Livro: “Antes que os espelhos se tornem opacos”, de Juarez Guedes Cruz

Uma das mais duras lições que um leitor dos livros do Juarez Guedes Cruz aprende é que não existe nada por acaso. Nem mesmo o marcador de páginas utilizado escapa impune da sensação de fazer parte de uma trama cósmica que envolve literatura, sentimentos e fatos ordinários vistos com extremo lirismo. Por este motivo, a leitura precisa ser atenta. Vive-se com a constante sensação de que basta uma piscadela ou uma leve desatenção para que o elemento principal da história se perca. O novo livro, “Antes que os espelhos se tornem opacos”, lançado pela Dublinense, leva esta impressão ao máximo. Assim que encerrei a última frase, minha primeira vontade foi reiniciá-lo e tentar rastrear todos os detalhes que escaparam da primeira leitura (e acredito que tenham sido vários). No entanto, não realizei este movimento inexorável de me tornar o leitor infatigável e eterno de um único livro, pois sei que uma das intenções do autor é justamente esta: deixar o seu livro tão instável e trêmulo que cada leitura nova o encontrará como se tivesse acabado de desabrochar de dentro do computador.

Em recente discussão em um grupo de apreciadores da boa literatura, conversamos sobre qual o ramo ou o estilo literário em que o Juarez se encaixaria. Eu defendi a tese de que Juarez Guedes Cruz está abrindo um novo estilo, que seria a literatura intertextual. Toda literatura é intertextual, mas os autores se esforçam para esconder as suas influências, como se fosse vergonhoso admiti-las. Na minha opinião, o que diferencia o Juarez de outros escritores é justamente o fato de que ele aceita ser uma criatura intertextual, uma colcha de retalhos formada por múltiplas vozes narrativas e, não só isso, ele gosta de se esconder ou se revelar por trás desta névoa discursiva. A chegada do terceiro livro forneceu novos argumentos para defender o meu ponto de vista.

Antes de mais nada, algumas palavras sobre intertextualidade. Existem pessoas muito sábias que abordaram este conceito. Existem livros inteiros sobre o assunto. Este é um dos conceitos basilares da própria Literatura Comparada, algo que, admito, dá um certo medo na hora de tratar assunto tão importante. O que posso dizer – e não será nenhuma novidade ou revelação bombástica, e sim uma breve explanação para quem não sabe os rudimentos da ideia – é que a intertextualidade é a capacidade de que os textos possuem de dialogar com outros textos, revelando as sombras de autores (ou “influências”, para usar um termo carregado de sentidos literários). Seria um processo digestivo: os autores lêem outras obras e, no momento de escrever a sua obra, de forma consciente ou não, acabam transferindo estes influxos para o próprio trabalho. Claro que estou minimizando o conceito e que existem dezenas de outros assuntos ligados à intertextualidade, mas é um bom início.

Muitos escritores lidam com a intertextualidade. Posso citar os nomes de dois escritores atuais que gosto muito e que também utilizam jogos intertextuais, Enrique Vila-Matas e Antonio Xerxenesky. No entanto, o que diferencia o Juarez Guedes Cruz é que ele convive de forma pacífica com as suas influências. Era de se esperar que, em um movimento freudiano (sim, hoje estou vivendo perigosamente; minha casa não tardará a ser cercada por teóricos da Literatura Comparada e psicanalistas com tochas e forcados), ele tentasse “matar o pai”, acabar com a sombra nefasta que se prorroga na sua obra. Contudo, o autor não dá importância para as suas fontes de referência. Inclusive presta homenagens aos artistas que admira a cada curva e esquina do livro. Um leitor desavisado poderia imaginar que os autores e obras mencionados por Juarez são as suas únicas influências. No entanto, me interessam mais as sombras que ele escondeu atrás das que foram escancaradamente reveladas, pois, por trás da urdidura de ficcionistas e ficções que sustenta os contos de “Antes que os espelhos se tornem opacos”, existe uma outra rede subterrânea de autores, cautelosamente espalhados e que costumam aparecer através de ecos de frases já lidas ou situações repetidas.

