Filme: “Jane Eyre” (2012)

 

Li “Jane Eyre”, da Charlotte Brontë, há muitos anos. Tão logo comecei a assistir este filme novo, “Jane Eyre”, lançado em 2012, a história não aparecia com precisão na memória, vinha somente na forma de uma sombra enevoada. Eu não lembrava mais do livro, nem da trama, nem dos personagens. Tinha uma vaga recordação de alguém preso em um castelo, e só. No decorrer do filme, lembrei da história e acho que recordei o motivo de ter obliterado este livro da minha cabeça. Por que, quando o li, achei que a Jane Eyre tinha feito uma das opções mais idiotas de parceiro da história da Literatura. E o filme confirmou as minhas impressões.

Jane Eyre, sua boba. Como podes esperar que vai dar certo um casamento com um homem que mentiu, enganou, quase te induziu à bigamia e ainda prendeu a antiga mulher dita “maluca” atrás das paredes de um castelo, convenientemente queimado, posando de vítima quando lutou para salvar a “louca” do meio das chamas? E isto que eu não falei que, antes disto acontecer, ele confessou que só casou com a ex-mulher por dinheiro e que ela “enlouqueceu” poucos anos após o casamento, deixando a sua fortuna para ser gerida pelo marido. O cara é praticamente um psicopata.

Não tem como funcionar.

A visão romântica e idealista da protagonista esconde um feminismo estúpido. Para escapar do sofrimento e do longo rosário de desgraças que tinha sido a sua vida, ela busca um amor idealizado. É uma romântica inveterada, e está atrelando o seu destino a um homem que, com certeza, irá tratá-la mal assim que o casamento ser consumado. No fundo, Jane Eyre procura perpetualizar a sua dor, em um círculo vicioso de onde nunca escapará. É uma vítima procurando o agressor eterno. E o fato da Charlotte Brontë achar isto bonito e romântico depõe muito contra a inteligência feminina. Há uma evidente discrepância na construção da personagem: ela é uma mulher forte em muitos aspectos, mas falha ao ser incapaz de ver uma tendência à repetição e ao masoquismo que já existe dentro de si.

É um rochedo oco. E isto não vem da personagem: é a fraqueza da própria autora refletida na criação, a sua visão de mundo distorcida e falsa do que seja felicidade. Ela realmente acha que a dor e o sofrimento são românticos. A protagonista se torna uma casca forte por fora e, ao mesmo tempo, ingênua e fraca por dentro. Podemos afirmar que era um pensamento da época. No entanto, acredito que não é só um reflexo do tempo em que a autora viveu, e sim a sua visão de um mundo em que mulheres podem ser fortes para tudo, MENOS para o amor, quando devem ser bobas, melodramáticas e estúpidas. Aliás, muitas mulheres AINDA pensam assim, toda semana batem na porta do escritório mulheres com sofrimentos incríveis que pensam ser natural por causa do amor, pois amar é sofrer. Não é natural, não! Tirem a Charlotte Brontë de dentro de vocês! Como sempre digo, o maior inimigo do feminismo é o próprio feminismo.

Eu tenho que falar do filme, não é? Vou deixar a Charlotte Brontë de lado e tratar do que realmente importa.

Muito bonito o filme. Dá para ver que cada cena foi trabalhada ao máximo, para tirar o maior nível de detalhe da cor, da situação, da cena. Em alguns momentos, senti como se estivesse vendo uma sucessão de quadros realistas e impressionistas desfilando, animados, diante dos meus olhos. Exemplo disso são as cenas feitas no meio do fog inglês, com um caráter de indefinição e angústia que encaixam com perfeição naquilo que é mostrado. Gostei muito de ver as tomadas das folhas de cerejeira, que são coloridas, um rasgo de luz no meio da atmosfera sóbria do filme.

Os personagens são interpretados com esmero. Todos eles são contidos, com motivações misteriosas. A Judi Drench sempre se sai muito bem nos papéis que realiza, seja uma rainha ou uma criada (ainda que a ambiguidade da personagem dela não tenha ficado bem explicada no filme, pois ela sabia o segredo, quase fez com que a Jane Eyre embarcasse em uma “canoa furada” e, ainda assim, seus motivos não ficaram claros). O Michael Fassbender faz um Rochester bem vibrante e um pouco demoníaco, com os cantos da boca retorcidos em um esgar misto de dor e risada. Por fim, a Mia Wasikowska faz uma mulher séria, compenetrada, respondona e dura, apesar de ser um coração derretido como falei acima, mas é um problema de construção da história, e não da intérprete.

