Preparando o último pensamento

Uma das mais antigas dúvidas dos homens é saber o momento da morte. É uma curiosidade inútil. Quando a hora chegar, morreremos de qualquer jeito.

Mais importante seria refletir sobre o último pensamento que teremos antes de morrer. O que passará pela nossa cabeça antes do desligamento das funções vitais? Teremos tempo de saber que a morte é inevitável? Recordo que, na Revolução Francesa, era costume do carrasco decapitar as pessoas e pegar a cabeça arrancada, virando-a para o corpo ensanguentado. A consciência sobrevive alguns momentos mesmo com a cabeça fora do corpo (13 longos segundos, de acordo com o bendito Google). Sabe Deus como as pessoas conheciam este detalhe na Revolução Francesa (não imagino que alguém tivesse perguntado para uma cabeça o que ela estava vendo, assim como não imagino a cabeça sendo replantada e a pessoa respondendo perguntas dos curiosos). No entanto, era uma grande crueldade arrancar a cabeça de alguém e depois exibi-la para o próprio corpo do qual ela foi alijada. Mais uma para o rol de bestialidades humanas.

Teremos tempo para pensar, antes da dor assumir o leme ou antes do corpo desligar em um gesto piedoso? Os filmes tratam de um momento em que o tempo pára e a pessoa vê a vida toda passar diante dos seus olhos, como se um balanço geral da existência fosse realizado; desde o Livro da Morte dos egípcios se pensa nisto. Porém, não temos maneira de saber se é real. Acho mais provável que, da mesma forma com que a vida foi ligada, a morte desliga os plugues do ser. Por este motivo, acho mais relevante pensar no segundo imediatamente anterior, no último pensamento antes do fim.

Os estoicos afirmam que, quando repassamos pela mente as imagens da própria morte, ela nunca nos pegará de surpresa. Por estarmos bem preparados, teríamos liberdade para viver sem medo. Pensando fixamente na morte, estaríamos treinando para o instante em que a verdadeira vai chegar e transformar o treino em jogo. Ainda para os estoicos, tão importante quanto a forma como alguém vive é a maneira com que esta pessoa morre.

Por muito tempo, eu pensei em qual seria a frase ideal para encerrar a minha vida, aquela que colocaria um ponto final adequado. Tive que criar alguns critérios. Ela precisaria ser curta – não sei quanto tempo terei e qual o grau de consciência que serei capaz de manter. Tem que ser marcante – frases insossas, do tipo “o ônibus vai parar” ou “esqueci de telefonar para fulano!”, não servem. Precisaria ser definitiva. Não gosto muito da ideia de um plágio intelectual, do estilo “Mais luz!” (Goethe), “todo o meu reino por mais um minuto de vida” (Rainha Elizabeth I), “rasga os meus versos, crê na eternidade” (Bocage). Este estilo de frase soaria ensaiado e falso. Seria bonito para os outros lerem, mas não me definiria.

Depois de várias eliminatórias e indagações, somente uma frase se manteve na minha cabeça como a ideal. É inacreditável que, depois de tantos anos de leitura, a única sentença que eu gostaria de ser o meu último pensamento tenha sido escrita pelo roteirista e desenhista de quadrinhos Frank Miller. É a frase que eu mais lembro e, em situações onde eu imagino que a morte esteja próxima, ela salta na minha recordação com força.

A frase está em “Batman – O Cavaleiro das Trevas”. Logo na primeira página. Bruce Wayne está dirigindo um carro de Fórmula Um em chamas. Ele está prestes a atravessar a linha de chegada e o carro queima cada vez mais intensamente. Olha o fim da corrida (da vida?) e pensa: “Seria uma boa morte… mas não o bastante.”

Não é uma frase especial. Nem tão inesquecível assim. Posso citar outras muito mais famosas e brilhantes . No entanto, esta sentença foi aquela que a minha recordação fixou para ser a última. Não fui eu quem a escolhi; acredito que ela tenha me escolhido. No meio do oceano das frases soltas que trafegam entre livros, esta aderiu na minha cabeça e cresceu como um cancro, firmando os seus dentes na seiva da alma.

Devo admitir que é uma sensação bem estranha: saber que já tenho o último pensamento. Seria algo lúgubre, mas os estoicos afirmam que só quem se prepara para a morte todos os dias pode usufruir dos prazeres de estar vivo. E o pior é que funciona – atravessando as ruas sempre perigosas de Porto Alegre, passando por grupos cobiçosos de bandidinhos drogados, vendo carros tão próximos de me acertarem em velocidade insana, tudo o que acorre na minha cabeça é “Seria uma boa morte…”. Estas reticências são realmente mágicas, são o espaço ideal de confirmação ou não da frase que lhes antecede. Passado o momento de perigo, com o consequente alívio, o complemento surge: “… mas não o bastante”.  O dia em que eu não concluir a frase será o meu último na Terra. O dia em que a boa morte me encontrou.

Portanto, uma coisa posso garantir: não sei o que vai acontecer na minha vida nos próximos anos. Tudo o que sei é qual será o último pensamento. Sabendo qual será a luz que guiará o abandonar final das minhas funções vitais, agora posso me concentrar em viver o melhor que posso para estar à altura da frase.

“A Vida e a Morte”, por Gustav Klimt. Gosto da divisão nítida do quadro e o espaço discreto que separa o morto do lamento dos vivos.

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2 Comentários

Arquivado em Estoicismo, Filosofia, Frank Miller, Morte, Quadrinhos

2 Respostas para “Preparando o último pensamento

  1. Kelli Pedroso

    Eis algo que me inquieta bastante.

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