O livro que está me queimando devagar

Estou sofrendo bullying literário.

Quem me acompanha pelo Facebook, observou que, nas últimas semanas, descobri uma rede secreta de admiradores do Guimarães Rosa. Começou como uma brincadeira: descobri que uma amiga gostava de Guimarães Rosa, e achei isto tão difícil de encontrar neste mundo repleto de leitores com gostos tão esdrúxulos e de preferências tão rasas que enviei para ela um trecho de “Grande Sertão: veredas”. Este envio fez outros leitores se manifestarem e comecei a colocar trechos diários, pequenas pérolas do Guimarães Rosa. Cada trecho, cada sequência, cada parágrafo desperta mais seguidores. Eu imaginava que éramos poucos, mas, no pequeno universo das minhas relações, espocaram pessoas que não só leram o Guimarães Rosa, como anseiam por relê-lo, mesmo que em doses homeopáticas.

Ecce liber. O livro que esta me atormentando com seu inferno de palavras.

Chegar muito perto do fogo também pode causar queimaduras. Provocar pequenas leituras de “Grande sertão: veredas” também é uma exposição perigosa a um livro. Sinto-me como uma mariposa dando beijos na lâmpada, sabendo que cada um deles pode ser o último.

Por enquanto tenho controlado a vontade de me entregar à leitura caudalosa de Guimarães Rosa, mas não sei por quanto tempo resistirei à pressão. É um sentimento bom, ainda que traga um pouco de receio embutido no seu interior. “Grande sertão: veredas” é um livro ciumento, exigindo a atenção irrestrita do leitor; impossível fazer uma leitura descompromissada, ele pede imersão absoluta; impossível não sentir o livro com cada fibra do ser, ele ressoa em lugares remotos dos sentidos; impossível ler outros livros ao mesmo tempo, a música que sai do meio das palavras é pior que o cicio hipnótico de uma sereia; impossível ler na cama, ou sentado, ou de pé, pois é uma leitura repleta de desconfortos, de curvas abruptas e enlouquecedoras. Neste mundo de sensações ligeiras e de atenção repartida entre tantas responsabilidades, jogar-se no abismo de uma nova leitura de “Grande sertão: veredas” representa mais perigos do que gostaria de imaginar.

Ainda tenho cicatrizes da única e primeira vez em que o li: eu estava na graduação da Letras da UFRGS. Uma professora – cujo nome não recordo, mas creio que era Gina – determinou que lêssemos somente o “Grande sertão: veredas” na sua disciplina. Eu comecei a ler com incrível dificuldade; a leitura não fluía, era um arrastar incessante, uma confusão de sentidos, uma linguagem quase estrangeira. Levei 3 meses para ler as primeiras 20 páginas; de repente, percebi que não devia entender aquele livro como algo lógico e ordenado, deveria me render à intenção do autor, deveria entendê-lo como música. Quando entendi isto, li o restante do livro em dois dias de puro desvario. Quando acabou, eu era o mesmo, mas tinha mudado; o livro reformulou alguma coisa na minha essência. Poderia chamar a sensação de epifania se conseguisse entender o que aconteceu.

Se eu tivesse que conceituar o que é um clássico, diria que é ler um livro e ficar com a sua recordação queimando em mil cicatrizes vivas. Ter medo de voltar à leitura e perder-se de novo dentro do labirinto do qual foi tão difícil escapar. Lembrar da sua história e sentir uma ponta de medo nascendo no mais fundo da recordação. Ter receio de se abandonar de novo àquele universo.

Está explicado um pouco da minha relutância em ler novamente algo tão perigoso. Teria que negligenciar uma quantidade impressionante de leituras. Teria que me afastar de compromissos sociais e das minhas relações pessoais. Teria que deixar de lado a profissão, meus escritos e um pouco da sanidade. “Grande sertão: veredas” vale tamanho sacrifício, mas será que este é o momento certo para realizar isto? Terei tempo e disposição suficiente? Riobaldo, Diadorim e Hermógenes me chamam para dentro do sertão que é inferno que é sertão. E está cada vez mais difícil aguentar.

Cada dia, uma frase por vez, eu fico mais próximo do fogo.

Um dia, irei me queimar.

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Arquivado em Clássico da Literatura, Generalidades, Grande sertão: veredas, Guimarães Rosa, Impressões, Literatura, Livro, Temas de crítica literária

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