Livro: “A cor que caiu do espaço”, de H. P. Lovecraft

Reler Lovecraft é reencontrar as paragens sombrias de Arkham, as árvores distorcidas que se assemelham a gritos de dor vegetal,  o olor fétido de morte que se espraia pelos campos, os sussurros dos personagens ambíguos e incrédulos que logo terão que se deparar com o horror no seu estágio mais puro.

Reler Lovecraft é enlouquecer mais um pouco.

Recentemente, eu reli um dos contos mais famosos de Lovecraft, “A cor que caiu do espaço”, lançado de forma autônoma pela editora Hedra. No volume, além do conto, estão três ensaios: “A confissão de um cético”, “Notas sobre uma não entidade” e “Notas sobre ficção interplanetária”. No segundo ensaio, que ocorre de ser a autobiografia do Lovecraft, ele confessa que “A cor que caiu do espaço” é um dos seus contos favoritos, ao lado de “A música de Erich Zann”. Relendo o conto, posso entender perfeitamente o motivo desta escolha.

Todos os requisitos para uma boa história de terror se fazem presentes. Em primeiro lugar, o narrador é um homem de formação científica e, por isto mesmo, um rematado cético. Ele é quem conta a história que escutou de outro habitante dos campos que cercam Arkham, o qual, por sua vez, relata as desventuras de uma família – os Gardner. Esta superposição de narradores visa justamente conceder verossimilhança para a trama fantástica que será contada (afinal, um narrador cético está prestes a desvelar algo maravilhoso diante dos olhos incrédulos do leitor e convencê-lo de que tais fatos sejam verdadeiros, mas sempre deixando a dúvida pairando no ar). Ao caminhar pelos campos onde será instalada uma represa, o engenheiro se deparar com um círculo de terra cinzenta, esfarelada, onde nada cresce e até a Natureza parece se afastar do local com medo. Ao tentar entender por que se sentiu tão inquieto, o narrador investiga a história da antiga família que morava no local e chega até uma testemunha ocular – Ammi Pierce – que lhe conta a história.

Em certa noite do passado, um meteoro caiu nas terras de Nahum Gardner. Este objeto vindo do espaço possuía estranhas propriedades cromáticas, e é um grande mérito do autor tentar explicar cores que os olhos humanos jamais viram. Os cientistas investigaram o meteoro, em especial o fato dele latejar e parecer sangrar. No entanto, logo o meteoro desapareceu, atingido por uma ampla sucessão de raios em uma tempestade. A partir deste momento, inicia o drama da família Gardner, pois o ser vindo do passado consume matéria orgânica e não tardará a consumir os espíritos e corpos dos habitantes do local.

Neste conto, Lovecraft abandonou a temática do horror e abordou a ficção científica, em especial o estranhamento causado pela chegada de elementos alienígenas que não seguem as leis naturais do nosso planeta. No entanto, se a história pudesse ser sintetizada desta forma, seria uma grande injustiça, pois Lovecraft conduz os personagens pelo drama com extrema perícia. Ele constrói a cena de tal forma que a história se torna visível, em um crescendo de sensações que vão do estranhamento até o mais absoluto medo. Contribui para este efeito sufocante o fato da criatura que se esconde na propriedade dos Gardner jamais ser vista, somente as consequências dos seus atos geram repercussões; os poucos momentos em que a criatura surge são na forma de visões distantes ou no canto do olho do protagonista e, por isto mesmo, não são confiáveis, são como sombras em um espelho. Quando o narrador, depois do ser desconhecido lançar-se de volta ao espaço em uma explosão de luzes, vira e vê uma silhueta furtiva ocultando-se no poço é impossível evitar o arrepio.

Em muitos aspectos, “A cor que caiu do espaço” é um conto exemplar. No entanto, uma característica bem determinada da época em que Lovecraft escreveu aparece no livro e, lendo com olhos pós-modernos, torna-se um pouco cansativa. São as falas literalmente transcritas, imitando o linguajar caipira do personagem, repleta de erros de grafia. Apesar da intenção ser o contrário, as falas acabam soando falsas e destoadas da verossimilhança. Ainda bem que são poucos os momentos em que tal fato ocorre, o que não gera grandes problemas para o desenvolvimento da leitura. Recordo que, em outros contos de Lovecraft nos quais esta opção narrativa aparece em mais diálogos, a leitura se tornava muito mais maçante. Ou seja, até na parte chata o conto se salvou.

