DVD: “Iron Maiden – En Vivo”

Até que demorou bastante para que abordasse o tema “Iron Maiden” no blog. Levei sete meses sem tocar neste assunto que me é tão caro e importante, o grupo musical que mais ouço e mais respeito. Tenho todo o material do Maiden e, em postagens futuras, pretendo trocar algumas impressões sobre os CDs e DVDs. No entanto, começarei pelo último, que comprei no dia em que foi lançado e só consegui assistir na semana passada, enquanto convalescia de misteriosas dores abdominiais (ainda não resolvidas).

“Iron Maiden – En Vivo” é o registro em vídeo da turnê “The Final Frontier Tour”, e foi gravado quase totalmente no Chile (algumas partes foram na Argentina, como o DVD confessa em determinado momento). A formatação do show é clássica, quase enfadonha: primeiro mostra as pessoas chegando, gritando, chorando, beijando camisetas e outros escândalos. Depois, o momento que antecede o show, a expectativa. Em seguida, a banda desfila as músicas e o encerramento do show é o final do DVD. Como também é característico no material lançado pelo Maiden, um DVD extra acompanha o pacote, trazendo vídeos de lançamento e promocionais (os quais nunca assisto, sou fã mas sempre me parece uma forma de encher espaço vazio) e o sempre esperado vídeo mais estendido em que o Maiden aborda algum detalhe da turnê ou os backstages. Este último vídeo eu assisto.

Inicialmente, vou abordar o DVD extra, com o vídeo do backstage. Pela primeira vez, o Maiden resolveu contar a história dos heróis anônimos que dão suporte à turnê. É uma quantidade impressionante de gente. Muita coisa precisa ser pensada, ensaiada, meditada. Tarefas que parecem pequenas se revestem de uma importância desmedida. A logística  é um desafio constante. Um exemplo: o Maiden viaja com uma média de 50 a 60 pessoas. Tem que tirar passaportes e vistos de entrada nos países de todo mundo, e eles precisam ser sincronizados com as datas dos shows, pois, se der problema na documentação de uma pessoa, tranca a passagem de todo o resto.

Nesta turnê em específico, o Maiden dispunha de um avião só seu (o “Eddie Force One”). Para entrar todo o pessoal e mais o equipamento dentro do avião, a organização começou a ensaiar a distribuição do material pelo espaço meses antes. Um avião teve que ser especialmente reformado para o projeto. Assim como o deslocamento é hiperlativo, os problemas surgidos também são. O vídeo entrevista cada chefe de equipe responsável por detalhes do show, como instrumentos musicais, mixagem do som, vídeo, fotos, iluminação, palco,  cenário. Cada um deles revela detalhes da sua tarefa que o público quase não percebe, de tão ocupado em assistir o show. Percebe-se que muitos trabalham no Maiden por carinho aos fãs e dedicação à banda, e é admirável ver um pequeno exército tão azeitado para levar e distribuir música ao mundo. Gostei muito dos problemas de comunicação existentes com as diferentes culturas em que o Maiden se apresentou. Gerou alguns momentos muito engraçados.

Em segundo lugar, o show. Há algum tempo eu tenho implicância com a gravação dos shows, por que o Steve Harris (baixista do Maiden) é o cara que toca, compõe, organiza e, ainda por cima, tem a última palavra nos vídeos do Maiden e na mixagem do som. Parece muita tarefa para um cara só e, em alguns momentos, pelo menos no meu aparelho de DVD, “some” o som de uma guitarra, geralmente a do Adrian Smith. Além disso, como o Steve Harris também é fã do Maiden, ele tem o péssimo hábito de “quebrar” a tela em múltiplas possibilidades e visões, enfocando o que cada artista está fazendo no momento. Ora, eu já fui nos shows, e sei que é humanamente impossível que os olhos estejam em cinco pontos diferentes do palco. Na tela da televisão, é ainda pior, pois enfocar cinco quadros pequenos distribuindo-se dentro de uma tela é garantia de que não vai se assistir nada. Outra situação medonha que tenho visto nos últimos DVDs do Maiden é que os cortes de imagens são muito abruptos e violentos, mal se consegue ver os músicos tocando as notas, de tão rápida a imagem é cortada e passa para outro. Eu brinco que o aviso inicial de que o vídeo do Maiden pode causar esquizofrenia é muito mais real do que se imagina, nem tanto pela possibilidade latente disto acontecer, mas sim por que o Steve Harris leva esta possibilidade ao paroxismo.

Retornando ao show: gosto de dizer que o Maiden funciona melhor ao vivo do que no estúdio. Existem músicas sonolentas no estúdio e que ganham uma roupagem vibrante ao vivo, capazes de se tornar hinos. No caso do “Iron Maiden – En Vivo”, foi surpresa que eles não tocaram “Isle of Avalon”, a música que mais gostei no último álbum e que parecia formatada para soar ao vivo. No entanto, tocaram “The Talisman”, “When the Wild Wind Blows” e “Coming Home”, que soaram muito adequadas e instigantes ao vivo. “El Dorado” me deixou indiferente, mas, em geral, não sei o motivo, as segundas músicas dos shows do Maiden me são insossas (exceção a “Ghost of the Navigator”, mas suspeito que mais por causa da letra do que por méritos da música). A abertura do show, com “Sattellite 15” junto com “The Final Frontier” não estava nada agradável.  Não gostei nada da abertura do show nesta turnê. O Maiden gosta de entrar correndo com uma música de trabalho, após uma introdução de cunho histórico ou até mesmo clássico, mas não daquele jeito esquisito, que o público só nota que eles estão no palco muito depois que tal fato aconteceu. Não funcionou.

