Evento: “FestiPoa Literária revisada e sampleada”, em 25/09/2012

Iniciar um texto pedindo desculpas antecipadas nunca é uma atitude prudente: ou o autor desqualifica o próprio texto logo no início, quando ele ainda está engatinhando, ou cria a expectativa de que declarações muito sérias serão realizadas, tão graves que necessitam de justificativas prévias ou de uma piscada de olhos do tipo “foi mal aí, pessoal”.

Em todo caso, mandarei a prudência às favas e, sim, peço desculpas antecipadas, pois falarei de autores que respeito, de obras que gosto e de pessoas cuja amizade muito me honra. Pode-se dizer que o viés crítico está prejudicado, que a dita “parcialidade” está rompida ou outras considerações que visam diminuir o alcance do texto ou minimizar seus efeitos, mas esta é a justificativa dos fracos, pois falarei aquilo que penso – e quem não estiver satisfeito que apresente o contraponto, há espaço para isto. Feita a ressalva, vamos ao que interessa.

Hoje, fui na Palavraria assistir a um evento chamado “FestiPoa Literária revisada e sampleada”, um bate papo entre o Juarez Guedes Cruz e a Leila de Souza Teixeira, com mediação da Lu Thomé, com o tema geral “Conto: espelhamentos e impossibilidades reincidentes”. Os dois possuem livros recentemente lançados, o Juarez com o “Antes que os espelhos se tornem opacos” (comentei aqui no blog, leiam em http://wp.me/p24M2p-9U) e a Leila com o “Em que coincidentemente se reincide” (já li, mas ainda não comentei, está a caminho), ambos pela Dublinense.

Acabo de escrever “bate papo”, mas na divulgação constava “debate” e, hoje, no Facebook, coloquei que estava indo assistir a uma “palestra”. A dificuldade de conceituação – é tão necessário assim classificar, oh Gustavo? – demonstra o quão instigante pode ser o tema: os espelhos já fazem a sua magia de distorção antes mesmo que tudo inicie. Discurso, palestra, bate papo, debate, apresentação, exposição, comunicação, intervenção, colóquio… alguém ainda lembra qual foi a primeira palavra, aquela que o espelho distorceu, cortou e separou em dezenas de outras iguais? Nota mental: fazer a arqueologia da palavra conversa e… vou parar com o Foucault por aqui, basta.

Quem me conhece sabe a dificuldade que tenho em ir nestes eventos. Aliás, em qualquer evento. Não é nada pessoal, mas estou sempre escrevendo. Ser afastado do labor é doloroso; sou como o coelho da Alice, atrasado, correndo contra o tempo, atormentado pelas aguilhoadas das histórias que me perseguem. Devo ser uma das pessoas que mais falta em lançamentos de livros ou coquetéis, pois constato que sou mais útil escrevendo do que incomodando algum escritor com a veleidade da minha presença física. Prefiro comprar um livro de forma anônima, ir para casa e lê-lo em paz, sem o burburinho de vozes a mexer com meus pensamentos; ainda acho a leitura, a escrita e todos os atos que envolvem livros quase um sacerdócio. A pilha de livros nos quais eu deveria colher autógrafos dos amigos e escritores que admiro é maior do que a pilha de livros a serem lidos.

Contra todas as possibilidades, acabei indo. E foi uma experiência excelente. Em grande parte graças à mediação da Lu Thomé, que deu dinamismo à conversa e fez os dois escritores saírem da zona de conforto para nos revelarem as suas “vísceras criativas”, o processo de apreensão do mundo e de escrita. Ouvindo os outros falarem, a gente sempre aprende um pouco sobre si mesmo (surpresa, surpresa, oh Gustavo, mas este não é o grande objetivo que nos leva a ouvir aquilo que outras pessoas dizem?). Para o Juarez Guedes Cruz, a literatura vem do sentimento, do desconforto com o mundo e da dor; para a Leila Teixeira, ela vem do trabalho, da reflexão sobre a ideia e do cuidado com a forma. São técnicas aparentemente opostas, mas ambas se encontram no vácuo intersticial que separa os extremos, pois o paroxismo da forma parte da necessidade de anunciar um sentimento, ao mesmo tempo em que a crueza do sentir só encontra vazão e limites na prisão ditada pela forma. Eu diria que o conto mora mesmo é no encontro desta pororoca, no estressar de águas distintas.