Aliás, “repetição” é uma das palavras chaves do livro, articulada de várias formas. Faz parte da natureza humana uma inevitável tendência de repetição dos dramas: em “Projeto Parmênides”, o narrador clona a mulher amada para burlar a morte, mas se esquece que nem mesmo um clone pode reprisar a personalidade de outra pessoa, ou aquele brilho singular de olhos. “Terrenos baldios” possui a repetição de um mesmo gesto em três tempos diferentes e com três motivações distintas; até mesmo os gestos repetidos podem variar no seu conteúdo (por sinal, a referência a “O Aleph” de Borges na localização do ponto da escada em que o momento mágico ocorre é um ótimo exemplo de homenagem quase despretensiosa plantada no texto). “Conto para incomodar Heráclito” (um dos meus favoritos) brinca justamente com a impossibilidade de repetição; é difícil lê-lo sem recordar a tarefa impossível a que se propõe Pierre Menard, pois a repetição de um ato sempre será um ato novo, por mais idêntico que se pareça com aquele que lhe originou.

Outra palavra chave para decifrar o livro seria “identidade”. Um dos problemas de enfrentar a intertextualidade é sentir a própria voz dissipar no meio das vozes alheias. O escritor é uma voz ficcional acorrentada à necessidade de gerar verossimilhança ou é um ser dotado de vontade própria e carnalidade? O autor enfrenta esta questão e, como não poderia deixar de ser, não consegue respondê-la. Deixando a prudência de lado, o próprio Juarez Guedes Cruz invade os contos. Em “Estender-se a Limites Incomuns”, a narrativa tranquila de um casal que começa a se conhecer é interrompida pela intervenção quase física do próprio autor, que pergunta se vale a pena contar esta história ou qualquer uma, situando a literatura como uma forma de memória ou, até mesmo, a maneira ideal de atingir a imortalidade de um sentimento. Em “Cento e Vinte”, após contar trechos desordenados de histórias como se estivesse ensaiando um conto, o autor novamente ingressa na história para se angustiar sobre a futilidade da literatura quando comparada à morte de crianças ao redor do mundo. A busca por identidade pode ser sintetizada em uma frase exemplar, presente no conto “O Manifesto Tyler” (outro dos meus favoritos, com a visão destrutiva da realidade que ele propõe), cujas implicações inquietantes percorrem o livro em uma corrente elétrica: “Desfaça-se, então, quando eu disser dez, do estranhíssimo costume e do incômodo compromisso de ser alguém”.

A busca pela identidade acaba levando ao duplo, ao simulacro, ao fantasmagórico. Em “Pietà”, o homem moribundo na cama reprisa a escultura da Pietà, sonhando que está morrendo ao mesmo tempo em que revive um episódio repleto de vida. Sente-se uma forte influência de Cortázar neste conto, assim como o reflexo distante de “Um sonho dentro de um sonho”, do Edgar Alan Poe. Por sua vez, a relação entre dois irmãos em “Um poema e sua ausência” mistura as identidades de ambos, jogando com o tempo da própria narrativa. O conto que melhor exemplifica esta busca pelo duplo ainda é “Antes que os espelhos se tornem opacos”. Pena que a referência inicial à Cortázar tira boa parte do clímax do conto para quem conhecia o original. Acaso tivesse sido omitida a referência, talvez o conto fosse mais eficaz, uma vez que ele se despega facilmente da inspiração e possui vida própria apesar da repetição (ela novamente) das situações. Inclusive “Continuidade dos parques” de Julio Cortázar é muito diferente, pois trata de uma relação entre ficção e realidade, enquanto que, no conto do Juarez Guedes Cruz, a circulariedade proposta aborda a repetição de temas e situações no âmbito de uma família. Lembrou-me mais Horacio Quiroga do que Cortázar, inclusive, por causa do suicídio vinculado à alguma forma genética ainda desconhecida.  O mesmo esvaziamento de sentido ocorreu em “Ruínas”, com uma referência direta ao conto “As ruínas circulares”, de Borges: eu preferiria que não existisse esta menção no início, deixando-a cifrada nas entrelinhas. Até por que, novamente, o conto se despegou – e muito – da história homenageada e virou algo inédito.

