Show: “Maroon 5 – Overexposed Tour”

 

Em uma antológica sequência do filme “O clube da luta”, o personagem de Brad Pitt leva uma improvável surra de um homem que, visivelmente, era mais fraco. Ao término da sova, encarado pelos incrédulos companheiros, ele lhes dá um tema de casa: no outro dia, devem procurar uma pessoa mais fraca, iniciar uma briga e perder a luta até o ponto de ser espancado. Somente assim saberiam o que é a verdadeira derrota.

Com base nesta cena, vou dizer algo: no dia 24 de agosto de 2012, resolvi viajar para assistir ao show de uma banda cujas músicas não conhecia e cujo estilo não gosto. Não bastando, é uma banda adorada em especial pelo público feminino, cujos integrantes eu desconheço o nome e – para ficar ainda melhor – não sabia sequer o tipo de música que poderiam tocar e a duração do show. Desconhecia tudo.

No entanto, no melhor dos espíritos esportivos, fui.

Na cabeça, meu tema de casa era: hoje você irá assistir ao show de uma banda que não conhece, não faz questão de conhecer e nunca mais assistirá. Minha voz interna vaticinava – assim saberás dar valor aos shows em que acabas indo! Esta voz interna funciona mais ou menos como o escravo que ficava atrás dos imperadores romanos durante a celebração dos triunfos, murmurando “Lembra-te que és um homem”. Gustavo, lembra-te que faz parte da vida assistir coisas que também não gostamos. Em seguida, acrescentava: Gustavo, não ria.

A cidade era Curitiba, capital do Paraná. Ou melhor, Pinhais, que fica na região metropolitana de Curitiba. A banda era o Maroon 5, a qual – como já referi – não sei de onde veio e muito menos para onde vai, mas cujos ingressos estavam esgotados há algumas semanas, o que demonstrava que, ao contrário do que ocorria comigo, talvez os outros espectadores do show soubessem o que iam ouvir.

O show era no Expotrade de Pinhais, e o horário de abertura dos portões era 17 horas. Chegamos às 19 horas e eles ainda estavam fechados. A fila era descomunal, dava voltas e voltas em torno de si mesma, chegando àquele ponto em que é quase impossível localizar o seu final. Os portões só foram abertos às 22 horas. Detalhe importante: o show deveria ter começado às 21h30 min. Ou seja: os portões foram abertos já com atraso e o show iria demorar para sair.

Na fila, as confusões de sempre. A desorganização do evento era evidente. Não existia um funcionário sequer para orientar. Malandros tentando furar, amigos distantes virando íntimos para conseguirem brechas, estranhos puxando conversas para ver se o tempo passava mais depressa. Amizades de shows, tão efêmeras quanto estrelas cadentes. Continuo achando intrigante as pessoas que bebem até cair – vendiam caipirinha na fila, e duvido que fosse somente para maiores de idade – e não conseguem assistir ao show pelo qual pagaram caro. Cada um com suas opções. Um especial aplauso ao público de Curitiba, que, ao contrário de Porto Alegre, respeita as áreas de fumantes (sim, tem um fumódromo na área do show, para onde quem queria fumar se dirigia naturalmente) e, o mais incrível de tudo, não consumiam maconha, esta droga cada vez mais disseminada e tida como recreacional. Foi um dos poucos shows que retornei para casa com a minha roupa ainda aproveitável.

A diferença do público era gritante em relação aos estilos musicais que eu gosto. Uma quantidade impressionante de mulheres, de todos os tipos possíveis e imagináveis. Uma pequena quantidade de homens, a maioria bocejando e com expressões de enfado que lembravam o meu próprio rosto.

O show começou 00:30, ou seja, três horas após o programado. A esta altura do campeonato, estando de pé desde as 19 horas, eu não sentia mais minhas pernas.

Quem diz que um público majoritariamente feminino é um Paraíso de educação e civilidade com certeza nunca foi em um show que devia ter em torno de 18.000 mulheres. Quando a banda entrou no palco, o grito foi tão insano que, tenho certeza, cachorros morreram ou ensurdeceram há quadras de distância. O meu tímpano esquerdo ainda não voltou ao normal, tamanho o susto que levou. E, meus amigos, eu já estive em vários shows de heavy metal sem sentir tamanho incômodo na audição. Parafraseando Bruce Dickinson ao cantar “Running Free” na arena de Long Beach, Califórnia (vejam o DVD do “Live After Death”, do Iron Maiden), “I wanna come back home and say to eveyone that EXPOTRADE DE PINHAIS destroy my EARING!”.