O filme é cheio de detalhes. O toque das mãos dos apaixonados revela delicadeza, assim como os seus dedos se retorcem entre si com uma intensidade e uma tensão sexual que a câmera destaca com volúpia. Quase não se vê beijos no filme, e os poucos que acontecem são discretos (sem língua). Apesar disso, a tensão sexual é algo que paira sobre todos os personagens, e a cena em que as irmãs do pastor trocam selinhos com ele e a Jane Eyre é compelida a participar do ritual é um exemplo. As irmãs beijam o próprio irmão sem intenções, mas o selinho que ele dá em Jane mostra muito mais do que uma formalidade e o calor sai da tela como uma explosão.

Não sei se foi o roteirista ou se foi o diretor. No início da história, eles utilizam uma estratégia narratuva conhecida como in media res. Adianta-se o final de uma história que os leitores/espectadores desconhecem e, depois, se explica como foi que a situação chegou até aquele ponto. No entanto, ele foi mal feito, ou melhor, foi um in media res incompleto, pois adiantou o MEIO da história, e não o seu fim. Foi uma aposta arriscada e quase deu errado. Por pouco não comprometeu o andamento do filme, pois começaram a ocorrer três tempos em conflito: a Jane Eyre menina, a Jane Eyre da atualidade morando com o pastor e a Jane Eyre pouco antes da atualidade, quando trabalhava para Rochester. Por causa desta opção de quem fez o filme, algumas explicações ou personagens se perderam: a cena com a amiguinha da Jane no internato ficou soando gratuita, assim como as motivações reais da faxineira interpretada pela Judi Drench, ou o destino da menina final que era cuidada por Jane Eyre. Estas pontas foram melhor amarradas no livro e acabaram sobrando no filme. De tanto criar cenas bonitas e simbolicamente fortes, um pouco da verossimilhança e força da história acabaram se perdendo. Um risco calculado, que recompensou ao final, pois tudo funcionou não perfeitamente, mas de forma adequada.

De qualquer jeito, apesar da minha resistência à “Jane Eyre” e à Charlotte Brontë, a força da história, assim como a capacidade de suscitar discussões e reflexões, ainda sobrevive. Isto demonstra a sua excelência. Posso questionar a autora, mas não posso colocar dúvidas sobre a importância do livro. E o filme faz jus à obra, ainda que sempre perdendo um pouco na tradução da linguagem literária para a cinematográfica. A história sobrevive ao tempo, assim como o drama de Jane Eyre e suas escolhas, errôneas ou não, ainda causam encantamento, em especial quando mostrado com imagens tão fortes e sensíveis. Não é a melhor adaptação de um livro que assisti, no entanto é um filme tão belo e contido que vale muito a pena rever.

2 Comentários

Arquivado em Charlotte Brontë, Cinema, Jane Eyre, Literatura, resenha

2 Respostas para “Filme: “Jane Eyre” (2012)

  1. Denise Ribeiro

    Este livro pode apresentar muitos aspectos que você abordou, dentro uma visão globalizada e modificada dos valores antes instituídos. O livro mostra aspectos relevantes das situações precárias dos orfanatos da época. Mostra como a burguesia maltratava as classes desprestigiadas, principalmente, as crianças, usando a Igreja para esconderem seus anseios pelo dinheiro. E, a máxima do livro, para a época; é o fato de Jane Eyre se manter sozinha. Lembre-se, na época, isto não era bem aceito. . Bronte critica a instituição do casamento com a Blanche e, consequentemente, a situação feminina. Jane e o protagonista masculino não possuem beleza física e, isto, é outra critica sobre o padrão de beleza estipulado.
    Sim, Charlotte Bronte foi uma mulher inteligente e sensível.

  2. claudia

    Apesar da critica, e um bom filme. Vou ler o livro para tirar minhas proprias conclusoes.

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