Para dar conta das histórias, Juarez também tenta compartimentalizá-las, isolar o sentimento, dissecá-lo. Consequência necessária desta atitude é o surgimento de contos com subdivisões numéricas. Assim, existem doze maneiras de conquistar Virgínia (“Doze Passos para Chegar à Alma de Virgínia”), dez postulados para o caos universal (“O Manifesto Tyler”), cento e vinte crianças que morrem por minuto (“Cento e Vinte”), três possibilidades para a morte de um personagem (“Três versões sobre a morte de Antonino Wallace”) e outros. Seria interessante abordar a necessidade de dividir algo para entendê-lo, se seria um reflexo pós-moderno ou a simples angústia do autor de transcrever um sentimento por meio da palavra sempre insuficiente. No entanto, não é momento para este tipo de indagação, que merece um tratamento distinto e um estudo aprofundado próprio. A obra do Juarez Guedes Cruz desperta tantas inquietudes que a vontade de dialogar com o texto é muito forte.

Um último, porém necessário, parênteses deve ser aberto em relação ao conto “Três versões sobre a morte de Antonino Wallace”. Da mesma forma que “Mil Noites e Uma” (que tratei anteriormente no blog), este pequeno conto é um verdadeiro primor de estilo e técnica, sem contar que também é uma teoria literária. Para ser verossímil, uma experiência precisa ser integralmente vivenciada pelo autor? Questão difícil de responder. A menção a Flaubert, covarde que não levou a proposta de experimentar a morte às últimas consequências (pois então ele morreria e seria incapaz de narrar), é extremamente oportuna e, eu diria, uma espécie de ironia velada ao realismo. O conto fornece três opções para a morte do personagem, mas todas se relacionam com a literatura e a invasão da ficção no real. No fundo, este é o ideal de todo artista, ver a irrealidade tomar espaço dentro do mundo concreto. Tantas implicações possui este conto na sua forma de ver a literatura – e tantas lições os escritores podem retirar da história de Antonino Wallace – que ainda não consegui meditar profundamente sobre o assunto (e já li este conto algumas vezes). Sem contar que possui o melhor início de conto que li nos últimos anos: “Não deixa de ser intrigante que, pouco depois de cumprir cinquenta e oito anos, Antonino Wallace tenha sido vitimado por um infarto do miocárdio enquanto lia o livro L’infarto cardiaco, do doutor Alberto Harte”. Grande e instigante início para uma história que vincula literatura e mistério.

Terminada a leitura de “Antes que os espelhos se tornem opacos”, o saldo final foi extremamente positivo. Não é todo dia que se lê uma obra repleta de considerações filosóficas, temas cotidianos abordados sobre outra ótica e um extremo lirismo. O terceiro livro do Juarez Guedes Cruz atendeu todas as necessidades dos seus leitores. E deixou-os na expectativa do próximo livro, o que é algo egoísta de exigir de alguém que acabou de lançar uma obra nova. Mas este é o problema de ler um livro cheio de respostas: continuamos esperando as perguntas, continuamos tentando entender este terrível incômodo de ser alguém – e o Juarez Guedes Cruz parece saber a resposta.

Em tempo: o marcador de páginas que utilizei durante a leitura tem a propaganda de um livro, “Antropofagia Hoje? Oswald de Andrade em cena”. Ainda estou tentando entender as implicações deste marcador com o livro do Juarez Guedes Cruz – seria um indicativo de que o Juarez é, além de tudo, um canibal de outros escritores? Aí está um assunto interessante para ser refletido.

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Arquivado em Crítica Literária, Intertextualidade, Juarez Guedes Cruz, Literatura, resenha, Temas de crítica literária

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