É assim que a idade chega

A melhor maneira de se locomover em Porto Alegre, nos dias de chuva, é através de lotação ou de ônibus. Eles não atrasam, não se alongam inventando percursos e os motoristas possuem uma insuspeitada capacidade de se desviar dos outros veículos e seguir em frente. Pena que poucas pessoas saibam deste detalhe, e as ruas continuam entupidas de carros.

Hoje, no momento de descer da lotação, eu disse para o motorista que queria descer na Escadinha. Para quem não sabe (e, pelo visto, é um monte de gente), a Escadinha é o nome que dão para a escada que fica logo abaixo do Viaduto próximo à Santa Casa. Dotade de três degraus, ela chega em algo que foi uma pequena fonte e, atualmente, é só uma maneira de atravancar o caminho.

O motorista era um senhor de idade. Virou-se para mim, os olhos arregalados, e falou que há muito tempo ninguém pedia para ele parar na Escadinha. Aquele nome foi usado por muitos anos, mas, nos tempos atuais, tinha caído em completo desuso. Perguntei para ele como as pessoas comunicavam a sua intenção de descer naquele local, e ele me disse que os passageiros agora grunhiam algo ou apontavam. O local que se chamava Escadinha tinha virado um dedo apontado e um resmungo (não, não vou falar em Linguística novamente, e a teoria de que todas as línguas tendem à simplificação cada vez maior dos signos, em um processo de compressão inexorável, o qual – na minha imaginação – sempre acaba com os homens voltando a serem macacos e escalando árvores com uma sequência de sons e gestos rudimentares).

Não pretendo dizer que esta situação me fez pensar na velhice, pois o assunto passou longe da minha cabeça, até por que a velhice ainda está longe no horizonte (não tanto quanto já esteve, mas a sua sombra ainda é isto – uma sombra). Eu pensei que é assim que a idade deve chegar: com nomes que desaparecem, com lugares não mais recordados, com o esmaecimento de pessoas e situações. O Tempo possui uma incrível capacidade de apagar tudo, mas a memória se mantém. Eu ainda recordo da primeira vez em que alguém disse que era melhor descer na Escadinha e contornar a Santa Casa, e lembro que pensei “Escadinha… aí está um nome lógico”. Recentemente, este lugar já passou para a arqueologia dos lugares não mais mencionados, destinado a se apagar na vertigem do mundo moderno. O motorista ainda recorda, mas, daqui a alguns anos, só eu saberei o que era a Escadinha. Pois a idade chega e, tal como a maré, leva consigo tudo.

Não é tão difícil entender o motivo das pessoas identificarem lugares com nomes de lojas não mais existentes, ou trocar nomes de ruas por nomes de um passado distante. Meu pai ainda chama o ponto de encontro entre a praça da Alfândega e a rua da Ladeira de “Largo dos Medeiros”. Talvez  seja o nome oficial, mas ele me explicou que era naquele local que os Medeiros se encontravam. Tenho uma vaga ideia de quem sejam alguns Medeiros, mas não todos. Além disso, por que eles precisavam se encontrar na rua e não na sua casa? Retornarei uma hora aos livros de História com esta dúvida. Os marcadores de lugares que meu pai passa alternam locais não mais existentes com outros que ainda sobrevivem, fazendo um mapa muito diferente daquele da realidade, uma cidade em que passado e presente se misturam de tal forma que os limites das ruas se tornam indefiníveis.

Um dos primeiros sintomas de que a idade está chegando deve ser este: viver em um mundo paralelo, oscilando entre diferentes épocas do tempo. Um mundo onde a Escadinha ainda existe. Um mundo no qual as pessoas colocam nomes nos lugares, ao invés de identificá-los com grunhidos. Pensando por este ângulo, talvez o advento da idade e a possibilidade de viver mais no sonho do que no mundo atual não seja algo tão ruim.

Gustave Klimt, “As Três idades”. E todas elas vivem dentro de um mesmo corpo. Isto é algo admirável.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Centro, Generalidades, Linguística, Lugares, Porto Alegre

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s