Livro: “Desvãos”, de Susana Vernieri

Um dos assuntos mais abordados e esmiuçados pela literatura são as várias facetas assumidas pelo amor. Em termos de obras ficcionais, geralmente o amor encontra-se caminhando lado a lado com a tragédia, como se o ato de amar implicasse de forma inexorável em perdas, dores, sofrimentos. E é uma realidade. Poucas coisas são mais difíceis do que amar, e poucas metáforas de morte em vida são mais eficientes do que a figura do amor não-correspondido.

Confesso que, quando comecei a ler “Desvãos”, de Susana Vernieri, recentemente lançado pela editora Dublinense, a barreira de um certo preconceito literário levantou-se antes mesmo de começar a leitura. Tantas coisas já foram ditas sobre o amor não-concretizado… tantos autores abordaram este tema, tantas obras circularam ou tangenciaram o assunto, tantos personagens apaixonados fazem parte do imaginário mundial. Não é moleza fazer o leitor esquecer de “Romeu e Julieta” de Shakespeare ou “Os sofrimentos do jovem Werther” de Goethe, para ficar em somente dois exemplos. É difícil suplantar a ideia de um clichê quando praticamente a literatura se erigiu sobre ele. Seria cruel exigir de um autor que abordasse de forma original um assunto tantas vezes repisado.

No entanto, existe algo interessante neste clichê. Por mais que o leitor saiba das duas possibilidades claras em histórias que envolvem amores não-realizados (o casal vencer as adversidades após uma longa dose de sofrimento ou o casal não conseguir concretizar o sentimento que os une), ainda assim ele se detém no livro, se surpreende com a trama e tem esperança em um final feliz. Esta curiosidade é o que nos faz ler livros em que a mecânica da história se adivinha previsível desde o início. Também é o que nos faz assistir novelas ou ver filmes romãnticos, mas tal abordagem não vem ao caso.  Claro que a habilidade do autor em abordar o tema também é muito importante e faz toda a diferença.

“Desvãos” conta a história de um casal de jovens que se conhece e se apaixona em um réveillon em Punta del Este, Uruguai. As famílias dos jovens representam extremos políticos e o amor é rapidamente sufocado. Ajuda para separá-los o fato de iniciar o regime militar no Brasil, com o confisco das propriedades e dinheiro da família de François, atitude esta em que a família de Ana Maria tem participação decisiva por uma ponta de vingança e de despeito. Neste intervalo, a moça já engravidou e a filha resultante do amor do casal é entregue para François cuidar. O livro conta a história do desenvolvimento distante deste amor e como a vida e o tempo tentam sepultá-lo de todas as formas. De maneira simultânea, pequenos capítulos da atualidade revelam os problemas passados por Renata, a filha do casal, com um longo histórico de amores incompletos, quebrados, tudo em face da sua baixa auto-estima.

É um livro interessante, pois escapa de definições fáceis. Em primeiro lugar, destaco a sua curta extensão. São 72 páginas, algo que, teoricamente falando, poderia lhe dar o título de “novela” ao invés de “romance”. Prefiro a classificação de “romance” pela multiplicidade de personagens, pela quebra do foco narrativo quando passa para Renata, pela extensão temporal da trama. O fato do livro ter 72 páginas de história altamente concentrada faz com que a atenção do leitor não se desvaneça e evita que eventuais inverossimilhanças apareçam. Em segundo lugar, a autora optou por uma construção narrativa clássica: ela faz SUMÁRIOS (momento em que a história é resumida em pouos atos, permitindo a passagem rápida do tempo para os protagonistas) intercalando-os com CENAS (quando ocorre um fato de tamanha relevância para ressignificar o passado ou definir o futuro que ele é descrito em minúcias). Há um evidente predomínio dos sumários, pois o tempo desta história de amor é longo, dura praticamente a vida dos protagonistas.

A estratégia narrativa se reveste de grande importância para a história, pois demonstra como o tempo é capaz de corroer e destruir o sentimento que une duas pessoas. O amor idealizado não conhece limites. No entanto, quando submetido à inexorabilidade do tempo, ele acaba se deteriorando. É como se o amor, quando misturado ao tempo, fosse se decompondo e dividindo em dezenas de sentimentos diferentes, até pouco restar do amor puro do início. Nesta abordagem, o fato do casal ter se mantido separado por boa extensão do livro demonstra que o amor não é algo invencível e intocável que perpassa de forma incólume os anos. Muito longe disto: o amor envelhece e se metamorfoseia. Transforma-se em uma série de outras sensações. Tal raciocínio me fez pensar: se Romeu e Julieta não tivessem morrido e fossem forçados a viver para todo o sempre sem poderem concretizar o amor, o sentimento teria se mantido o mesmo? Neste aspecto, a morte no auge do sentir não foi uma libertação, e sim uma saída cômoda. O difícil é continuar vivendo após amar e, o mais complicado ainda, é suportar as metamorfoses pelas quais o amor passa no decorrer da passagem dos anos. Ou, como disse Goethe, “o meu problema é que eu sobrevivi à minha obra literária máxima”. Sobreviver ao amor puro é um grande problema.

