Filme: “O Cavaleiro das Trevas Ressurge”

Não é segredo para ninguém que, no meu entendimento, o Batman é um dos maiores personagens de quadrinhos já criados. Em materia de construção psicológica, eu o coloco ao lado do Homem Aranha e do Sandman (ainda que o meu personagem fetiche mesmo seja o John Constantine. Ele seria o único que me faria largar tudo o que faço se tivesse a oportunidade de escrevê-lo).

Portanto, era um dever quase religioso assistir ao terceiro filme da trilogia, “O Cavaleiro das Trevas Ressurge”. Eu assisti os trailers e reconheci pedaços de duas minisséries do Batman que tinha gostado muito, “A Queda do Morcego” e o invencível clássico “O Cavaleiro das Trevas”, do Frank Miller (já o citei antes neste blog). Lembrava de uma outra minissérie perdida em algum lugar da memória, que o Carlos André Moreira (tem um blog também, o Mundo Livro, http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/?topo=13,1,1,,,13 ) gentilmente me disse ser “O Messias” – e partes de uma outra, “Terra de Ninguém”, que eu ainda não li, mas já estou procurando.

Para ser bem sincero, depois do segundo filme da trilogia, achava muito improvável que o final da série suplantasse o meio. O Coringa do Heath Ledger foi tudo aquilo que se espera de um arqui-inimigo: um espelho distorcido do protagonista. Ele demonstrou toda a psicose do Batman e o que aconteceria se ela estivesse sendo usada para o mal. Claro que a influência do roteiro deve ter sido o Alan Moore e o seu excelente “A Piada Mortal”, mas também tinha o Coringa envelhecido do Frank Miller e a sua trágica constatação: para existir um Batman, deve existir um Coringa, os dois dependem um do outro. Para todo agente da ordem, deve existir um elemento instável, deve existir o caos.

Em alguns momentos, o terceiro filme aproximou-se da minha expectativa. No entanto, as falhas do roteiro prejudicaram a excelência que se esperava. Deu para ver que o roteiro não foi tão trabalhado quanto aconteceu nas outras vezes. Algumas inverossimilhanças foram sérias, gerando aquela sensação de “hã?” que um espectador nunca deve enfrentar. Tudo bem que não se deve esperar muita verossimilhança em um filme onde o protagonista é um bilionário que se veste de morcego para combater o crime (pensei aqui no Eike Batista), mas o mínimo esperado é que exista verossimilhança interna. O fato do policial Blake ter descoberto a verdadeira identidade do Batman só de olhar a postura de Bruce Wayne é um exemplo. O Comissário Gordon o conhecia desde criança e nunca teve tamanho “catch”. Os esgotos infestados de criminosos pagos pelo governo e pelos acionistas da Wayne Inc. foi duro de aguentar. Os caras estão esburaqueando a cidade por dentro e ninguém fica curioso, só um policial? E como os policiais presos no metrô por 87 dias sobreviveram sem água e comida, se todos que chegassem perto deles eram assassinados? Muitos buracos no roteiro.

Gostei muito da Mulher-Gato, ou melhor, da Selina Kyle (não se identificou como Mulher-Gato no filme, algo muito apropriado). Em primeiro lugar, por que ela se mexia como se fosse um gato. Em segundo lugar, ela sempre parecia saber mais do que revelava. A própria voz constantamente modulada parecia um misto de ronronar e precaução. Na minha opinião, o policial Blake só entrou no filme para dar a oportunidade de mostrar que a história do Batman continuará, algo que tinha maneiras mais eficientes de fazer sem gastar um personagem inteiro com isto (o final de “O Cavaleiro das Trevas” do Frank Miller é um exemplo brilhante de como mostrar a imortalidade da lenda  e de que o cargo de Batman não é uma pessoa, e sim um símbolo).

Com relação ao vilão, o Bane nunca me causou muita espécie. Sempre me pareceu mais um vilão sortudo e aproveitador do que algum complexado repleto de nuances psicológicas. Ele representa a força bruta, somente isto. Claro que o filme deu uma profundidade maior ao transformá-lo em uma marionete guiada pelo amor (achei um pouco clichê, mas tudo bem). Não gostei do estratagema utilizado para demonstrar a maldade e a falta de escrúpulos do Bane; pareceu-me ilógico que alguém que estivesse formando um exército matasse tantos companheiros de luta.

