Dentro do olho

E justo na semana em que decido retornar aos óculos, após um longo período sem utilizá-los, após aguentar dores de cabeça no final da tarde e sentir os olhos lacrimejarem diante da abusiva carga de leituras e escrituras, sou surpreendido com a imagem infinita de um olho.

Poucas partes do corpo humano se prestam mais a clichês e imagens batidas do que o olho. Olhos de ressaca, olhos entrecerrados, olhos sombrios, olhos apaixonados… quase tudo já foi dito sobre eles. E, apesar disso, ainda existem detalhes que não foram falados. Talvez esta seja a circunstância de ser mágico – sempre ter algo a dizer a respeito, nunca esgotar o assunto.

Diante da imagem do olho capturado pela indiscrição de uma visão mecânica centenas de vezes mais desenvolvida do que a capacidade humana, eu percebo uma superfície mais interessante do que as planícies de Marte. Percebo um fractal morando dentro de cada pessoa. Percebo colinas, aderências, sutis sombras cercando o negro eterno da pupila. Percebo que o deserto mora dentro de cada pessoa, e constato que somos desertos comunicando-se através de olhares. Visto de perto, o olho parece um sol derretendo, uma supernova no segundo que antecede a explosão, as ondas que rompem a superfície impassível do lago.

De repente, a expressão “os olhos são a janela da alma” adquire um novo significado, um colorido inédito. Adquire sabedoria. Qual o deserto que não tem alma, qual o abismo que não sente dor? Isto justifica o nosso incessante piscar; precisamos matar a solidão do olho, apascentar a sua fúria ignata, regá-lo com um pouco de esperança. Precisamos refrescar o seu medo de se auto-consumir em desespero.

Neste contexto, lágrimas também adquirem um novo significado. São o oásis tentando escapar do deserto, são a fonte que brota do meio do nada.

E não consigo deixar de pensar nos bilhões de pessoas que andam por aí compartilhando fractais, enlaçando imensidões, fazendo eternidades colidirem. Se as pessoas soubessem do invisível que mora dentro dos olhos de cada uma, tudo seria diferente. E talvez eu não desrespeitasse tanto os meus olhos desgastando-os em leituras sem o devido aparato para protegê-los. Talvez as pessoas não desrespeitassem os olhos vendo as bobagens que assistem por aí. Talvez elas aprendessem a valorizar o sentido da visão, não desperdiçá-lo com aquilo que não merece. No entanto, são só pensamentos vãos; o primeiro objetivo, agora, é retornar aos óculos, estes velhos companheiros. Se possível, com um pedido de desculpas.

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1 comentário

Arquivado em Crônicas, Generalidades, Impressões, Olho, Produção Literária

Uma resposta para “Dentro do olho

  1. Kelli Pedroso

    Eu respeito os meus olhos. Uso colírio e óculos. Acredito que a integridade de um homem está no seu olhar e, sobretudo, nas suas ações.

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