade, e, por isso, equivocado.” (CANETTI, Elias. Sobre os escritores. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009, p. 171) Não sei se a figura onipresente do autor é uma necessidade da literatura contemporânea; para ser bem sincero, acho que o texto existe apesar do autor e, não raro, se constrói mesmo é no conflito com ele. O que sei, no momento, sem tirar os méritos de construção do livro, é que vi o jogo maléfico feito por Esterházy para me comover – e me decepcionei com isto.

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11 Comentários

Arquivado em Literatura, Literatura de luto, Narrador em primeira pessoa, Péter Esterházy, Temas de crítica literária

11 Respostas para “Os motivos (teóricos) da minha decepção com Péter Esterházy em “Os verbos auxiliares do coração”

  1. Caro Gustavo, levantaste uma questão relevante do ponto de vista da literatura contemporânea. Esse movimento de agregar “realidade” à ficção aprofundou-se com os romances ditos históricos (em que personagens reais da história foram introduzidos em narrativas ficcionais) e parece ter atingido o ápice nesta leva de relatos pessoais explícitos (uma espécie de autobiografia episódica).
    Para mim, há dois aspectos relevantes neste tema. Primeiro, na condição de leitor, trato todos os textos como ficcionais (inclusive as biografias, este território pantanoso eivado de lembranças e esquecimentos convenientes). Assim, pouco importa se os personagens são pretensamente reais ou assumidamente fictícios, se eles são autor/narrador/personagem (como, bem no fundo, todos são) ou a personificação de um tema que a obra quer tratar. E, a partir daí, entra o segundo aspecto: ao fim e ao cabo, só importa se o texto funciona do ponto de vista literário.
    Pelo visto,

    • Gustavo

      Kleber, eu também não acredito que um autor possa fazer uma boa obra de ficção apoiando-se somente na realidade que vivenciou. Parece-me algo oportunista e, não raro, acaba fragilizando a história. No caso do Esterházy, esta intenção é manifesta, ainda que ele tente disfarçar utilizando um complexo mecanismo formal que envolve intertextualidade e a adoção de outras obras literárias dentro do seu próprio texto, em algo que deveria soar como um jogo com o leitor.
      Eu acredito que o narrador em primeira pessoa nem sempre é a melhor escolha para este tipo de história em que o autor vivenciou, pois ele transmite desconfiança desde o início (podemos confiar no narrador?). Em alguns momentos do livro, imaginei como a história seria bem contada se o autor tivesse mantido um ponto de vista neutro, como se estivesse olhando as suas reações diante da morte da mãe. Neste aspecto, acho que o narrador em primeira pessoa – e o seu uso excessivo no contemporâneo – reflete uma covardia inaceitável: com medo de não ser “realista” o suficiente, o autor se coloca como personagem dentro da história, dizendo “eu vivi, eu sei como é, venha comigo, leitor!”. Além de covardia, passa uma certa prepotência: entrem na minha pele, senão vocês serão incapazes de imaginar. Não é a realidade que deve ser buscada, e sim a sua aparência, pois queremos menos realidade e mais verossimilhança. É uma regrinha de ouro que o Esterházy ignora: não queremos viver a realidade dele, e sim saber se a sua versão do mundo é válida. Isto talvez explique a minha decepção, pois fui ver um mágico me encantar e consegui divisar todos os recônditos e sombras onde seus truques se escondiam.
      Também penso assim – gosto de me afastar e tratar tudo como ficção, mesmo as biografias. Tudo é ficção, até mesmo a verdade. Ainda assim, me sinto um pouco decepcionado em saber que, na atualidade, um “bom autor” não é aquele que cria o mundo mais verossímil, e sim aquele que vivenciou a experiência e foi capaz de transferi-la para um livro. Precisamos tanto assim da figura do autor para lermos ficção? Sinceramente, parece-me uma grande deficiência imaginativa se precisamos ler um livro tendo o seu autor em mente ao invés de imaginarmos o protagonista da história.
      Aliás, vale lembrar que a nossa mídia tem este mesmo posicionamento de chacal: tenho acompanhado as perguntas que fazem para a autora deste “Cinquenta tons de cinza” e é habitual perguntar como é a vida sexual dela com o seu marido, quase como se a ficção precisasse reproduzir com exatidão a realidade. Já cansei de ler as respostas dela dizendo que uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas a interpretação da mídia vai para o outro extremo: então ela escreveu uma fantasia sobre aquilo que NÃO viveu. E, assim, parece-me que ninguém leu o livro e estão todos em uma curiosidade voyeurística sobre como é a vida privada do autor, desconsiderando os eventuais méritos da obra. Isto me deixa muito decepcionado, e tudo é culpa desta predileção insana pelo narrador em primeira pessoa.

