Sonho com aranhas

Esta noite sonhei com aranhas, e elas entravam pelo meu nariz, pela boca, corriam por entre os cabelos, beliscavam as orelhas, arranhavam os olhos.

Não tenho problemas com aranhas. Nem medo, nem receio, nem nada. Inclusive admiro a construção estrutural das suas teias, ainda que me intrigue – e ninguém conseguirá encontrar uma explicação capaz de me convencer – o local de onde sai a teia, existirá um novelo eterno dentro de corpos tão pequenos?

Mas eu sei por que estava pensando em aranhas. O culpado, para variar, é um livro, recentemente lançado nos Estados Unidos, chamado “This book is full of spiders”, de David Wong.

Vi o trailer dele na semana passada. Gosto desta mania americana de fazer trailers de livros com cuidado quase cinematográfico. No caso, o trailer não me chamou tanta atenção quanto o assunto do livro: a possibilidade de que parasitas invadam o corpo humano e passem a ditar as suas atitudes e pensamentos. Pode estar acontecendo agora, com você, comigo. Este é o vídeo:

Algumas considerações expostas no livro são assustadoras em muitos aspectos. Por exemplo, existe um parasita no formato de inseto que entra no corpo de um outro animal, come a sua língua e, então, substitui a língua com o próprio corpo. A criatura parasitada continua comendo e vivendo normalmente, sem saber que a língua foi substituída por outra criatura viva. Querem fotos? Vamos a elas:

O parasita instalado na boca do peixe.

Outro detalhe inquietante: existe um parasita microscópico que é responsável por metade das mortes da Humanidade desde a Idade da Pedra, descontadas as guerras e as mortes acidentais. Mais algum detalhe que devemos saber? Bem, existe um parasita cerebral que mora em mamíferos e altera de forma discreta o seu comportamento. Mais de 3 bilhões de pessoas carregam este parasita, o taxoplasma gondii, transmitido preferencialmente pelos gatos.

Não sei o conteúdo exato do livro (será lançado de forma oficial dia 02/10/2012), mas pretendo adquiri-lo. Ao que tudo indica, ele trata de um parasita no formato de aranha que, no meio do sono, invade o nosso corpo, se instala sob a língua e começa a controlar o pensamento e as vontades do hospedeiro. Seríamos controlados por este ser, e a foto que segue foi a que se cravou na minha mente e acabou se transferindo para o sonho:

Um dos mais detestáveis hábitos que as pessoas possuem é nunca assumir a sua responsabilidade, culpar os outros por aquilo que fazem. E culpar um parasita por palavras impensadas, por besteiras feitas, por eventos inoportunos é levar esta habilidade a um novo patamar de abstração.

Preocupa um pouco a ideia de que parasitas possam viver dentro do meu corpo dentro deste exato instante. O que eu falo ou penso, será eu mesmo?  Certas perguntas é melhor deixar sem resposta. Por precaução, acaso não seja eu falando agora e sim o parasita, gostaria de deixar claro que acho ele muito interessante. Estou falando do parasita, não do Gustavo. Pensando melhor, não sei mais quem está falando agora, mas isto não importa.

O sonho com aranhas e a lembrança das fotos de divulgação deste livro me trouxeram à recordação o conto de Horacio Quiroga, “O travesseiro de plumas”. Geralmente este conto é lido como uma forma de vampirismo psíquico do marido em relação à sua esposa. Ainda assim, existe um elemento de forte horror no ser que mora dentro do travesseiro e se alimenta da seiva da vida feminina. Segue o conto, é curto e passa a sensação ideal para as fotos antes exibidas:

O travesseiro de plumas

Sua lua-de-mel foi um longo estremecimento. Loura, angelical e tímida, o temperamento duro do marido gelou suas sonhadas criancices de noiva. Ela o amava muito, no entanto, às vezes, sentia um ligeiro estremecimento quando, voltando à noite juntos pela rua, olhava furtivamente para a alta estatura de Jordão, mudo havia mais de uma hora. Ele, por sua vez, a amava profundamente, sem demonstrá-lo.

Durante três meses — tinham casado no mês de abril — viveram numa felicidade especial.

Sem dúvida ela teria desejado menos severidade nesse rígido céu de amor, mais expansiva e incauta ternura; mas a impassível expressão do seu marido a reprimia sempre.

