Não invadam o meu hexágono

Se eu pudesse sintetizar uma lição de vida que sigo, seria esta: não entrem no meu hexágono.

Para os neófitos que nunca jogaram RPG – Role Playing Games, hexágono é o espaço corporal e mental que um personagem ocupa no espaço do jogo. Com base nesta medida, todos os detalhes do jogo são medidos em hexágonos: alcance de armas, limite das magias, dados de movimento, estratégias. Por muitos anos, o meu grupo de RPG – não os nominarei, mas eles sabem quem são, até por que mantemos o sonho de jogar novamente – considerou o hexágono a mais perfeita forma da Geometria. Aberto para os seis lados possíveis, simples, facilmente imaginável, a medida exata da ocupação de um espaço por qualquer pessoa.

A única maneira de invadir o hexágono ocupado por outra pessoa ou objeto seria através de um empurrão ou um ato de violência. Duas pessoas só ocupariam o mesmo hexágono em uma conjunção física – sim, exatamente o que vocês estão imaginando. Neste momento, a autorização para compartilhar um hexágono seria o mais íntimo ato que dois seres humanos podem dividir. Aliás, seria uma interessante forma de convidar alguém para um ato sexual: “vamos dividir um hexágono?”.

Eu mantenho esta regra de ouro em boa parte das minhas relações. Não permito que muitas pessoas cheguem próximas do meu hexágono. Evito situações em que esbarrões ou empurrões possam acontecer, evito ao máximo que pessoas se aproximem perigosamente dos limites do hexágono, pois, se isto acontecer, terei que sustentar o impacto – e um de nós cairá. Não autorizo que os hexágonos representados por outras pessoas ou outros problemas invadam a minha esfera mais do que o normalmente permissível. Mantenho distâncias regulamentares e confortáveis de quase todas as pessoas, conhecidas ou desconhecidas. Talvez este seja o segredo da calma e do bom viver: saber respeitar os limites do seu hexágono e dos alheios.

Nos tempos atuais, o que mais vejo são pessoas invadindo outros hexágonos. Vejo esbarrões, empurrões, o velho e bom “escudaço” (deixo para a imaginação preencher a imagem de uma invasão de hexágono com um escudo), pessoas deslocando-se de forma caótica como se estivessem em uma mesa de bilhar. E as invasões continuam, enquanto pessoas ficam mais curiosas com as vidas alheias do que com as suas, vivendo os dramas dos outros como se fossem atores principais de algo que não lhes diz respeito, opinando sobre fatos que ocorrem nos outros hexágonos.

Neste momento, eu me recordo do imperador romano Marco Aurélio, estoico de carteirinha, e a sábia afirmativa que fez na sua obra “Meditações”:

Sê como o promontório contra o qual as ondas quebram e voltam a quebrar; mantém-se firme até que, por fim, as águas tumultuosas à sua volta se rendem e vão descansar.

Dentro do meu hexágono, eu devo ser inquebrável, indevassável. As ondas devem bater e quebrar, pois elas passarão, e eu continuarei. Nos limites do meu espaço, nada pode tocar, nada pode constranger, nada pode ferir. Meu hexágono é sagrado, o templo no qual tenho salvaguarda e guarida. Manter a integridade do hexágono, este é o grande desafio dos dias atuais; impedir que outras pessoas tentem entrar onde não são convocadas. Não é mesmo, Marco Aurélio?

Um homem pode estar junto de uma límpida fonte de água doce e cumulá-la de palavras injuriosas; mas ela continua a jorrar água fresca e sã; ele pode mesmo conspurcá-la com imundícies e porcarias, mas ela dissolve-as logo e lava-as rapidamente, ficando sem mácula. Como é que havemos de ser, nós próprios, senhores de uma tal fonte perene? Salvaguardando o direito de sermos senhores de nós mesmos em todas as horas do dia.

Manter o hexágono limpo e intacto é uma luta constante. Existem muitas maneiras insidiosas de tentar invadi-lo. A vigilância deve ser perene. Não digo que, às vezes, não falho. Às vezes, as pessoas entram, mesmo sem autorização, e acabam me derrubando. Mas o segredo é se reerguer, desenhar o novo hexágono e levantar todas as barreiras novamente. Os romanos construíam fortalezas pela noite e as derrubavam pela manhã; o mesmo ocorre com os hexágonos. Ser derrubado e retirado do prumo só faz com que um novo e mais forte hexágono seja criado. A arte da esquiva, do bloqueio e do aparar (as três defesas possíveis em um RPG) deve ser exercida e treinada ao máximo. Da mesma forma, a atenção para não incindir em velhos erros, em velhas estratégias de cerco que já tiveram sucesso. E retorno ao Marco Aurélio:

A arte de viver é mais como uma luta do que como uma dança, na medida em que também exige uma postura de firmeza e de alerta contra qualquer investida inesperada.

Serei um pouco radical, mas gostaria de ver uma religião considerando o Hexágono como a única divindade, ensinando as pessoas a se manterem nos limites do seu espaço corporal e mental, pensando em como evoluir por meio da auto-observação ao invés da observação alheia. Temos uma tendência a buscar respostas nos hexágonos alheios, mas, como sempre, a solução está dentro do parco limite das seis linhas por onde nos deslocamos e onde passaremos boa parte das nossas vidas.

Marco Aurélio.

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6 Comentários

Arquivado em Estoicismo, Filosofia, Hexágono, Marco Aurélio, RPG - Role Playing Game

6 Respostas para “Não invadam o meu hexágono

  1. Angela Dal Pos

    Muito bom! Acrescento que o hexágono deve ser relativizado a favor dos abraços daqueles que queremos perto de nós. Mesmo em tempos de excesso de álcool gel e distanciamentos recomendados. Bj

    • Muito bem lembrado, Angela. Um abraço também é uma excelente forma de duas pessoas compartilharem o mesmo lugar, mesmo que por alguns segundos. Interessante que eu só tenha conseguido divisar formas violentas de invasão do espaço pessoal e tu tenhas conseguido ver uma forma intermediária. Afinal de contas, talvez seja uma excelente explicação sociológica do motivo pelo qual nos abraçamos: somente assim compartilhamos a visão e a respiração do outro. Muito bem pensado. 🙂

  2. Kelli Pedroso

    O respeito é fundamental.

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