Gosto muito da capacidade que o Lovecraft tem de “esticar” a frase e a ideia, levando-a até o seu limite sem parecer que esteja “enrolando” o leitor. Como possui um excelente domínio da palavra e controla a história com mão de ferro, Lovecraft faz o que deseja com as frases, alongando-as para ampliar o suspense. Alguns podem achar isto chato, mas eu considero fascinante, até por que as ideias são sempre novas e nunca se repetem. É preciso habilidade para fazer isto.

Com relação aos três ensaios, eles são bem interessantes. “A confissão de um cético” e “Notas sobre uma não entidade” são praticamente ensaios biográficos. Em ambos, Lovecraft identifica como sua maior característica o ceticismo, assim como destaca que o seu afastamento da religião ocorreu por não conter todas as respostas e pretender imposições ao invés de discussões. Ele próprio destaca que, ao contrário do que muita gente poderia pensar sobre as suas histórias de horror, a sua vida é muito simples, e ele não apresenta nenhuma circunstância psicológica adversa, posto que amava e era amado pelos seus pais, sempre teve amigos e uma vida social intensa e não gostava muito de viajar. Com isto, Lovecraft investe diretamente contra a teoria (descabida) de que um escritor que lida com o sobrenatural e o terror possui uma vida psicológica problemática. Destaque especial para a narrativa do que Lovecraft fazia durante a sua infância, os passeios que dava pela vizinhança em busca de elementos estranhos, mágicos, assustadores. Vista pelos olhos de Lovecraft, Providence adquire novas possibilidades repletas de mistérios. Vou transcrever um trecho do ensaio:

Nas ruas pacatas da minha cidade natal, onde portas coloniais dotadas de claraboias, janelas com pequenas vidraças e graciosos coruchéus georgianos ainda mantinham vivo o glamour do século XVIII, por vezes eu sentia uma magia difícil de explicar. O pôr do sol acima dos telhados da cidade, visto a partir de locais privilegiados na grande colina, instilava-me emoções pungentes.

Esta descrição do autor americano confirma uma das minhas teorias principais sobre o ato de escrever: antes de mais nada, escrever é observar com outros olhos a mesma realidade. A escrita está na imaginação, a qual se sobrepõe sobre o real. No caso de Lovecraft, a sua verve criativa se expressava pelo extremo do horror, a ebulição negra que se escondia por trás de uma aparência de normalidade.

O ensaio “Notas sobre ficção interplanetária” é uma “Poética” para o gênero da ficção científica. Lovecraft se insurge contra as pulp fictions, que insistiam em flagrar repetições de dramas humanos em outros planetas, e discorre sobre o fato de que uma ficção científica só pode ter este nome se levarmos em consideração que outros planetas possuem outras formas de vida e outros sistemas de geografia, política e economia. São considerações muito relevantes, ainda mais por que Lovecraft insiste em frisar que uma história de cunho fantástico, para ser verossímil, precisa ser muito forte na descrição das paisagens e nos fenômenos narrados, uma vez que o leitor precisa vivenciar o espanto dos personagens como se fosse seu. A ênfase do conto sempre deve ser a anormalidade central em si, jamais os personagens e seus dramas comezinhos, os quais serão inseridos no contexto do anormal. Novamente cito Lovecraft, pois a lição é de extrema importância:

Tudo o que um conto maravilhoso almeja é pintar, de maneira séria, o retrato convincente de um determinado sentimento humano. No momento em que se tenta fazer qualquer outra coisa, o conto torna-se barato, pueril e irrelevante. Logo, um autor fantástico deve perceber que a ênfase diz respeito à insinuação sutil – a pistas e pinceladas discretas relativas a detalhes associativos que expressem diferentes tonalidades de sentimento e componham a vaga ilusão da estranha realidade do elemento irreal – e não a listas inócuas de acontecimentos fantásticos sem nenhuma substância ou relevância senão como nuvens de cor e simbolismo.

O ensaio representa um bom encerramento para o livro. Primeiro, Lovecraft dá a lição, revelando um conto perfeito; no final, explica como a magia foi feita. Pode-se pensar que esta explicação posterior estragaria o conto, revelando uma fórmula encontrada pelo escritor para iludir os leitores, mas a marca da habilidade de um escritor é quando revela as engrenagens do próprio texto e, ainda assim, a história se sustenta sozinha sem a sua intervenção. Da mesma forma que ocorre em “A filosofia da composição”, de Edgar Alan Poe, Lovecraft revela a sua Poética insana no momento em que se debruça sobre os próprios medos e os torna universais. Revelar os segredos que guiam a sua escrita é acrescentar somente um pouco de técnica nas suas visões do horror que caminha entre nós, entremeado no cotidiano, espiando de cada buraco de esgoto.

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Arquivado em Literatura, Lovecraft, resenha

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