A casa em que viviam influenciava um pouco nos seus estremecimentos. A brancura do pátio silencioso — frisos, colunas e estátuas de mármore — produzia uma outonal impressão de palácio encantado. Por dentro, o brilho glacial do estuque, sem o mais leve arranhão nas altas paredes, acentuava aquela sensação de frio desagradável. Ao atravessar um quarto para outro, os passos encontravam eco na casa toda, como se um longo abandono tivesse sensibilizado sua ressonância.

Nesse estranho ninho de amor, Alicia passou todo o outono. Porém tinha terminado por abaixar um véu sobre os seus antigos sonhos, e ainda vivia dormida na casa hostil, sem querer pensar em nada até o marido chegar.

Não é incomum que emagrecesse. Teve um ligeiro ataque de gripe que se arrastou insidiosamente dias e mais dias; Alicia não melhorava nunca. Por fim uma tarde pôde sair ao jardim apoiada no braço dele. Olhava indiferente para um e outro lado. De repente Jordão, com profunda ternura, passou a mão pela sua cabeça, e Alicia em seguida se quebrou em soluços, e o abraçou. Chorou demoradamente seu discreto pavor, redobrando o choro diante da menor tentativa de carícia. Depois, os soluços foram-se acalmando, e ainda ficou um longo tempo escondido no seu ombro, quietinha, sem pronunciar uma palavra.

Foi o último dia que Alicia esteve de pé. No dia seguinte amanheceu desacordada. O médico de Jordão a examinou com toda a atenção, recomendando muita calma e repouso absolutos.

— Não sei — disse para Jordão na porta da casa, em voz ainda baixa. — Tem uma grande debilidade que não consigo explicar, e sem vômitos, nada… Se amanhã ela acordar igual a hoje, você me chama depressa.

No dia seguinte ela piorou. Houve consulta. Constatou-se uma anemia agudíssima, completamente inexplicável. Alicia não teve mais desmaios, mas ia visivelmente andando para a morte. Durante o dia todo, o quarto estava com as luzes acesas e em total silêncio. As horas se passavam sem se ouvir o mínimo barulho. Alicia dormitava. Jordão vivia quase que definitivamente na sala, também com as luzes acesas. Andava sem cessar de um extremo para outro, com incansável obstinação. O tapete abafava seus passos. Algumas vezes entrava no quarto e continuava seu mudo vaivém ao longo da cama, olhando para sua mulher cada vez que caminhava na sua direção.

Não demorou muito para Alicia passar a sofrer alucinações, confusas e flutuantes no início, e que desceram depois até o chão. A jovem, de olhos desmesuradamente abertos, não fazia senão olhar para os tapetes que se encontravam a cada lado da cama. Uma noite ela ficou repentinamente com o olhar fixo. Em seguida abriu a boca tentando gritar, e suas narinas e lábios se molharam de suor.

— Jordão! Jordão! — gritou, rígida de espanto, sem parar de olhar o tapete.

Jordão correu para o quarto, e, ao vê-lo aparecer, Alicia deu um brado de horror.

— Sou eu, Alicia, sou eu!

Alicia olhou para ele com olhar extraviado, olhou para o tapete, voltou a olhar para ele, e depois de um longo momento de estupefata confrontação, serenou. Sorriu e pegou entre as suas as mãos do marido, fazendo carícias e tremendo.

Entre suas alucinações mais obstinadas, houve um antropóide, apoiado no tapete sobre os próprios dedos, que mantinha os olhos fixos nela.

Os médicos voltaram inutilmente. Havia ali, diante deles, uma vida que se acabava, dessangrando-se dia após dia, hora após hora, sem se saber absolutamente por quê. Na última consulta, Alicia jazia em estupor, enquanto eles a pulseavam, passando de um para outro o pulso inerte. Observaram-na um longo momento em silêncio e encaminharam-se para a sala.

— Pst… — Deu de ombros, desanimado, seu médico. — É um caso sério… pouco se pode fazer…

— Era só o que me faltava! — gritou Jordão. E tamborilou bruscamente sobre a mesa.

Alicia foi-se extinguindo no seu delírio de anemia, que se fazia mais grave pe!a tarde, mas que cedia sempre nas primeiras horas da manhã. Durante o dia, sua doença não avançava, mas de manhã ela amanhecia lívida, quase em síncope. Parecia que unicamente à noite a sua vida se fosse em novas asas de sangue. Tinha sempre ao acordar a sensação de sentir-se derrubada na cama com um milhão de quilos por cima. A partir do terceiro dia esse desmoronamento não a abandonou mais. Apenas podia mexer a cabeça. Não deixou que pegassem na sua cama, nem sequer que arrumassem a almofada. Seus terrores crepusculares avançaram na forma de monstros que se arrastavam até sua cama e subiam com dificuldade pela colcha.