Quanto ao show, o que posso dizer? Bem, primeiro um elogio: os caras foram profissionais. A banda tocou, mesmo com tanto atraso (que não foi causado por culpa deles, o problema foi a greve na Polícia Federal conjugado à desorganização do evento). Como eu não estava ligado nas músicas, percebi um certo cansaço deles, uma vontade de acabar logo o show, mas pelo menos subiram no palco e se esforçaram. Eles também deviam ter se estressado horrores com tamanha bagunça. Quase não falaram com o público e tocaram uma música quase colada na outra.

Aliás, este é outro detalhe importante a destacar. As músicas eram tão parecidas e estavam tão coladas que era quase como se fosse uma faixa contínua. Como eles estavam todos vestidos de branco, o efeito era quase lisérgico: pareciam ovelhas cantando e saltitando em um campo repleto de luzes feéricas (talvez fosse o sono se apoderando do meu corpo).

Pelo o que percebi, o Maroon 5 está concentrado em torno do vocalista da banda. Ele até apresentou os outros membros da banda, em um dos momentos mais chatos do show, por que ele falava, falava, falava, contava historinha, fazia pseudo-piada e, no final, dizia o nome do integrante do grupo. Já vi apresentações de banda melhores, e neste momento estou me controlando para não dizer momentos do show do Maiden ou até mesmo a apresentação dos integrantes do Green Day, que foi rápida, discreta e dentro da melodia.

Esta concentração do show em torno do vocalista – pelo visto, o sonho e a razão de ser da plateia feminina – faz com que o cara tenha de se desdobrar em vários. É uma coisa meio esquizofrênica, pois ele não pode ocupar muitos espaços ao mesmo tempo, mas extremamente engraçada de vê-lo tentar. Além de cantar, ele tocou guitarra, e, para minha surpresa, foi bem neste instrumento. Também tocou bateria, em um cover de “Seven Nation Army” do White Stripes (única música que eu reconheci), mas imitar a Meg White não é a tarefa mais complicada do mundo, queria ver ele tocar uma música do Rush.

O show alternou momentos rápidos com outros mais lentos. Não chegou a ser vibrante ou ruim, mas foi eficiente. As meninas da plateia adoraram. O público destas bandas que não são de heavy metal é muito esquisito. As mulheres se encarapitam nos ombros dos namorados para ver melhor o palco e, com esta conduta, tiram a visibilidade de quem está atrás do casal de gênios. Bem, se eles fizessem isto em um show de heavy metal, levariam tabefes até a guria abaixar, ou garrafinhas cheias de água ou mijo. A única hipótese de uma menina subir nos ombros de alguém e ser perdoada em um show de heavy metal é se ela tirar a blusa.

Há muitos anos tenho a teoria de que os shows de heavy metal são os mais tranquilos para se assistir. Já me estressei assistindo música clássica, mas não em shows de metal. Já bati boca em uma apresentação da ópera “Carmem”, com chutes na poltrona que me fizeram levantar e dizer para o cara para irmos na rua resolvermos nossos problemas. Já fui expulso por briga do Teatro do Sesi no intermezzo da “Cavalleria Rusticana”. Com raras exceções, o público metaleiro é muito respeitador, pois sabe que qualquer probleminha pode resultar em uma briga de consequências imprevisíveis, então todo mundo é muito calmo. Sempre brinco que, em shows de heavy metal, se alguém pisa acidentalmente no pé do outro, todo mundo começa a pedir desculpas, até quem não pisou. No show do Maroon 5, não existia muito respeito, as pessoas se empurravam e faziam de tudo para avançar. Mulheres brigando ou dão joelhaço ou cotovelada, não são golpes fáceis de suportar. Cheguei ao ponto de me incomodar com um imbecil que empurrou a minha esposa como se fosse um cachorro. Empurrei ele de volta e acho que teria dado problemas se o babaca não tivesse consultado seus deuses e desistido da peleia ao ver meu tamanho. Depois minha mulher jurou de pés juntos que ele pediu licença antes de passar, mas eu, que estava atrás, não vi nenhum pedido, vi o cretino empurrando ela para longe como se fosse uma mosquinha ou um saco de batatas. Ainda bem que não deu nada, uma briga no show do Maroon 5 – para quem já brigou em show do Sepultura (longa história) – iria manchar meu currículo.