  2. Mauro

    Não gostei do teu comentário.

    • Gustavo

      Engraçado, eu também não gostei do teu.

      (por favor, amigo… argumentos. Não é pedir muito, não é?)

      • Mauro

        A tua leitura foi muito errada. Tu debochou do sofrimento do Esterázi. Ele quis escrever a história da morte da mãe dele e tu debochando. Chorei muito quando li o livro porque lembrei da morte da minha mãe. Se tua mãe ainda esta viva, tu devia ter mais respeito pelas outras tu fala e não sabe o que é luto. Lixo de leitura

      • Caro Mauro, como eu já disse em outros momentos neste blog, não existe leitura “errada”, e muito menos “certa”. Existe leitura, somente isto. Como ato individual, somente quem lê sabe exatamente quais foram as sensações que teve. Se elas não fecharam com as tuas, bem, coloque na conta da individualidade humana. Assim como eu não te convencerei de que a minha leitura foi “melhor” ou “pior” do que a tua, também não irás me convencer de que a minha leitura foi “errada”.
        Em nenhum momento debochei da morte da mãe do Esterházy. Tal fato é irrelevante, pois sequer entrei neste assunto. O que eu discuti – e teoricamente – foi se a obra se sustentava sozinha, como foi a transmissão da história e se existiriam mecanismos narrativos mais interessantes. Como frisei no texto, a escolha do narrador de primeira pessoa e a intertextualidade exagerada e forçada foram determinantes para que, na minha ótica, a história não fluísse com a capacidade que dela se esperava. Mas pode ser que eu esteja errado, e pode ser que, involuntariamente, tenha “debochado” da morte da mãe do autor. No entanto, só o fato de teres visto isto como um ataque pessoal a um escritor ajuda a dar mais substrato para os problemas que apontei no artigo. E o fato de criares um vínculo forte com a história por causa de uma tragédia pessoal me faz refletir se a tua leitura não foi prejudicada justamente pelo teu envolvimento emocional. Talvez a tua leitura tenha sido guiada pela vontade de se comover lembrando o falecimento da senhora sua mãe, e não pela história em si. Neste caso, Esterházy demonstra um uso perverso da literatura, pois escreveu uma história visando justamente suscitar este tipo de leitura e de emoção e, assim, perdoar seu descaso com a narrativa. Mais ou menos como o ator que deseja ganhar um Oscar e começa a fazer papéis mais “comoventes” para ser indicado pela Academia de Cinema.
        Eu sei o que é luto. E sei quando uma história falha em demonstrá-lo. E, mais do que ninguém, sei como as emoções são traiçoeiras ao serem transferidas para o papel. Mas é a minha opinião como leitor, e acho pouco produtivo debater opiniões e sensações.
        Obrigado pela leitura, meu caro, e lembre-se: não existe lixo de leitura, lixo é não ler.

