O Tempo e os relógios

Tenho certeza de que os relógios mentem. Mario Quintana escreveu que “a nossa própria alma apanha-nos em flagrante nos espelhos que olhamos sem querer”. O que os relógios fazem quando não estamos os olhando? Meu palpite é que eles brincam com as engrenagens do Tempo e tentam enganá-lo – ou tentam nos iludir de que existe mesmo um Tempo.

O relógio escraviza o Tempo. Faz o que deseja com ele. Pode acelerar ou retardar, pode apagar ou criar fantasmas sombrios. Pode até mesmo criar a ilusão de que o controlamos, o que é outra forma de mentira. Achamos que a memória nos salva, mas quem disse que a memória não serve ao relógio? Podemos confiar tanto na memória a ponto de dizer, com 100% de certeza, de que estávamos fazendo aquilo que imaginamos no horário ditado pelo relógio? Podemos mesmo?

“A Persistência da Memória” (1931), de Salvador Dali. O tempo escoa lentamente, levando consigo a memória. Mole, flexível, o tempo se ajusta e cura tudo – até aquilo que não deseja ser curado.

Eu não sei se o Tempo existe. Sei que ele está aprisionado no meu pulso. Também não sei se o Tempo é maleável ou previamente determinado; não sei sequer se estou no mesmo calendário das outras pessoas. Bem, para ser bem sincero, eu não sei nem se existo, os outros que insistem em me confirmar tal fato.

Mas sei que os relógios mentem. Por isto os horários errados nos diferentes relógios, por isto as horas que passam rápido quando se faz algo que se gosta, por isto o tempo que se derrama em gotas lentas quando se faz algo detestável. Às vezes os relógios são piedosos, quando dizemos que o Tempo não passa para uma determinada pessoa. Às vezes, contudo, eles são cruéis, e deixam cicatrizes impiedosas nos espíritos e nos corpos alheios. Quando brincam com a memória, então, são especialmente maldosos. Deixam cravada a dúvida, deixam flutuando a incerteza.

Rematados mentirosos.

E não posso deixar de pensar: o que irá acontecer no dia em que os relógios combinarem as suas pequenas mentiras em uma única grande inverdade?

Continuo rezando pela ignorância dos relógios.

Foto da Devianart.com. Dois relógios que não conversam acabam apresentando divergências temporais.

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Arquivado em Crônicas, Generalidades, Impressões, Literatura, Mario Quintana, Pintura, Produção Literária, Salvador Dali, Tempo

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