O próprio período de maturação dos contos varia. Pelo o que percebi nas respostas, para a Leila quase todo conto passa por um longo processo de depuração, quando as impurezas vão se revelando após sucessivas limpezas, deixando somente o essencial, o produto em perfeito estado para ser consumido. Para o Juarez, os contos possuem diferentes tempos e momentos, e a pulsão da história pode ser diretamente engarrafada nos contos, privilegiando a honestidade do vinho da inspiração em detrimento da sua perfeição estilística.

Assim como eu, ambos possuem um vasto estoque de histórias natimortas, que às vezes surgem e acabam se confirmando e, em outras ocasiões, esperam o momento certo de serem contadas. O Juarez confessou que o seu computador tem três divisões: Berçário (histórias que estão no início), Recuperação (histórias que estão sendo construídas e com um bom desenvolvimento) e UTI (histórias que estão em estágio delicado, precisando de cuidado constante para não serem excluídas de vez). Hum… receio que algumas histórias estejam na UTI por causa do tiro infelizmente certeiro dos meus comentários. Gostaria de poder mandar algumas flores para elas, ou talvez um chocolate, mas a vida é dura e, se estão lá, foi por que o crivo do autor ainda não autorizou a sua saída. A Leila disse que as histórias permanecem no computador, esperando o momento em que vão amadurecer e frutificar; são como os casulos feios esperando a borboleta rompê-los, se me permitem o clichê. Atrevo-me a dizer que, para o Juarez, o processo de construção de histórias se aproxima do ambiente asséptico de um hospital e, para a Leila, elas existem mais como a radiância das flores de um jardim. Bem, odeio discutir gêneros em literatura, mas a reflexão é válida.

Ambos disseram ser impossível sair dos contos e se entregarem aos romances, o que é uma pena para quem gostaria de ler os romances de ambos. Para alguns escritores, a inspiração funciona em uma corrida longa; para outros, ela serve melhor aos arranques, de emoção em emoção, de história em história. Outro aprendizado interessante. O Juarez disse que um conto presente em “Antes que os espelhos se tornem opacos” quase virou uma novela, mas, na hora H, ao tentar desenvolvê-la, ele viu que a história tinha se exaurido dentro do conto e não permitiria maiores acréscimos. Interessante ele dizer isto, pois também admito que o conto em questão (“Se dissesse as palavras certas”) merecia virar uma novela e a forma de conto acabou  deixando-o meio brusco, sem o desenvolvimento e o clima que um mistério merece. A Leila comentou que gosta mesmo é de ler contos, não romances, pois os acha espichados demais; a imitação de vida de um romance acabaria perdendo força por causa da sua dimensão.

A Lu Thomé viu predomínio das narrativas em primeira pessoa nos livros de ambos. Este detalhe me espantou, pois não prestei atenção. Já externei o que penso sobre o acúmulo das narrativas em primeira pessoa na literatura contemporânea em texto no blog do “Leituras do Séc. XXI” (http://leiturasdosec21.blogspot.com.br/search/label/Gustavo%20Melo%20Czekster), e o fato dos dois terem driblado esta minha desconfiança nos seus livros me fez retirar o chapéu mentalmente, pois sou muito observador neste aspecto. Mas a Leila Teixeira sintetizou muito bem o assunto, quando afirmou que a história é quem determina o narrador e não o contrário. Aliás, esta talvez seja a minha maior divergência: o narrador em primeira pessoa é confortável, boçal, preguiçoso, ele é usado até mesmo quando não é necessário. A Leila e o Juarez disseram que preferem os desafios do narrador em terceira pessoa, este ente tão adorável quanto subestimado pelos escritores. A Leila admitiu construir seus contos em torno do narrador (o ponto de onde sairá a história), deixando implícito que a história é escrava dele, e não o contrário. Preciso refletir mais sobre isto: em uma primeira e impulsiva resposta, eu concordaria, mas, pensando melhor, fraturas e fissuras surgem no meu convencimento, pois sinto que o narrador serve a história, nunca o contrário. E quem disse que a Literatura possui todas as respostas?

