Um respeitoso diálogo entre Calíope e Terpsícore

Eu admiro os artistas.

Não falo isto em causa própria, não afirmo algo tão taxativo pensando no fato de que sou um escritor.  Quando externo a minha admiração pelos artistas, estou pensando naquelas pessoas que acordam e sentem a desesperadora necessidade de compartilhar o seu subjetivo, o seu íntimo, as suas entranhas, com o mundo que os cerca. Com este mundo frio, indiferente, em matizes quase monocromáticas. Este mundo acostumado a sufocar as vozes dissonantes e que enxerga os artistas – a agitada linha que escapa da curva da normalidade – com um temor quase reverente.

As pessoas não sabem o que é acordar com este desconforto. É torturante. Compartilhar o íntimo com os desconhecidos não é uma opção. O verdadeiro artista PRECISA fazer isto. Por mais que doa. Por mais que ninguém entenda. Por mais sofrimento que seja causado. E, neste momento, recordo uma pequena fábula que inventei algum tempo atrás, em uma galeteria: pensando no significado de “galeto al primo canto“, eu imaginei dezenas de jovens galinhos confinados em um espaço reduzido. O silêncio é sepulcral; um olha para o outro, todos são iguais, todos se vigiam naquele aglomerado de penas. De repente, um deles diz: “não aguento mais!”. Os outros dizem: “pss, fica quieto, luta, aguenta firme”. Tudo inútil: logo o galinho se ergue e solta um canto triunfal, vitorioso, o, último. Neste instante, mãos humanas surgem e o arrastam para o abate. Saindo da prisão, um dos outros galos fala: “Tu és louco, cara, por que não ficaste quieto?”. E o galinho responde: “Foi bonito o meu canto, não foi?”

No final do dia, o que realmente importa é que o canto tenha sido bonito – mesmo que ele nos mate. Os artistas são os galinhos no meio de um mundo silencioso. Quando algum deles canta, a consequência inevitável é a exposição. Para o bem ou para o mal.

O meu negócio é com a musa Calíope, aquela que tem Bela Voz, a senhora da poesia épica. É ela quem tortura o meu sonho, escraviza o meu pensar, me fustiga com chicotes incessantes, faça chuva ou faça sol. É uma musa ciumenta e possessiva. Apesar disso, mantém-se discreta: se eu quisesse, ela manteria esta relação sadomasoquista confinada aos estreitos limites da minha mesa, aprisionando as criações dentro da gaveta, preservando a minha identidade. No entanto, outras musas não são tão piedosas com os seus seguidores. Estou falando de Terpsícore, aquela que Adora Dançar ao ritmo da própria lira que embala. Esta musa exige sacrifícios públicos e uma disposição invejável, pois as pessoas que ela toca demonstram a sua arte não só com a alma, mas também com o corpo.

Musas dançando com Apolo, quadro de Baldassare Peruzzi

Eu admiro os artistas tocados por Terpsícore. O seu desconforto é transmitido com o corpo; a sua linguagem é a dança. Eu não consigo nem imaginar a dose de coragem necessária para alguém acordar, sair para a rua e dançar na frente das outras pessoas. E não é só dançar, pois isto qualquer pessoa pode fazer. É transmitir uma mensagem, compartilhar a própria essência. Acredito que não existe forma artística mais íntima. Entre a minha cabeça e o papel, existem os dedos, e eles mantém uma distância respeitável onde a razão se intromete e tece a sua rede de sonhos. Entre os dançarinos e a música, só existe o corpo. É ganhar ou perder.

Impossível não respeitar a coragem dos dançarinos. Um dos motivos pelo qual demorei muitos anos para lançar o meu livro foi a falta de vontade de participar de uma eventual noite de autógrafos. A ideia de dar corpo e substância à minha expressão artística era (ainda é) deplorável. Sempre sonhei com a Literatura como uma voz segura que conta a história, não como um corpo repleto de fraquezas e indecisões. No entanto, tenho que estar presente no surgimento do meu livro, não posso terceirizar algo que produzi. Demorei alguns anos para me acostumar a esta ideia. E não estou 100% convencido de que a minha presença seja essencial. Ainda sonho em lançar um livro e permanecer incógnito no salão. Ou escrevendo em casa, quando seria mais útil, deixando o livro seguir seu curso.

Tudo isto só para dizer que, em homenagem à Terpsícore, esta corajosa Musa, decidi auxiliar um interessante projeto de dança, o “Solidão A Gosto“, que está sendo feito através de financiamento coletivo. Durante quatro dias (20 a 24 de agosto), em três ocasiões por dia (12h, 15h e 17h30), em locais distintos de Porto Alegre, um grupo realizará performances de dança. Será testada a capacidade das pessoas de se adaptarem ao inusitado. A dança é uma arte solitária, pois depende demais do corpo do dançarino; no entanto, para ser reconhecida, precisa ser feita publicamente. É uma dicotomia intrigante. Mas nada muda a absoluta coragem de fazer arte em um país desacostumado com expressões artísticas, e nada muda a extraordinária exposição física e mental destas pessoas. Meu respeito e admiração são imorredouros. E pensar que eu ainda acho lançar livros complicado. As minhas reclamações parecem tão insignificantes diante da disposição e energia deste pessoal que estou resistindo à ideia de cortar o parágrafo em que fiz tal confissão.

Colocarei o vídeo introdutório do espetáculo. Se conseguirem assistir, foi por que a minha habilidade tecnológica conseguiu desincumbir-se da tarefa. Se não, o link com o vídeo está um pouco mais abaixo, na postagem.

Quem desejar auxiliar o projeto também, colocar o nome do meu lado, o site está aqui: http://catarse.me/pt/projects/841-solidao-a-gosto

Vale a pena. Terpsícore agradece.

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3 Comentários

Arquivado em Dança, Galeto al primo canto, Generalidades, Grécia Antiga, Musas, Solidão A Gosto

3 Respostas para “Um respeitoso diálogo entre Calíope e Terpsícore

  1. Kelli Pedroso

    O tema abordado no texto é deveras interessante. A dança liberta a alma.

    • A dança liberta a alma e faz com que o corpo comungue do universo. Admiro muito quem se dedica a esta modalidade de arte, pois é necessária uma grande dose de abnegação. Desprezamos muito o nosso corpo no dia a dia, e a dança serve para afirmar a excelência dos nossos limites quando confrontados com o ar.

  2. Aprecio toda sensibilidade quintessencial despojada de temeridades e de indomável expurgo! As Musas são um fascínio pessoal de irrefutável encanto. Invoco a trágica Melpomene às minhas façanhas mais lúgubres. Ave, homem despedaçado, pois teus cacos hão de se unir e se espalhar novamente, a cada nova criação e ressurgir de mundos.

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