O livro é muito bem escrito ou, melhor dizendo, é escrito com inteligência e cuidado. Não existem construções rocambolescas, reviravoltas forçadas ou intromissões indevidas do autor no curso da história. A trama se constrói mais no silêncio, nas minúcias, nos desvãos do tempo que insiste em rachar o amor original. O final acabou sendo surpreendente, em especial ao ver como o amor deixou de existir, mesmo tendo resultado em um fruto. Aliás, é de se destacar o egoísmo do casal de protagonistas, que foi incapaz de situar o nascimento da filha longe da sua conflitiva sentimental. A menina passa o livro em absoluta indiferença e descaso, enquanto os seus pais se entregam à dor de não conseguirem concluir o amor que outrora os uniu. A secura e a rapidez com que flashes da vida de Renata passam pelo livro deixam entrever uma menina que não sabe como lidar com os seus sentimentos ou, pior ainda, virou a soma de desvãos e fraquezas deixadas pelos seus progenitores, os quais acabaram cravando dentes na vida e no futuro da menina, quase como uma transmissão genética.

Diante de tamanho cuidado na construção da história e no trato com os personagens, chamou minha atenção que o livro pareceu perder fôlego no meio. Foi uma sensação completamente de leitor, mas o início do livro foi tão poderoso e forte que, no meio, me espantou que a história ficasse mais fragilizada. Pode ser uma intenção narrativa, trazer o tédio e a desesperança para dentro do livro. Contudo, se foi intencional, não funcionou. Foi difícil ultrapassar o meio do romance e, mesmo que a história tenha voltado a recobrar um pouco de energia ao se aproximar do final, não foi suficiente para desfazer a falta de gás no miolo narrativo. Após muita reflexão, concluí que a inclusão do personagem Kurt e a forte valoração que ele passou a ter na história como marido machão de Ana Maria foi o fato que deixou a história mais esmaecida. A criação de um novo conflito amoroso no meio de um conflito já existente trouxe fraqueza para a trama original. Mesmo assim, pelo aspecto da verossimilhança na imitação de vida dentro de um livro, seria pouco crível que não surgiria um personagem deste tipo na vida de Ana Maria, até com o aspecto um pouco clichê que lhe foi conferido. Como leitor, detectei esta fraqueza no meio do livro, o que afetou a fluência da leitura, mas, graças à pouca extensão da história, a autora conseguiu “reequilibrar os pratos” e retomar o controle e a energia da história perto do seu final.

Apesar deste problema detectado pelo meu vício em leitura e por uma apreensão impressionista, o livro desenvolveu bem. Em vários momentos, senti como se estivesse vendo uma pérola dentro de uma ostra, pois o invólucro feio da situação emoldurava a beleza das palavras e das construções imbuídas de poesia. Considerei admirável a forma com que a autora escapou do clichê das histórias de amor impossível e mostrou como o amor não-realizado acaba se transformando e modificando graças ao efeito corrosivo do tempo. Não sejamos ingênuos: sentimentos enfraquecem com o tempo, até mesmo o amor. Dizem que renová-lo de forma constante é uma forma de evitar o desgaste, mas eu considero somente uma forma de retardar a sua queda. Todos os sentimentos racham. As rachaduras irreparáveis nascem dos pequenos desvãos que, tal como a água desmanchando o rochedo, acabam por esboroar a sua solidez. Assim como o Tempo cura tudo, o Tempo também destrói. Por esta lição sutil e poderosa, “Desvãos” vale a leitura e vale a reflexão – ainda que com aquela dose de inquietude surgida quando alguém nos fala uma verdade que não gostaríamos de ter escutado.

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2 Comentários

Arquivado em Literatura, resenha, Susana Vernieri, Tempo

2 Respostas para “Livro: “Desvãos”, de Susana Vernieri

  1. Leandro

    Tem revelações sobre o enredo, eu acho rs, parei de ler quando diz sobre a prole, depois que ler o livro volto aqui.

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