As mortes e a morte de Pacúvio

“Sono e seu meio-irmão Morte”, quadro de John William Waterhouse. Gosto de pensar que o sono é a antecipação lenta da morte, e que a morte é um grande sono. Não é um grande consolo, mas o Sêneca gostaria dele.

Deve ser estranho ser o último. Último da fila, último a chegar no trabalho, último a sair do baile à fantasia. O mundo não foi feito para os que ficam nas derradeiras colocações.

O que dizer de ser o último da família? Às vezes eu penso nisto, em especial após ver pessoas idosas chegando no escritório e dizendo que são os últimos das respectivas famílias. Não possuem ninguém para cuidá-los, ninguém para se preocupar, ninguém para lembrar.

É uma operação complicada. A pessoa percebe estar velha e constata que está sozinha. Mas, como todo humano, quer lutar pela vida, mesmo quando ela escapa entre os dedos. É mais difícil do que imagina, tudo se torna extremamente complexo. Por exemplo, esta pessoa precisa se alimentar e, para tanto, necessita de comida. Como irá carregá-la? Quem irá ajudá-lo? Quem pode acompanhá-lo nas refeições? Comer sozinho é uma experiência devastadora para muitas pessoas, em especial aquelas que ainda convivem com os ecos de um passado cheio de movimento e vida. Outro exemplo: precisamos conversar de vez em quando. Com quem falar? Sozinho? Com pessoas escolhidas a esmo pelas ruas? Com as paredes? Para pessoas que ainda recordam antigas conversas, deve ser uma experiência ainda mais frustrante não ter um interlocutor. Tão decepcionante quanto jogar xadrez contra si próprio.

E isto que eu nem falo do toque, da presença cálida de outro ser humano, da sensação de estar próximo a alguém em coração e espírito. Também não falo do horror que deve ser a ideia de que toda a história da família na Terra estará acabada com o seu último respirar.

Sêneca conta sobre um homem saudável chamado Pacúvio, que todos os dias realizava o próprio funeral com os necessários detalhes ritualísticos,  encerrado com um banquete. Após este momento, ele era levado da mesa para a cama em um esquife, enquanto convidados e criados cantavam músicas de despedida.

Pacúvio se acostumava com a ideia da morte. Uma vez por dia, ele morria. Passava por todo o ritual e via os entes amados chorarem a sua perda. Para Sêneca, um exemplo perfeito de estóico: acostumando-se à ideia da morte, ele saberia como se portar de forma digna quando chegasse o verdadeiro fim.

Eu penso que Pacúvio não encenava a morte para se acostumar a ela, mas sim para poder ressuscitar após o funeral. Imagino o Pacúvio “ressuscitado” punindo o criado que não cantou com muito entusiasmo, o convidado que bocejou no momento mais dramático, a esposa que não gritou com suficiente desespero. O segundo sonho de todo vivo é assistir aos seus rituais de despedida e ver se as pessoas se comportam de forma apropriada. O primeiro, obviamente, é que a vida não passe de sonho, e morrer seja o verdadeiro início.

Sêneca não falou sobre a morte de Pacúvio, a última. No entanto, duvido que tenha sido da mesma forma que os ensaios. Assim como não pode ser prevista, a morte se reveste de particularidades e lógica que escapam de qualquer ensaio. Sabendo que Pacúvio não iria levantar, acredito que todo o ensaio se desfez, que as mesquinharias surgiram, que a comida esfriou, que os cantos cessaram, que a herança foi dividida ainda sobre o cadáver lívido. No entanto, de tanto encenar a morte e pensar de forma egoísta na sua partida, Pacúvio não percebeu que o seu maior tesouro era ter pessoas que pranteassem ou maldizessem o seu corpo. A indiferença ainda é o sentimento mais doloroso que qualquer um pode experimentar.

E, assim, retorno ao último, aquele que vai morrer sozinho e encerrar a trajetória da sua dinastia sobre o planeta. Imagino a sua solidão, pior que a morte. Penso no silêncio que o cerca, quase palpável, quase uma presença.  Ele não precisa ensaiar a morte, pois ela já está sentada ao seu lado. O frio da sua casa vazia deve remeter à tumba.

Às vezes, a morte leva pessoas que não mereciam partir. Em outras vezes, contudo, a morte prorroga a vida daqueles que já estão mortos.

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Arquivado em Estoicismo, John William Waterhouse, Morte, Sêneca

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