Xadrez, possibilidades e mortes infinitas

Do outro lado da monótona planície, olhos vazios me contemplam. Eu sou o alvo. Todos ambicionam me acuar em um canto, deixar-me sem movimentos, sem ar, até que o toque frio me alcance e a queda seja inevitável. À direita, a rainha com a sua roupa branca sussurra que ninguém vai se aproximar, que ela vai agredir o inimigo – posso confiar? No outro lado do trono, o bispo reza e diz que correrá de um lado para o outro da planície procurando os auspícios dos seus deuses. Nos flancos, os cavalos se agitam, irrequietos, ansiosos para atravessar as barreiras inimigas e escrever seu nome com glória no campo de batalha. Ainda distantes, as torres prometem segurança, solidez, a última linha de defesa e de sacrifício.

As minhas forças são iguais às do inimigo. Ainda assim, sinto-me desprotegido. Será que o meu antípoda tem a mesma sensação? Nós somos o alvo e, no momento, só podemos confiar nos nossos desconfiáveis exércitos.

A batalha não depende de nós. Depende dos outros.

Do outro lado da planície, o exército de sombras espera o momento de atacar. O campo ainda está puro; logo, estará coberto por cadáveres invisíveis. Foto tirada do site http://www.deviantart.com

A batalha começa. Corpos caem de ambos os lados. Por momentos, sinto que estamos ganhando. Em outros, o desespero se apossa da planície enquanto a derrota parece cada vez mais próxima, com dentes podres que insistem em se prender nos meus calcanhares.

Tudo chega ao fim, inclusive eu. Os mesmos que me iludiram com promessas de vitória caem tentando estabelecer uma última linha de defesa. O inimigo – a minha sombra distorcida – dança ao redor, ceifando o exército como se fossem um milharal esperando o momento da colheita.

Desde o início, eu sabia que isto podia acontecer. Terei dignidade antes do fim? Assim espero. Quando resta somente um soldado a me defender, um tolo que insiste em negar o óbvio, não sei se devo rir ou honrar o seu esforço inútil em uma última batalha, esquivando-me, fugindo dos inimigos para forçar um resultado honrado. Protelar o inevitável também é dar chance para que algo aconteça.

É duro perceber: não perdi a luta para o outro. Perdi para mim mesmo. A falta de concentração, o descuido, a incapacidade de raciocinar – todos os motivos escondem um único culpado pela derrota.

 

No final, sempre resta um – e a fútil esperança de salvamento representada pela obstinação de somente um último e insensato amigo. Foto tirada do site http://www.deviantart.com

A batalha termina. Até a próxima distribuição de tropas sobre o tabuleiro, permanecerei na tumba com meus guerreiros, fantasmas silenciosos dormitando com os inimigos e suas zombarias, todos irmanados no fundo da mesma caixa.

Talvez a gente discuta táticas; contudo, o mais provável é que façamos promessas vãs de vitória e glória no futuro. Pois a vida é um jogo, a existência é uma luta e, no final, tudo o que realmente importa é destruir o outro.

* Aos leitores mais atentos: esta é a centésima postagem no blog. Vamos comemorar. Para os que ainda acham que escrevi o livro sem querer, ofereço como presente uma nova chave de leitura para o conto “O homem despedaçado”, desta vez sob a ótica do xadrez, que testemunhou eventos e não pôde depor sobre aquilo que viu. Quem disse mesmo que ele era somente um símbolo? O narrador. E quem disse que devemos confiar no narrador? O autor. Perigoso confiar em criatura tão instável.

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2 Comentários

Arquivado em Crônicas, Literatura, O Homem Despedaçado, Produção Literária, Xadrez

2 Respostas para “Xadrez, possibilidades e mortes infinitas

  1. Melhor que comemorar 100 textos, é comemorar 100 ótimos textos. Parabéns!

    • Gustavo

      Obrigado, Angela! Quando iniciei, pensava que só tinha material para 10 ou 20 postagens. Surpreendnete chegar a 100 postagens. E está sendo um bom local para colocar o meu material excedente… em especial pela possibilidade de interagir com as tuas leituras, sempre acuradas e precisas. Só a tua leitura já valeu todo o trabalho, valeu todo o blog. 🙂

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