Escrever ou morrer. Simples assim.

Muitos anos atrás, eu fiquei brabo com o Juarez Guedes Cruz.

É quase impossível ficar brabo com o Juarez, um dos seres humanos mais sensíveis e educados do mundo, mas eu fiquei. Isto por que, no momento de fazer a seleção de contos que incluiria em “A cronologia dos gestos”, seu primeiro livro, ele excluiu aquele que eu considerava o seu maior conto: “Mil Noites e Uma”. Recordo que, na época, eu lhe disse que era imperativa a inclusão deste conto, mesmo que acabasse se tornando inevitável a exclusão de outro conto (o que também seria uma experiência dolorida). No entanto, Juarez ouviu as minhas reclamações e admoestações com seu sorriso educado. Esfíngico, eu acrescentaria.

Bem, “A cronologia dos gestos” foi lançado, e eu o considerei um dos melhores livros que já li. Não só eu considerei: o Juarez ganhou um Açorianos com ele. De certa forma, ainda bem que não me escutou, sabe-se lá o estrago que a inclusão deste conto e a exclusão de outro poderia acarretar na trajetória vitoriosa do livro.

Anos depois, o Juarez se redimiu comigo. Ao fazer a seleção de contos para “Alguns procedimentos para ocultar feridas”, seu segundo livro, ele incluiu “Mil Noites e Uma”. Claro que não fez isto por minha causa, e sim por que o conto devia estar batendo na sua memória, ansioso para vir ao mundo e se revelar para as centenas de leitores que o desconheciam. Gosto de imaginar que o autor acabou sendo movido por uma necessidade muito mais premente: o conto deveria existir por que a história dele é muito maior do que a sua construção em palavras pode presumir. “Mil Noites e Uma” é maior do que o seu autor. O que está expresso em “Mil Noites e Uma” é o próprio drama da literatura: escrever e contar para não morrer.

A história é simples e, quando isto acontece, em especial com o Juarez Guedes Cruz, ela é ainda mais fluida e enganosa. Dois bandidos foram capturados por um inimigo chamado Esfinge. Os dois conversam, e sua linguagem é intercalada por gírias, xingões e aquela pretensa cultura que duas figuras vindas da cultura popular tentam emprestar ao discurso para torná-lo mais respeitoso. Um deles diz que o Esfinge os libertará se eles criarem uma frase bacana. Com o intuito de salvarem as próprias vidas, els tentam elaborar frases legais, e acabam criando clássicos consagrados pela Literatura, elencando sentenças de Dante, de Shakespeare, de Camões, de Kafka.

Muitas pessoas se espantam quando eu digo que este é um dos melhores contos que já li, colocando-o no mesmo patamar de Borges, de Cortázar, de Hemingway, entre outros. Eu próprio me espanto em constatar que os anos passam e a recordação deste conto continua latente na minha cabeça.

Após muito ler e reler a história, acredito que sei a resposta. Ela inicia pelo título. Vou deixar de lado a referência – óbvia – ao drama de Scheherazade, obrigada a criar uma história por dia para o sultão e, assim, prorrogar a própria vida. Vou concentrar a análise em outro tópico. O Juarez poderia ter escolhido como título a versão brasileira do clássico, colocando no conto o título “Mil e Uma Noites”. No entanto, o autor optou pela versão consagrada por Sir Richard Burton, intitulando o conto de “Mil Noites e Uma”. Nada é por acaso. “Mil e Uma Noites” passa uma idéia de que o espaço de tempo que Scheherazade teve que encantar o sultão foi determinado, durando exatamente 1001 noites. No entanto, com a simples mudança de duas palavras e a transformação em “Mil Noites e Uma”, este marcador temporal deixa de existir. A duração do suplício criativo de Scheherazade passa ao infinito: mil noites e MAIS uma, mil noites e uma e MAIS uma, mil noites e duas e MAIS uma. Scheherazade ainda está contando história atrás de história, e assim passará por toda a Eternidade; podemos ouvir a sua voz de areia por trás de todos os livros que lemos. Da mesma forma que o Esfinge continuará pressionando bandidinhos incautos a lhe deleitarem criando frases bonitas pelo resto do Tempo, pois a Literatura é imortal. Sempre existirão histórias para serem contadas, Scheherazade nunca morrerá, pois descobriu o segredo da vida eterna – viver dentro da história alheia.

Em seguida, causa encantamento e estranheza o desnível abrupto da linguagem dos bandidos. A sua fala é popular, entremeada de expressões simplórias como “tá ligado”, “se achando o fodão”,  “só tu pra nos meter numa porra dessas”. No entanto, às vezes afloram estruturas semânticas de alta complexidade que, como uma pororoca, colidem energicamente contra a linguagem popular. Nas mãos de um escritor inábil, o diálogo soaria falso, inverossímil. No entanto, Juarez faz o milagre de soar verdadeiro por um interessante jogo com as palavras. Os bandidos falam a língua das ruas e, de repente, eles criam expressões e frases de clássicos da Literatura. Logo após esta epifania, ao invés de retornarem rapidamente à linguagem popular, eles fazem uma transição sutil. O discurso erudito que acabou de se apossar do corpo dos personagens é atenuado e enfraquecido, até virar a linguagem popular novamente. Graças à forma segura com que a transição entre linguagens acontece, os bandidos parecem o que são: dois homens em uma situação limite, pressionados e necessitando usar o máximo de imaginação possível para escapar da morte.