Mais falas e ensinamentos foram proferidos. Os dois falaram do processo criativo em si, o Juarez mostrou uma possibilidade alternativa estarrecedora com relação ao conto que deu título do seu livro (o personagem no conto acha que os espelhos estão ficando opacos, e é a visão que ele está perdendo! Ele culpa o outro pela sua deficiência, por mais impossível que seja um espelho ficar opaco! E eu não pensei nisto, puxa vida), a Leila revelou que, por mais planejado que seu livro pareça, ele não teve nenhuma espécie de pensamento consciente por trás, as histórias foram se esbarrando ao natural na passagem dos anos em que foram construídas, como se estivessem esperando um trem na estação e trocando olhares suspeitosos, cheios de cautela.

Com relação às referências de cada um, não me espantou que ambos tenham escolhido Borges e Cortázar, pois esta preferência salta nos dois livros. O Juarez acrescentou Poe e Umberto Eco, fazendo menção aos “Diários Mínimos” do último, cuja leitura sempre adorei e nunca tinha achado alguém que compartilhasse do mesmo gosto; a Leila mencionou também o Hemingway, em especial pela capacidade de esconder sentimentos por baixo de uma camada de enganador verniz, algo que ocorre muito no seu livro.

Em seguida, cada um leu um conto de sua própria autoria. Neste momento, vou ter que fazer outro parênteses: por que será que ninguém ainda teve a ideia de criar uma Biblioteca de Obras Lidas pelos Autores e colocar vídeos com a performance de cada um ao interpretar o texto? É impressionante como um conto ganha vida quando proferido em voz alta, muda TODO o seu significado. É praticamente reviver a função original da literatura, que nasceu na oralidade e só depois se transferiu para a escrita; é isto que fazia as pessoas se juntarem ao redor da fogueira, é a gênese da própria civilização.

O Juarez escolheu para ler “Projeto Parmênides”. Há muitos anos que não o ouvia lendo um dos seus contos, desde a época em que fomos colegas no grupo de criação literária, e foi um prazer reencontrar a sua leitura. Quem ainda não teve o privilégio de ouvir uma leitura do Juarez, deveria correr atrás desta oportunidade, pois é singular. Ele lê com suavidade, pontuando frases de forma inesperada, e coloca todo o sentimento possível na voz, na palavra. Sem a obrigatoriedade de analisar o conto, pude me concentrar em escutar a leitura, e percebi que o autor lê olhando as reações do público, cuidando o clima da plateia. Não foi à toa que, quando chegou ao final, a primeira reação do público foi uma interjeição de espanto, um suspiro coletivo. Na minha frente, uma senhora exclamou: “Mas escreve bem este Juarez!” Eu ousaria dizer que LÊ quase melhor do que ESCREVE.

A leitura pública mudou o meu entendimento do texto. O Juarez leu de forma irônica, brincando como se fosse um jogo de gato e rato, autor versus narrativa. A história ganhou ares de piada, uma piscadela para o leitor, desconstruindo o sentido à medida que avançou. Não ficou ruim, e sim inusitada. Quando li “Projeto Parmênides”, senti os ares de uma tragédia digna dos anfiteatros gregos, a impossibilidade de repetição de uma pessoa, algo tão Platão que me encantou – e deu um pouco de medo, pois sentimentos são irrepetíveis, e quem sabe se não estou vivendo agora o irrepetível? No entanto, a leitura do Juarez afastou o tom trágico que ele próprio disse que foi a tônica do momento de vida que passava quando o escreveu. Curioso – cada história é escrita em um determinado momento e a mesma história, lida em repetidos momentos, pode ser diferente daquela que foi originalmente construída. Daqui a alguns anos, acaso o Juarez leia a história em público novamente, talvez o sentido seja outro, oscilando da comédia para a tragédia, da ironia para a seriedade, ou talvez até retorne à intenção original. Mais “Pierre Menard, autor de Quixote” seria impossível.