O Batman envelhecido e quebrado que retorna à luta foi convincente. Senti falta dos pensamentos em primeira pessoa revelados em”O Cavaleiro das Trevas” do Miller, mas admito que o filme seria estragado com a inclusão desta voz. A sova que ele leva do Bane, uma sequência repleta de agonia e desespero, foi antológica. O barulho de corpos brigando e se quebrando é mais assustador do que o tonitroar de explosões. Desde o início, percebeu-se que o Batman não tinha como ganhar daquela massa de músculos, mas, ainda assim, torceu-se pelo impossível. A redenção de Bruce Wayne no interior da prisão pareceu um pouco forçada (acho outro tremendo clichê a história do cativeiro que motiva e ensina o preso a como escapar dos seus grilhõies mentais e físicos, mas talvez eu esteja ficando chato com a idade). No entanto, tal redenção estava dentro da proposta do filme. Por sua vez, o salvamento final foi tão anunciado que acabou soando falso. Preferia que tivesse ficado mais subentendido, mais ou menos como o final de “A Origem”, do próprio Nolan.

Muitas pessoas inteligentes e capazes falaram sobre o novo filme do Batman, em especial abordando as implicações sócio-políticas, a defesa do status quo dos poderosos pelo Morcego, a relação com o movimento Occupy Wall Street. São interpretações válidas. Mas, como antigo admirador dos quadrinhos e fã do personagem, o que posso dizer é que o filme foi fiel à trajetória do mito. Também prestou tributo para algumas das melhores histórias que já foram escritas para o Batman, algo extremamente meritório. Conseguiram reescrever uma história já contada muitas vezes. Ainda que as minhas expectativas tenham sido tão grandes que a frustração era inevitável, foi um final digno.

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2 Comentários

Arquivado em Batman, Christopher Nolan, Cinema, Frank Miller, Quadrinhos, resenha

2 Respostas para “Filme: “O Cavaleiro das Trevas Ressurge”

  1. Kelli Pedroso

    Tens me proporcionado grandes e excelentes viagens, através da tua escrita. Eu só tenho que agradecer. Eu não gostei muito do último Batman. Mesmo não gostando muito do ator Danny DeVitor, achei aquele do Pinguim excelente. E o Coringa do Heath Ledger, então… Se algum dia chegarem a fazer algum remake, infelizmente, o que ocorre em grande escala com filmes recentes, nunca irão encontrar um Coringa melhor do que o interpretado pelo Heath Ledger. Show de interpretação. Não me arrisco em dizer o número de vezes assisti, foram muitas. E não me canso. Me apaixonei pelo vilão.
    Seria muito bom se escrevesses a construção psicológica do Batman e do Homem Aranha.

    • Kelli, eu penso que a última parte da trilogia do Batman teve muitos furos e situações mal-explicadas, o que representou problemas para a verossimilhança da própria narrativa, e isto nunca é bom.
      Geralmente, o segundo filme de uma trilogia é o que eu considero “filme de meio”, aquele que serve de ponte entre as histórias e dramas mencionados na primeira parte e a resolução destes mesmos conflitos no terceiro segmento. Por isto, é fraco por natureza, é um filme de passagem. No caso do “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, o ápice da trilogia – onde todas as perguntas foram feitas e respondidas – foi no segundo filme. Heath Ledger levou o Coringa a um novo patamar, fazendo a pergunta incômoda que sacode o Batman há muito tempo: será que não é ele quem gera o próprio inimigo? Pois tudo no Universo encontra-se condicionado à máxima de que toda ação gera uma reação. Se o Batman, agente da ordem, surge, será que ele não é o responsável pelo aparecimento também do seu oposto, o caos? Estas questões surgiram na segunda parte da trilogia, e não foram suficientemente enfocadas no terceiro filme. Como Hollywood gosta de fazer, o filme tem que agradar tantos tipos diferentes de público que acaba ficando uma colcha de retalhos impossível de agradar.
      Bah, gostei da tua sugestão de escrever sobre a psicologia do Batman e do Homem Aranha. Vi todos os filmes deles, li suas revistas por muitos anos e são os heróis que acompanharam todo o meu crescimento. Assisti este último Homem Aranha e fiquei cheio de perguntas, em especial se comparado com a trilogia anterior. Curti muito a tua ideia, vou escrever, sim. Um beijo.

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