Perdeu depois o conhecimento. Nos dias finais, delirou sem cessar a meia-voz. As luzes continuavam fúnebres e acesas no quarto e na sala. No silêncio agônico da casa, não se ouvia mais que o delírio monótono que saía da cama, e o rumor abafado dos eternos passos de Jordão.

Alicia morreu, por fim. A empregada, que entrou depois para desfazer a cama, já vazia, olhou um momento com estranheza para a almofada.

— Senhor! — chamou ao Jordão em voz baixa. — Na almofada há manchas que parecem ser de sangue.

Jordão se aproximou rapidamente. Também se agachou. Efetivamente, sobre a fronha, de ambos os lados da cavidade que tinha deixado a cabeça de Alicia, se viam algumas manchinhas escuras.

— Parecem picadas — murmurou a empregada depois de um momento imóvel na observação.

— Aproxime-o da luz – disse Jordão.

A moça levantou a almofada, mas em seguida deixou-a cair, e ficou olhando para ele, lívida e trêmula. Sem saber por quê, Jordão percebeu que seus cabelos se eriçavam.

— O que é que há? — murmurou com voz rouca.

— Pesa muito — falou a empregada, sem parar de tremer.

Jordão levantou a almofada; pesava extraordinariamente. Saíram com ela, e sobre a mesa da sala Jordão cortou a fronha e a capa. As penas superiores voaram, e a empregada deu um grito de horror com a boca inteiramente aberta, levando as mãos crispadas às bandós. Sobre o fundo, entre as penas, mexendo devagar os pés aveludados, havia um animal monstruoso, uma bola viva e viscosa. Estava tão inchada que quase não se lhe via a boca.

Noite após noite, a partir do dia em que Alicia tinha ficado doente, ele tinha aplicado sigilosamente sua boca — sua tromba, melhor dizendo — às têmporas da mulher, chupando-lhe o sangue. A mordida era quase imperceptível. A remoção diária da almofada tinha impedido sem dúvida seu desenvolvimento, mas assim que a jovem não conseguiu mais se mexer, a sucção foi vertiginosa. Em apenas cinco dias e cinco noites, tinha esvaziado Alicia.

Esses parasitas das aves, diminutas no seu meio habitual, chegam a adquirir proporções enormes em certas condições. O sangue humano parece ser para eles particularmente favorável, e não é raro encontrá-los nas almofadas de penas.

Muito Edgar Alan Poe este conto. Nem tanto pela análise da relação do casal, mas pelo clima de mistério e horror que se cria através de uma vida que esvai sem nenhum motivo. Muitas possibilidades de interpretação surgem neste conto; o corte no seu final, com o acréscimo de um elemento quase científico, não corta a fluidez da narrativa e acaba emprestando verossimilhança para a história. No entanto, gosto de pensar que o animal insidioso escondido no travesseiro e drenando a vitalidade uma pessoa é a representação do Tempo, este senhor vetusto que nos mata e exaure um pouco a cada dia, em milimétricas gotas de veneno.

Talvez sejamos “almofada de alfinetes” de microorganismos, bactérias e parasitas. Talvez sejamos controlados por eles, mas estar no comando do próprio corpo é tão importante assim? É de se presumir que os parasitas cuidem bem dos hospedeiros, eles não fariam nenhuma loucura… a não ser que achem um parasitado melhor.

Ainda assim, mesmo com toda a racionalização, uma sensação de incômodo continua a me perturbar.

Tenho a impressão que não sonhei com as aranhas, e sim que elas sonharam comigo.

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2 Comentários

Arquivado em Aranhas, David Wong, Generalidades, Horacio Quiroga, Literatura, Morte, O travesseiro de plumas, Parasitas, Sonhos

2 Respostas para “Sonho com aranhas

  1. Acho que nem vou olhar o vídeo. Não quero sonhar com aranhas. Sou muito impressionável!

    • Eu também sou muito impressionável. Mas a curiosidade é maior ainda, pois assisti o vídeo, à noite, sabendo que ia ter consequências. E ele se transferiu para o meu sonho. 🙂

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