Com relação às músicas clássicas, corro o risco de ser crucificado pelos metaleiros, mas “Fear of the Dark” já deu o que tinha que dar, eles estão tocando a música de forma cada vez mais desleixada. Está na hora de colocar outras músicas no lugar e, graças a Deus, o Maiden tem um monte. “Blood Brothers” estava muito boa, em especial pelo discurso inaugural do Bruce Dickinson, que só quem já foi em show de metal entende: somos todos irmãos, todos unidos pela música. No Rock in Rio eu vi extremos abraçados cantando as músicas do Maiden. Eu fiz amigos no meio de um show, dividimos bolachas e fui aceito por pessoas que nunca mais encontrarei, no seio de uma cidade na qual não conhecia ninguém. Isto sim é ser um irmão.

“Dance of Death” foi uma revelação. Nem tanto pela música, que sempre gostei, mas por que o Bruce Dickinson deu um show de interpretação digno de um Oscar. Além de cantar, ele interpretou a música, fazendo caras, bocas e gestos. Muito legal. “The Evil that Men Do” mostrou um dos Eddies mais articulados que eu já vi, ele chegou ao ponto de tocar guitarra. Os músicos se comportaram muito bem, e até o histrionismo do Janick Gers estava mais contido neste show. Alguém deve ter dado um toque para ele. Não entendi o motivo, e deve ser uma brincadeira interna deles, mas grande parte do show os músicos ficaram se cutucando e se puxando o cabelo, em especial perto do rosto. E, podem dizer o que quiserem, mas “The Trooper”, com o Bruce Dickinson no fundo e os quatro músicos na frente da plateia como se fosse uma força de ataque resistindo a um inimigo é sempre arrepiante. O truque é velho, mas funciona às mil maravilhas. Quem disse que não podemos gostar de um clichê barato de vez em quando?

Por fim, o show encerrou de uma forma que considerei emocionante, que foi “Running Free”. Há muito tempo não ouvia esta música ao final de um show, e foi um reencontro muito legal, quase como voltar à adolescência. Uma melodia simples, brincalhona, com todo mundo se divertindo. Gosto muito da cozinha entre baixo e bateria enquanto o Bruce está falando com a plateia. No caso de “Iron Maiden – En Vivo”, “Running Free” teve a apresentação da banda pelo Bruce Dickinson, algo que eu não via há um bocado de tempo. Em outras ocasiões, eles não tocavam esta música, preferiam outras, e não se apresentavam (afinal, todos sabem quem são os integrantes do Maiden). Foi muito apropriado. Destaque negativo para os fãs do Chile, cuja último registro no DVD foi o grito uníssimo “Run to the Hills! Run to the Hills!”. Fãs do Maiden, sempre difíceis de contentar.

Os shows do Maiden geralmente são coreografados e, com o passar dos anos, tornam-se previsíveis, mas nem por isto são menos bons. Eu iria novamente em um show deles, e já estive em três. Mas, mesmo no meio de tanto cálculo e precisão, ainda acontecem surpresas, e a mais engraçada neste show foi uma corda que se despegou de uma luminária e ficou na frente da banda. O Bruce Dickinson tentou pegá-la e arrancá-la, mas cada pedaço que ele cortava, parecia que a corda ficava maior. Ele ria, o público ria, a banda ria e dava para perceber que a equipe técnica estava encucada com o assunto. Duas músicas depois deste momento, Bruce conseguiu pegar a corda de jeito e ela caiu inteira da luminária sobre o palco. A plateia inteira urrou como se estivesse comemorando um gol. Foi engraçadíssimo, um momento de espontaneidade no meio do planejamento.

Apesar das minhas divergências pessoais com muitas coisas dos shows do Maiden, continuo comprando os DVDs e curtindo demais. Portanto, fica evidente que a relação minha com a banda é muito mais visceral do que estas pequenas discordâncias. É por conhecê-los tanto que me permito questioná-los. “Iron Maiden – En Vivo” vale muito a pena perder duas horas assistindo. Ele está inteiro na internet, mas os fãs de verdade compram os DVDs da mesma forma, o que demonstra que o Iron Maiden tem muitos anos de história ainda.

Achei “Running Free” para colocar nesta postagem.Up the Irons.

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1 comentário

Arquivado em DVD, Iron Maiden, Música, Show

Uma resposta para “DVD: “Iron Maiden – En Vivo”

  1. luiz carlos assumpção

    curto desde 1975 a melhor heavy metal do mundo zuza sorocaba.

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