Quando a língua some

Semana passada, uma língua morreu.

Parece um pouco inconsequente falar da morte de uma língua quando, no mundo, centenas de milhares de pessoas morrem pelos mais diferentes motivos, desde a guerra na Síria até incidentes no cotidiano, ou pensar no assunto enquanto, no Brasil, a nossa Corte dita suprema julga os mensaleiros e a eleição municipal ferve em todos os recantos, ou refletir sobre o repentino silêncio dessa língua ao mesmo tempo em que, em Porto Alegre, as pessoas parecem ter enlouquecido de fúria e resolveram queimar símbolos de companhias estrangeiras e outros objetos, em uma guerra de versões com a polícia em que ninguém mais (nem os declarantes) sabem quem está falando a verdade.

Às vezes, tudo o que resta é inconsequência.

Muito ruído. Muita gente tentando me convencer sobre aquilo que devo pensar. Muitas mensagens secretas tentando entrar ao mesmo tempo na minha cabeça. Muitas manobras diversionistas, muito barulho. Quase não consigo mais ver o que é importante.

Na minha escala de valores, a morte de uma língua é praticamente o genocídio. Mais do que matar pessoas, extermina-se todo um sistema político, cultural, econômico; extermina-se o passado e o futuro. A arte morre, assim como os sonhos e esperanças de pessoas que também são apagadas como se nunca tivessem existido. Morrendo uma língua, morre parte do mundo.

Bobby Hoog, de 92 anos, era a última pessoa fluente em Cromarty, um dialeto falado por pescadores vindos da Noruega ou da Holanda, que apareceu na Escócia em meados do século XV. Ao falecer na semana passada, levou consigo para a tumba uma língua inteira.

Dá para ver a língua Cromarty aprisionada dentro deste corpo humano.

(Leio que o irmão dele, de 86 anos, era o penúltimo falante do Cromarty, tendo falecido no ano passado. Imagino a língua encolhida dentro do peito de Bobby Hoog, sem poder sair e brincar com as palavras irmãs, esperando com pavor o fim chegar ou um deus ex-machina que nunca irá aparecer, queimando em silêncio na sua inutilidade enquanto lembra de todas as vezes em que foi utilizada, dos cantos, das alegrias, das tristezas que somente ela conhecia, das pequenas misérias, das irrelevâncias, “Vai fazer pão, querida”, “será que chove?”, dos rituais, das juras de amor e ódio, das poesias, ah, as poesias mortas!, dos discursos de guerra, das palavras de estímulo ou de destruição. Assim que os olhos de Bobby Hoog fecharem, a língua morrerá com ele, e não há nada que pode ser feito).

Esta língua é um pouco mais sortuda do que as outras já falecidas. Ainda em vida, os cientistas construíram um adequado mausoléu. Gravaram a sua utilização e alguns termos, pretendendo preservá-la da morte. É um esforço válido, mas inútil. Não será mais a língua que está ali, e sim um arremedo frio, insensível. Um objeto de curiosidade. Uma lápide.

Dentro da alma do último homem, a língua espera a morte.

Talvez a língua tenha sentido alívio ao morrer. Há um tempo de plantar e um tempo de colher, já disse o velho Eclesiastes. Talvez ela estivesse cansada. Talvez tudo o desejasse era esquecer e ser esquecida. Sepultar a si própria e todas as pessoas, apagar qualquer vestígio da sua existência no mundo. Quantos anos uma língua leva para nascer e se formar? Incontáveis gerações. E, assim como ela começa, basta uma única pessoa para lhe matar. Ironia das ironias: a língua nasce através de uma pessoa ansiosa para se comunicar e morre em silêncio no peito de um velho. Não é assim com todos nós?

Leio que, no México, existe a crença de que cada pessoa morre três vezes. A primeira é no momento em que suas funções vitais cessam. A segunda, quando o corpo é colocado na tumba. A terceira – e definitiva – acontece, em algum instante, no futuro incerto, no qual o nome do falecido é pronunciado pela última vez.  Quando uma língua morre, você tem a certeza absoluta de que acabou de verdade e que nem mesmo Deus será capaz de chamá-lo em um fortuito Juízo Final, pois você não possui mais sequer um nome.

Quando o Cromarty morreu, levou para o esquecimento uma quantidade indecente de pessoas. Ninguém saberá o nome do primeiro esquecido, aquele que iniciou a junção de sons com significados que levaria à língua, mas todos saberão quem foi o último.

E pensar que usamos as palavras com tanta irresponsabilidade. Vendo políticos, ministros, jornalistas, brigadianos, jovens, ditadores e rebeldes testando a paciência da língua ao máximo, usando todas as versões possíveis para me convencer de que a mentira é só uma faceta da realidade, penso no alívio do Cromarty ao sair de cena e deixar este mundo louco com as suas línguas distorcidas e violentadas.

Semana passada, uma língua morreu. E ninguém deu atenção, pois existiam coisas mais importantes com o que se preocupar.

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Arquivado em Cromarty, Impressões, Língua, Produção Literária

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