E, agora, chegamos ao ponto chave do conto. Uma frase que o Juarez gosta de citar vem de um samba popular (da mesma forma que os personagens de “Mil Noites e Uma”, o Juarez oscila entre o erudito e o popular): “samba é que nem passarinho, está no ar para quem quiser pegar”.  Se levarmos esta sentença às últimas consequências, podemos presumir que as frases emblemáticas dos grandes clássicos da Literatura (e, por que não, as histórias completas, os poemas, tudo) estão no ar, vibrando em uma onda quase imperceptível para a grande maioria das pessoas, mas possível de ser captada por quem estiver na sintonia certa. Todos podem ser Kafka, Cervantes, Camões, Dante, Shakespeare. O único requisito para se tornar estes escritores é ouvir a sintonia das histórias invisíveis que cercam o mundo em uma rede.

(Uma pequena pausa: recentemente, tomei conhecimento da existência de uma teoria quântica que pretende explicar o mundo dizendo que somos todos um único organismo, e que carregamos os genes de todos os humanos que nos antecederam e nos sucederão. Antes de prosseguir, devo realçar que achei uma grande bobagem. Isto sem contar que os meus pruridos teóricos se viram escandalizados ao ver esta teoria sendo aplicada na área literária com resultados praticamente criminosos. No entanto, como eu disse, com o Juarez, nada acontece por acaso. E esta teoria lembra muito a ideia defendida por Platão, de que cada homem possui no seu interior o conhecimento de tudo e, quando aprendemos algo, estamos simplesmente recordando algo que já sabíamos).

No caso do conto, a sintonia com a Literatura é atingida por meio do medo da morte. O Esfinge coloca os dois bandidos em uma encruzilhada: ou eles criam ou eles morrem. E, meus amigos, quem está com o pescoço na reta, sentindo a morte dobrando o corredor e ouvindo a lâmina da foice rasgando a parede, faz qualquer coisa… até mesmo escrever os maiores clássicos da Literatura. O ato de criar envolve uma pulsão de morte. Tal como Scheherazade, escrevemos para não morrer. E, quanto mais forte for esta pulsão, mais urgente será a literatura, mais verdadeira e mais entranhada no sangue. Não digo que somente moribundos escreveriam obras literárias dignas de relevo, longe disto. Digo que as apostas do jogo são altas. Não existe maneira de se esconder. É tudo ou nada: ou a pessoa escreve com os colhões na mão e a faca imaginária no pescoço ou não escreverá nada. A entrega deve ser completa. O mergulho na dor também. Não existe possibilidade de que este movimento se dê por metade, assim como o Esfinge não poderia deixar os bandidos meio mortos ou meio vivos. É ganhar ou perder, criar ou morrer. Simples assim.

Não poderia encerrar a minha análise sem revelar um dos segredos que o Juarez escondeu dentro do conto (se foi intencional ou não, é irrelevante). Quem é o Esfinge? Tinha uma certa esfinge famosa que atormentava os viajantes de Tebas. E qual era a frase dela? “Decifra-me ou te devoro”. Para não serem mortos, os bandidos precisam criar frases de vigor literário. Não seria de todo impossível que o Esfinge seja a própria Literatura, materializada em forma humana para exigir tributos criativos dos incautos. Da mesma forma, não seria impossível imaginar que o sultão de “Mil Noites e Uma” também fosse uma visão da Literatura, escolhendo as histórias que merecem sobreviver, contadas pela primeira escritora.

Estes são os motivos que me levam a admirar “Mil Noites e Uma”, conto exemplar de Juarez Guedes Cruz presente no livro “Alguns procedimentos para ocultar feridas”. Nem tanto pelo o que ele diz, mas pela lição de vida e pela maldição que encerra. Como a mariposa apaixonada pela morte, eu insisto em retornar a este conto e, cada vez que o releio, ele insiste em me fazer lembrar o que é escrever. Insiste em mostrar que a Literatura está vagando pelo ar e que, se eu for incapaz de senti-la, a morte é o único destino aceitável. Portanto, escrevo. Portanto, escrevemos. Estamos sentados ao lado de Scheherazade nas almofadas do sultão, contando história atrás de história e rezando para que elas continuem mantendo viva a chama do seu interesse.

Juarez Guedes Cruz, grandessíssimo cronópio.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Juarez Guedes Cruz, Literatura, Morte, resenha

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s