Destino, a luta inútil

Observem o rosto do Destino; observem a sua indiferença. O olhar fixo no nada. A inexorabilidade do percurso, sempre em frente, em avanço. Nada pode detê-lo.

Destino não contempla possibilidades, caminhos alternativos, sonhos. Sabe da inutilidade de ir contra a maré. Avançar é preciso, e os outros devem se ajustar à sua caminhada.

Das Schicksal (O Destino), 1905, por Hugo Lederer, Cemitério Ohlsdorf, Alemanha

Seguros pelas mãos do Destino, homem e mulher são arrastados. Sofrem? Não, pois esta é uma estátua repleta de amor. Lição da pedra: não se deve lutar contra a força do inevitável. Ao invés de caminharem lado a lado com o seu algoz, o casal pretende negar a realidade, provocar coincidências, questionar acasos. Se não cederem, podem passar a vida inteira sendo arrastados. Destino é paciente. E caprichoso: não irá desistir. Nunca. Ele sequer olha para baixo, para quem seus braços fortes carregam. Os sentimentos do casal não importam; somente a jornada vale a pena.

A mulher arrastada não tem mais forças para resistir; resigna-se, enfim subjugada. O homem ainda luta, e o seu esforço é comovente: a mão segura o pé do Destino, desespero tão patético quanto inútil. É o último esgar do condenado.

No fundo, árvores eternas espreitam a batalha. Tímido, o musgo conspurca a pedra – o Destino pode ser inexorável, mas o Tempo é ainda mais paciente.

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4 Comentários

Arquivado em Crônicas, Destino, Escultura, Generalidades, Hugo Lederer, Impressões, Produção Literária

4 Respostas para “Destino, a luta inútil

  1. Helena

    Impressionante!!

  2. Tudo a ver com o último livro que li: O estrangeiro do Camus. Essa coisa de destino deixa a gente muito pessimista, pois se tudo está escrito, o que adianta lutar? Nada importa. Prefiro acreditar no livre arbítrio e que ele muda, se não o destino, o caminho a percorrer. Abraço.

    • Tudo a ver mesmo com O Estrangeiro, do Camus. Também acredito que o Destino tem o seu próprio e misterioso caminho a percorrer, mas nada impede que o livre arbítrio pavimente algumas alamedas, faça canteiros mais aprazíveis, crie uma jornada mais interessante para ajudar o Destino a escolhê-lo. Talvez o livre arbítrio seja o que faça as escolhas do Destino não serem tão dolorosas e a jornada mais palatável. Abraço, Angela, é sempre bom ler teus comentários. 🙂

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