Aos trancos e barrancos, apesar dos pesares, o show evoluiu bem. Pelo visto, o pessoal que conhecia a banda se divertiu bastante. Eles saíram do palco e voltaram para o bis mais rápido da história (não sei se chegou a um minuto e não sei nem por que fizeram tanta mise en scène para voltarem tão rapidamente). Por questões logísticas, tivemos que sair antes da última música, pois o nosso retorno seria longo, complicado e ainda precisávamos achar um táxi em uma cidade desconhecida quase duas horas da madrugada.

Minha opinião pessoal? Acho que todo mundo devia fazer isto uma vez na vida: assistir um show de uma banda que desconhecem. Faz com que os sentidos escapem do óbvio e o grau de percepções seja alterado. Não foi uma experiência tão detestável como temi. Show é bom até mesmo quando é ruim. A vibração, a energia, as vozes cantando juntas é muito asfixiante. Não sei se voltarei a assistir a um show do Maroon 5 (que Deus me poupe que este raio caia duas vezes no mesmo lugar), mas posso dizer que já assisti a banda. No entanto, apesar disso, me desculpem, mas este é um show que, com certeza, vou apagar do meu currículo e deixar somente como uma nota de rodapé no passado.

P.S.: para provar minha isenção, me dei ao trabalho de colocar na postagem uma foto do material de divulgação dos caras. Assim, não sou tachado de radical ou contrário ao esforço dos moços, apesar do discurso me desmentir. E a foto abaixo revela o momento em que a minha presença foi registrada neste show, um instante que se acredita ser épico. A minha cara foi o máximo de sorriso que consegui produzir diante das circunstâncias. Como diria meu irmão, para inimigo não se mostra os dentes.

Eu no Maroon 5. Este foi o máximo de sorriso que consegui largar em momento tão doloroso.

Eu no Maroon 5. Este foi o máximo de sorriso que consegui largar em momento tão doloroso.

8 Comentários

Arquivado em Curitiba, Maroon 5, Música, Show

8 Respostas para “Show: “Maroon 5 – Overexposed Tour”

  1. raquel

    Mas a tshirt estava de acordo com o espírito!!

    • Hahahahah, eu acho esta camiseta mega irônica, quase um deboche. Carpe diem o quê, cara pálida? Mas concordo que ela estava no espírito de “já que está no inferno, não esquece de dar um abraço no diabo!” ou o famigerado “o que é um pe…. para quem está cag…?” hahahhahahaha

  2. Angela Dal Pos

    Gostei da camiseta🙂 O texto está cômico, embora eu discorde das críticas ao Maroom 5 pq assisti ao Show deles em Washington e adorei. Certo que a organização dos americanos, e o fato de tudo ter sido no horário, comigo assistindo tudo sentadinha contribuíram muito para meu contentamento. Se quiser, te empresto o cd para vc matar a saudade hahaha. Bj

    • Oi, Angela, não só tu vais discordar das minhas críticas, conheço outra pessoa que vai ficar indignada, heheheheh. Devo admitir que eu esperava uma experiência bem pior do que realmente foi, tanto que as minhas críticas ficaram mais centradas no que aconteceu ao redor do show (acredite ou não, isto é um elogio). No entanto, foi bem pitoresco assistir a um show com algo que não tenho identificação alguma, hehehehehe. Mas a desorganização dos shows no Brasil é bem preocupante. Assisti ao Roger Waters aqui e foi a mesma bagunça. Pessoas desinformadas, mal-preparadas, mal educadas e um público paciente, mas que logo começa a ficar nervoso, ainda mais por ter pago “os olhos da cara” para assistir com calma ao show. Duvido muito que, nos Estados Unidos, tenha custado a fábula que foi no Brasil (ingresso com preço mínimo de R$ 436,00). Obrigado pelo oferecimento do cd, mas vou declinar, hehehehhehe, prefiro ficar com os horrores só na memória.🙂

      • Kelli Pedroso

        Eu gostei muito da tua descrição do show. Eu conheci esta banda através do Song Pop, acredita?

      • A minha descrição foi a mais acurada que um ignorante completo em Maroon 5 pôde fazer. Tu tiveste a sorte de conhecer a banda no Song Pop, e eu, que os conheci a vivo, depois de passar horas de pé na fila, sem comer, sem beber e com as pernas inchadas? Hehehehehhe, preferia o Song Pop!

  3. raikersirius

    A camiseta diz tudo hahahaha

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