Antônio Prado, RS

No feriado do 20 de Setembro, fomos passear em Caxias e acabamos estendendo a viagem até Antônio Prado, cidade cujo casario original dos imigrantes italianos foi declarado patrimônio nacional.

Um dos objetivos deste blog era falar de viagens e das coisas estranhas que se vê por aí. Tudo sempre é uma questão do olhar, ficcionalizar algo é ter uma visão alternativa. Não sou um fotógrafo, longe disto; tento registrar aquilo que vi e que, de alguma forma, me tocou.

Começo com uma paisagem da estrada.  Tinhamos parado para almoçar em um restaurante de comida típica italiana, o Nostra Cantina, que fica na beira da estrada, quase chegando em Antônio Prado. Não sei o que chamou minha atenção. A foto não registra o inusitado silêncio, nem o cheiro de verde que nos sobrevoava. Talvez a imobilidade do local me consternou. No entanto, também existe a possibilidade – quase insana – de que eu tenha escutado as hamadríades gritando de dentro daqueles caules. Sinto que registrei a foto para me lembrar que tudo ali convidava ao descanso e que, talvez, as estátuas sejam formadas assim: um local silencioso, o tempo parado, você senta e a pedra toma conta, devagar, devagar… muito devagar.

Na praça central de Antônio Prado, a complexa arquitetura das flores dá sustentáculo a uma casa em miniatura. Existe alguma coisa estranha nas cores destas flores, sinto que elas não aleatórias, sinto que existe uma linguagem invisível ali, traçando letras impossíveis. Também tenho a impressão de que tudo (a casa, a roda, a janela, os lambrequins) obedece a uma ordem traçada em tempos imemoriais e que não existe nada por acaso ali, naquela praça. As pessoas podem se encantar com a harmonia intrínseca do conjunto, mas, por trás deste encanto, existe um travo quase imperceptível de receio, a sensação de que estar tudo em ordem também é uma forma de desordem.

Gosto de pessoas que homenageiam o seu ganha pão. Fiquei pensando se o agente funerário colocou um crânio na frente da funerária. A casa é antiga, maldosa, e eu imagino o receio dos outros animais ao passarem por perto daquele local que exibe, como um orgulhoso troféu de guerra, o fato de ser uma casa dedicada à morte. Observei que os cachorros não se atrevem a latir perto da casa, assim como os passarinhos realizavam contorcionismos aéreos para continuarem na ilusão de que a morte não existe.

A pintura é antiga e mal feita, mas gostei do detalhe precioso do pescoço que emerge da parede. Parece tão natural que, por segundos, olho a parede pensando ver o corpo que se esconde por trás. Os olhos vazios estão cheios de morte. Da boca, escorre baba negra. Quando estão nos cercados e compartilham histórias da Morte que ronda ao redor dos humanos, as vacas devem descrever o fim desta forma: uma vaca pálida, orelhas negras, boca sombria, olhos sem esperança.

O dia é azul, mas a igreja branca não se importa. Ela desafia o céu da mesma forma que afronta as nuvens de tempestade, que ri da neblina, que se projeta do meio das árvores em uma espécie de louvor que nada mais faz do que esconder o desafio, estou aqui e não temo nada. No campanário da igreja, a cruz, os santos e o relógio sintetizam a experiência humana: sofrimento, fé e tempo. Embaixo, na rua, cinzas ajuntadas passeiam, queimando-se no sol, enquanto a igreja zomba com o peso das suas verdades.

Quando retirei esta foto, podia jurar que a igreja estava se desfazendo, virando uma nuvem. Seria uma boa explicação. Contudo, vendo a luz que se reflete no carro, pensei em raios invisíveis e silenciosos atacando o campanário da igreja, e pensei em todas as coisas que não vemos e que estão por aí, como o ar, como o silêncio, como a consciência. Eu posso ter captado o inefável e, neste caso, o fraco raio destruiu a estrutura da nuvem, que tentou um ataque tão desesperado quanto inútil.

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Arquivado em Antônio Prado, Impressões, Produção Literária

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