  3. Gustavo, eu gosto e desgosto do livro. Obviamente por razões diferentes rsrs
    Gosto do vocabulário, do ritmo, do olhar observador desse filho acidolizado (eis uma palavra, talvez, saída do forno) pela convivência com a família estranha a ele e por essa mãe a la primo Basílio que parece desejar antes a morte de um filho que a própria. E gosto dos trechos curtos, praticamente suspiros, praticamente angústias, diante das humilhações da morte. Para mim, faz muito sentido. Diante da morte, nos tornamos muito cínicos.
    E o que eu não gosto no livro é exatamente esse excesso de cinismo, de frieza, de sentido de experiência sobre a finitude, a dor e os seus efeitos.
    Em mim, criou um distanciamento enorme do sofrimento da perda
    materna.
    Comentei lá (você já tinha saído rsrs) que quando me deparei com o nome Beatriz Helena Viterbo, com a senhora Viterbo – um dos meus sobrenomes é Viterbo- dentro de um mundo húngaro, dentro de uma língua em que um nome desses deve soar como um palavrão vindo de Marte, perdi completamente a construção afetiva. Perguntei ao palestrante se esse nome havia sido traduzido para o húngaro, e ele disse que não.
    So, darling, in my humble opinion, essa mãe deixou de ser mãe e passou apenas a ser uma mulher. O autor deixou de falar da relação ventre/ vida e passou a falar de um gênero autorizado a gerar uma cria, o que, por si só, não traduz a maternidade no sentido mais profundo e incomensurável do que é ser mãe e o que é ser, também, um filho.

    Beijossssss

    • Gustavo

      Oi, Lelena, como sempre, a tua leitura é muito mais sensível do que a minha. Interessante como consegues ver a poesia que se esconde, em múltiplos corredores comunicantes como as pinturas de Escher, enquanto eu vejo a estrutura mais racional e seca da prosa em si.
      Eu reconheço a poesia que percorre as páginas de “Os verbos auxiliares do amor”, mas me pareceu que a onipresença do autor como personagem/narrador/autor mais atrapalhou do que ajudou a própria poesia de se manifestar. Por meio das suas escolhas narrativas, em certo momento da leitura eu comecei a desacreditar dele e, ato contínuo, até cheguei a odiá-lo, pois ele estava estragando a história. Tudo pareceu falso e forçado, inclusive a poesia do vocabulário e as descrições conflitivas dos seus sentimentos. Infelizmente, esta sensação de que eu estava sendo manobrado por um titereiro imperito estragou a minha fruição do livro.
      Concordo plenamente: diante da morte nos tornamos cínicos. Talvez uma das coisas que eu não perdoe em Esterházy é que ele tentou mascarar este cinismo através de uma estrutura que se pretendia “complexa”, mas acabou ficando no meio termo, pois ele se acovardou na hora de mostrar de forma clara seu próprio cinismo (ah, os perigos e as vaidades de se escrever coisas ruins sobre si próprio) e, como justificativa, se amparou em uma estrutura claudicante, pretensamente erudita, tudo isto para não ver a incômoda verdade no espelho ou para fugir dos sentimentos reais.
      Não questiono a validade da estrutura (quem sou eu para colocar em dúvida construções racionais, eu, justo eu, que as uso a torto e direito?). Questiono é a forma narrativa encontrada para expressar a pulsão criativa: o narrador em primeira pessoa deve ser usado para histórias em que o autor necessita desnudar o personagem, jamais para histórias em que o narrador se esconde, se afasta ou negaceia seus sentimentos. É tudo ou nada: se o Esterházy escolheu este narrador, ele devia ter despido todas as suas fraquezas e podridões para o leitor, e não se refugiar atrás de uma rede de outros escritores e livros. Da forma com que ele fez, contudo, a vaidade lhe impediu de mostrar as suas fraquezas. Alegar erudição e modernidade é a primeira arma do fraco.
      Esterházy tentou, mas não conseguiu nos enganar. Concordo completamente contigo quando afirmas que a frieza do narrador acabou criando uma sensação de distanciamento. Eu atribuo isto à escolha (cômoda) do narrador mais preguiçoso para contar a história. Ele acabou ficando no meio termo entre o desnudamento completo e a recusa do sentimento de perda, e foi nesta indecisão que a nossa leitura se perdeu, Lelena. Muito bem pensado. Consegues dizer melhor do que eu a minha sensação de leitura. Faltou definir quem o autor queria ser e como ele ia se posicionar dentro da história, algo incompatível com o narrador em primeira pessoa.
      O mesmo digo sobre esta incapacidade do autor de transmitir a sensação do que seria a maternidade. Muito legal que enxergaste isto. Sempre achei a parte da mãe de uma falsidade absoluta por causa do início do livro, mas, talvez, ela seja falsa por que o autor não teve coragem de mergulhar fundo no que é o sentimento materno, naquela parte mais puerpérea, quando uma mãe quer salvar, amar e até matar o filho. Ele não se entregou por completo à história e, por isto, foi incapaz de ser realista com a própria mãe. Volto a dizer: é traiçoeiro escrever na primeira pessoa sobre fatos da própria vida ou da vida de alguém amado pois, em um determinado momento, será inevitável machucar alguém ou ver detalhes não tão agradáveis da personalidade alheia. Não se faz uma omelete sem quebrar ovos. E esconder esta verdade universal (faltou coragem) atrás de uma estrutura dita “contemporânea” não nos enganou, como autores e leitores.
      Beijo, Lelena, adorei teu comentário. Explicou sensações que eu ainda não sabia como explicar.

