Livro: “O Livro de Monelle”, de Marcel Schwob

Desde a leitura que fiz do livro “A cruzada das crianças / Vidas imaginárias”, do Marcel Schwob (coloquei a resenha aqui no blog – http://wp.me/p24M2p-1Z ), confesso que fiquei positivamente impressionado pela força da narrativa do escritor francês, pelas imagens poderosas que ele criava através de metáforas e pela sua criatividade. Esta leitura acabou sendo decisiva para que eu procurasse outra das suas obras, “O Livro de Monelle”, lançado pela Hedra em 2011.

Não podia ficar mais surpreso com a leitura deste outro livro. Ele é diametralmente oposto ao “A cruzada das crianças / Vidas imaginárias”. Não existe nenhuma base com a realidade ou com a História. O estilo ainda é o mesmo, mas o autor se refugia de forma incessante na beleza plástica das ideias, no cicio das palavras, na construção de imagens poéticas através da prosa. Em alguns momentos, ele chega ao nível da incompreensão. De tanto buscar imagens e alegorias, Schwob se esquece da história, que deixa de servir aos seus propósitos narrativos para se tornar o veículo de condução da beleza meramente estética. É uma história bela como uma catedral, porém pouco narrativa ou inventiva. Jamais imaginei que diria isto a respeito de um livro, mas é uma história feita para sonhar com imagens, ainda que pouco eficaz para transmitir uma narrativa. Muitas palavras para um excesso de imagens poéticas, e quase nenhuma história.

“O Livro de Monelle” se divide em três partes: “Palavras de Monelle”, “As irmãs de Monelle” e “Monelle”. O primeiro segmento se aproxima de um evangelho para entender os motivos de Monelle. Uma prostituta de idade indefinida aproxima-se de um homem e traça uma série de postulados, envolvendo o espaço e o tempo, dissecando os seus motivos e pensamentos particulares. É uma leitura muito bonita. Monelle é uma poeta e, após homenagear outras prostitutas que se perderam na História e na Literatura (e que representaram papel capital para Bonaparte, Thomas de Quincey e Dostoiévski), lança-se a uma série de postulados simples, sintetizando uma espécie de credo pessoal que justifica o fato do capítulo se chamar de “Palavras de Monelle”. Irei transcrever um trecho:

Destrói todo bem e todo mal. Os escombros são semelhantes.

Destrói as antigas habitações de homens e as antigas habitações de almas; as coisas mortas são espelhos que deformam.

Destrói, pois toda a criação vem da destruição.

O capítulo inteiro é dedicado aos pensamentos de Monelle, que são desordenados, sem nenhuma coerência lógica e, por isto mesmo, deve ser lido somente pela impressão que os aforismos causam. Não existe história ou fio narrativo segurando estas frases. Sabemos que é Monelle por que o autor anunciou, mas poderia ser qualquer pessoa. A única menção a uma estrutura narrativa é o fato de que a narradora anuncia que vai falar sobre um assunto (por exemplo, “formação”, “morte”, “arte”, usando a expressão “E Monelle disse ainda: eu te falarei da formação”, em um discurso que parece o Sermão da Montanha consoante a Bíblia) e desfila quatro ou cinco aforismas, sendo que o último dá uma dica de qual será o próximo tema. Poderia ser extremamente enfadonho, mas a forma ritmada e vibrante com que as imagens são transmitidas através das palavras dão o tom exato para o leitor se ambientar e continuar preso à história, curioso em saber quais são os pensamentos de Monelle.

O segundo capítulo, “As irmãs de Monelle”, foi aquele que achei mais interessante. São uma série de pequenos contos, abordando diferentes meninas e as suas características principais. Cada capítulo aborda uma menina e a forma com que ela se relaciona com o mundo ou com as outras pessoas. Desta forma, temos “A selvagem”, “A desiludida”, “A sonhadora” e outras. Em todas elas, existem facetas da Monelle exposta na primeira parte do livro. Neste capítulo, Marcel Schwob mostra extrema maestria literária. As histórias se relacionam de forma íntima com as características das ditas irmãs de Monelle e, além de visuais, são contos perfeitos acaso sejam individualmente consideradas. Alguns segmentos terminam com a força de um conto bem urdido, deixando uma sensação de ter levado um soco no estômago. Em compensação, outras partes terminam com mais dúvidas e mistérios do que quando iniciaram. Uma leitura prazerosa, ainda que nada simples.

No terceiro e último capítulo, chamado simplesmente “Monelle”, o narrador encontra a moça, que conta histórias esparsas da sua vida. São repletas de simbolismos e chaves de leitura, assim como o uso de metáforas cria belas imagens. Novamente o autor opta por pequenos contos, que fecham a história entre si e se encaixam no panorama global. São histórias interessantes, mas, pelo menos na minha ótica, causou um anti-clímax, em especial após a leitura do capítulo anterior. No entanto, eu considero que este último capítulo foi a fusão dos dois primeiros capítulos e, no objetivo do livro, ele acaba se tornando essencial, indispensável. É a primeira vez que o leitor é apresentado à vida de Monelle, sem ouvir a sua filosofia de vida e sem escutar histórias de outras meninas das quais poderia retirar um paralelo com a própria personagem que dá ensejo ao livro. Monelle aparece como uma guia, uma Beatriz, levando o autor a conhecer a sua vida. No final, o surgimento de Lovette, duplo de Monelle, causa confusão para o leitor, em especial por que agora é Monelle, a guia da narrativa, quem precisa ser buscada. Interpretei este fato como se Monelle estivesse tão ligada ao cerne da narrativa que entregou a própria existência fictícia para a história, escondendo-se dentro do livro e forçando o leitor/personagem a adentrar na história para ver a sua essência espalhada pelas páginas. Senti-me como o pescador que fisga um peixe único e mergulha fundo na própria alma para retirá-lo da água, confundindo-se com o peixe até que ambos sejam somente um. Por causa deste efeito, considerei “O Livro de Monelle” como uma narrativa tentacular, daquelas que pegam o leitor, envolvem-no com lentidão e o sugam para dentro da página, para as nuances de uma história que se revela e se esconde a cada momento.

Não é um livro fácil de resumir. As frases contém múltiplas possibilidades interpretativas. O ensaio inicial do livro revela que Monelle existiu e que Marcel Schwob teve um relacionamento com ela. A intensidade da história até dispensaria esta explicação, mas foi difícil não ficar na dúvida. É um livro muito impressionista. O leitor não procura a narrativa pelo simulacro de vida, e sim pelas impressões que a história causa. Em alguns momentos, a ruptura da imagem que o escritor passa em relação à trama que está transmitindo chega ao ponto de deixar a narrativa incompreensível, etérea demais. É com esforço que o leitor acaba se prendendo na história, curioso em saber como ela terminará, mergulhando fundo na personagem Monelle, este grande e labiríntico quebra-cabeça em torno do qual Marcel Schwob erigiu o seu livro.

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Arquivado em Literatura, Marcel Schwob, resenha

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