A Leila escolheu “Noctiluca”. É um dos contos mais fortes do seu livro. Fez um interessante contraste com o conto do Juarez, pois também tratou do duplo, o que é uma forma de ver os espelhos. Ainda não tive o privilégio de escutá-la lendo os seus textos, mas logo acredito que terei, pois somos colegas e partilhamos o mesmo grupo de criação literária. A leitura da Leila foi igualmente pausada, dramática. Como eu faço quando leio meus textos em voz alta, ela não olhou o público, pois o que nos interessa não é a reação alheia, é o nosso confronto individual com a leitura, com a palavra. Ela não tentou encantar as frases, como o Juarez faz com habilidade, mas foi cortante, incisiva. Um estilo de leitura diferente, intenso, com uma concretude que emulou a precisão de um cirurgião operando. A diferença é que, na maca, estava o seu texto, e os ouvintes eram espectadores do processo de dissecação do autor perdendo-se nos labirintos da sua própria trama.

A leitura da Leila também foi diferente daquela que fiz. Pela primeira vez, percebi a construção intrincada de cada frase, com a sua pontuação elegante, a forma com que o assunto se desenrola quase como um novelo, trazendo o leitor para se perder no meio da trama. Não existia palavra sobrando ali e, o que a leitura não tinha de sensibilidade, tinha de beleza e aspereza, em uma sensação quase dolorosa de tão física. Quando li “aleluia”, palavra repetida algumas vezes no início, podia sentir anjos abrindo a história ao meio e gritando com vozes repletas de luzes “ALELUIA”, trazendo claridade ao conto. No entanto, da forma com que a Leila interpretou o “aleluia”, é mais como uma lanterna tímida no meio da escuridão do abismo, um vagalume distante que acende e apaga, quase indiferente na sua tristeza. Ao contrário da leitura feita pelo Juarez, aquela praticada pela Leila demonstrou que a sua história é mais atemporal e os sentimentos do autor estão espalhados atrás da forma. Creio que, daqui a alguns ou muitos anos, se ela tiver a oportunidade de ler o conto em voz alta novamente, o sentimento passado com a leitura será pouco ou nada diferente daquele que vi ontem.

São formas diferentes de ver a Literatura, mas complementares e, na minha opinião, enriquecedoras. E isto que eu tenho a teoria de que o autor só atrapalha o texto. Foi bom ver o quão errado eu penso (minto, continuo pensando, com a diferença de que, agora, acho que o autor atrapalha o texto também no sentido de dar outras viabilidades e sentidos para ele).

Foi um evento muito interessante. Forçou-me a rever alguns conceitos e suscitou reflexões. Mais do que tudo, foi uma boa oportunidade de escutar amigos escritores conversando sobre os seus livros. De tanto ler e imaginar o autor na clausura do livro, acabamos esquecendo que existe uma pessoa por trás de cada palavra e de cada momento mágico suscitado.

Não fizemos fogueiras na Palavraria, mas acredito que o Juarez e a Leila honraram com louvor os antepassados que mesmerizavam as multidões com a sua imaginação e o poder de uma boa história.

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1 comentário

Arquivado em Evento, FestiPoa, Impressões, Juarez Guedes Cruz, Leila de Souza Teixeira, Literatura, Produção Literária

Uma resposta para “Evento: “FestiPoa Literária revisada e sampleada”, em 25/09/2012

  1. Gustavo, reconheço no teu texto a brilhante reflexão que “coincidentemente” deixa ver a leitura e a escritura como as as faces de uma mesma moeda. O melhor da crítica é , no meu entender, escutar a voz e Zumthor quando fala em performance, leitura, percepção. Ainda mais agora, quando os paradigmas críticos se encontram em movimento. Parabéns! E quando leremos outro livro teu? Abraço da Léa

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