  4. Flávia

    Acho que você deveria ler o livro de novo, pois entendeu tudo difernte. Esterházy narra a forma coim que lidou com a morte da sua mãe, criando uma fantasia em que ela vira um personagem misto real e misto borgeano. Ele não tem obrigação de ser real, pois é uma narrativa ficcional. Acho que a mãe dele nem morreu, ele criou a história como uma forma de expiar as suas culpas dos sentimentos que nutria em relação a mãe. Você foi muito cruel na sua leitura, quis destreuir o livro e só isso, nem tentou ser construtivo. Odeio crítica assim. Abraço

    • Flávia, se ter um posicionamento definido e não-incensador de um livro é considerado uma “crítica ruim”, lamento muito que sejas o tipo de leitora que espera “críticas” que somente referendam o livro (“chapa branca”), sem nenhum tipo de reflexão mais aprofundada. Não se preocupe: é comum as pessoas confundirem posicionamento franco com crítica destrutiva. Vivemos em um mundo onde ninguém fala o que pensa, com medo de se “queimar”. Eu escrevi o que pensei da minha leitura, e lamento muito que não tenha encontrado eco nas tuas expectativas.
      Não existe esta opção de eu ter “entendido diferente” o livro. Eu entendi deste jeito, e ponto final. Goste ou não, foi a leitura que eu fiz.
      Concordo que Esterházy não tem obrigação nenhuma em ser “realista”. No momento em que ele escreveu uma obra de ficção, esta possibilidade deixou de existir. Quanto ao fato de alegares que esta foi a forma que ele usou para lidar com o seu luto pela mãe, criando um personagem dúplice, bem, na minha opinião, esta tentativa dele acabou ficando no meio termo e demonstrando falta de coragem. Ele deveria ter cedido aos seus sentimentos reais, e não criar uma elucubração sobre eles. Acabou estragando a verossimilhança do próprio livro. Outra alternativa era ele embarcar na fantasia e criar este simulacro borgeano/intertextual de forma mais coerente. De novo, faltou coragem para tomar esta decisão (ou será que ele iria escapar da zona de conforto proporcionada pela morte da sua mãe? Seria como o paralégico que volta a andar e hesita em dispensar a cadeira de rodas – sabendo que assim perderá o benefício previdenciário que recebe).
      Tu levantas uma hipótese interessante, de que, talvez, a mãe de Esterházy não tenha sequer morrido. Esta análise muda muita coisa e, admito, a onipresença excessiva do autor pode ter influenciado na minha percepção. No entanto, acaso esta tenha sido a sua intenção, ainda assim a história foi ineficaz pois ela não ficou clara e, ainda assim, o narrador não foi apropriado para tal tipo de desiderato. Admito que é uma possibilidade, e prometo refletir.
      Literatura como uma forma de expiar culpas ou sentimentos não é literatura, é desabafo. Claro que um desabafo também pode virar uma boa história, mas desde que suplante a “choradeira” e se encaixe nos requisitos de uma boa narrativa, em especial a verossimilhança e a verdade interna. Com todo o respeito ao Esterházy, não o conheço e pouco me importam os sentimentos e culpas que ele necessita expiar. O que realmente me importa é como isto foi transmitido para o livro – e se ele atingiu o objetivo de me proprocionar catarse ou não. Só isso é relevante. O autor não me interessa em nada.
      Obrigado pela leitura

  5. Pingback: Os verbos auxiliares do coração. | Enquanto a chuva cai

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