Montaigne e as vigas da sua biblioteca

O que uma biblioteca pode dizer a respeito do seu proprietário? Considerando-se que é o lugar onde os livros de uma pessoa se acumulam, uma biblioteca pode ser mais reveladora do que qualquer outro teste. É interessante que ninguém até hoje tenha se preocupado com a trajetória de leitura de uma pessoa; currículos podem ser aumentados, diplomas podem não representar o conhecimento real, cursos podem ser meros papéis ostentando uma assinatura e letras. No entanto, livros não podem ser mascarados; o gosto pela leitura de alguém revela mais da personalidade do que qualquer outra análise.

Estou lendo uma biografia do filósofo francês Michel de Montaigne (existirá uma resenha nos próximos dias), chamada Como Viver ou uma biografia de Montaigne em uma pergunta e vinte tentativas de resposta. Ele é o autor de Os Ensaios, um livro gigantesco que reúne considerações filosóficas, pensamentos, observações sobre o mundo e muita ironia. Não conheço ninguém que tenha lido Os Ensaios de forma completa, até por que a estrutura fragmentária e caótica pede uma leitura ocasional, sem tempo definido, descompromissada.

Durante a minha leitura da biografia, deparei-me c0m uma deliciosa descrição da biblioteca que Montaigne mandou fazer. Antes de construí-la, o filósofo sofreu um grave incidente e quase perdeu a vida. Diante da proximidade da morte, e após a sua lenta convalescença, ele decidiu abandonar as suas tarefas públicas e os cargos políticos da sua família para se encerrar na biblioteca e dedicar o resto de vida para escrever. Mas, para tanto, foi necessário construir um ninho, um porto seguro, onde fosse capaz de esvaziar a mente das preocupações do cotidiano. Desta forma, Montaigne construiu a sua biblioteca, uma torre ao lado da casa onde o resto da família residia, e nela se entricheirou por muitos anos, escrevendo os seus ensaios. A biblioteca existe até hoje (virou uma obra conservada pelo patrimônio histórico) e as fotos seguem abaixo.

A torre onde ficava a biblioteca. Embaixo, era uma capela. No sótão, ficava o local de trabalho e de reflexão de Montaigne.

Outro ângulo.

O projeto da biblioteca foi igualmente revolucionário. Como a torre era circular, Montaigne queria que as prateleiras dos livros também seguissem este formato, circundando o recinto. Não se sabe quem foi o arquiteto ou construtor que as projetou, mas, no século XVI, foi uma grande proeza. As prateleiras originais não existem mais, mas uma reconstrução foi idealizada, como se pode ver na imagem abaixo.

Simulação de como a biblioteca seria.

No entanto, estes detalhes não eram suficientes para transformar a biblioteca de Montaigne em um lugar único. Na minha opinião, o que realmente lhe deu charme e estrutura foram as vigas que sustentavam a sua estrutura. O filósofo mandou gravar frases dos mais variados pensadores gregos e romanos, assim como trechos da Bíblia (em especial do mais sábio livro, o Eclesiastes). Estas frases seriam lembretes da vida que Montaigne buscava. Não é tão difícil imaginar o francês baixinho (estima-se que tinha pouco mais de um metro e meio) sentado na sua biblioteca, as mãos cruzadas atrás da cabeça, lendo e relendo as frases das vigas que, com a sua sabedoria ancestral, insistiam em lhe sussurrar lições e recordações de um passado longínquo.

Foto das vigas.

Outra foto das vigas.

As frases são muito interessantes e irei transcrevê-las já traduzidas para o português, pois, nas vigas, elas estão no seu idioma original:

1 – Para o homem o extremo da ciência é considerar boas as coisas que acontecem e não se preocupar com o restante.

2 – O desejo de conhecer foi dado por Deus ao homem para seu tormento.

3 – O ar infla os odres vazios; a presunção infla os homens sem discernimento.

4 – Tudo o que há sob o sol está sujeito à fortuna e à lei.

5 – Pois a vida mais feliz é não ter pensamento.

6 – Isso não é desta maneira mais que daquela outra ou de nenhuma das duas.

7 – Há em nós uma noção do grande e do pequeno mundo das coisas que Deus fez em tão grande número.

8 – Vejo com efeito que todos nós, tanto quanto somos, nada mais somos que fantasmas e sombras diáfanas.

9 – Oh desventurados corações dos homens! Oh inteligências cegas! Em que trevas e em meio a quantos perigos se escoa esse pouco tempo que vivemos!

10 – Quem conta com sua elevação será derrubado pelo primeiro infortúnio que ocorrer.

11 – Todas as coisas, céu, terra e mar, nada são, perto da totalidade do grande todo.

12 – Viste um homem que se julga sábio? Há mais a esperar de um insensato do que dele.

13 – Pois que ignoras como a alma é unida ao corpo, não conheces a obra de Deus.

14 – Pode ser e pode não ser.

15 – O bom é admirável.

16 – O homem é de argila.

17 – Não sejais sábios a vossos próprios olhos.

18 – A superstição obedece ao orgulho como a seu pai.

19 – Deus não permite que ninguém além dele se orgulhe.

20 – Não deves nem temer nem esperar teu último dia.

21 – Homem, não sabes se isto te convém mais que aquilo ou ambos igualmente.

22 – Homem sou, e nada que é humano me é alheio.

23 – Não sejas mais sábio do que é preciso para que não te tornes insensato.

24 – O homem presunçoso de seu saber ainda não sabe o que é saber.

25 – O homem que nada é, se julga ser alguma coisa, está seduzindo a si mesmo e se enganando.

26 – Não sejais mais sábios do que é preciso, mas sede sobriamente sábios.

27 – Nenhum homem soube nem saberá nada de certo.

28 – Quem sabe se a vida é o que chamamos morte e se morrer é viver.

29 – Todas as coisas são difíceis demais para que o homem possa compreendê-las.

30 – Há grande possibilidade de falar tanto a favor como contra.

31 – O gênero humano é muito ávido de narrativas.

32 – Quanta inanidade em todas as coisas!

33 – Vanidade em todas as coisas.

34 – Guardar a medida, observar o limite, siga a natureza.

35 – Por que te glorificares, terra e cinza?

36 – Ai de vós que sois sábios aos vossos próprios olhos!

37 – Desfruta agradavelmente o presente; o restante está fora de teu alcance.

38 – A todo argumento pode-se opor um argumento de mesma força.

39 – Nosso espírito vagueia nas trevas; cego, não pode discernir a verdade.

40 – Deus fez o homem semelhante à sombra, que julgará depois do ocaso do sol.

41 – Não há nada certo exceto a incerteza, e nada mais miserável e mais orgulhoso que o homem.

42 – De todas as obras de Deus, nada é mais desconhecido ao homem que o vestígio do vento.

43 – Cada qual tem suas preferências entre os deuses como entre os homens.

44 – A opinião que tens de tua importância te porá a perder, porque te julgas alguém.

45 – Os homens são atormentados pelas ideias que têm sobre as coisas, não pelas próprias coisas.

46 – Convém que um mortal não eleve seus pensamentos acima da humanidade.

47 – Por que cansares teu espírito com eternos cuidados que estão acima de teu alcance?

48 – Os julgamentos do Senhor são um grande abismo.

49 – Nada decido.

50 – Não compreendo.

51 – Mantenho-me na dúvida.

52 – Examino.

53 – Tomando como guias os costumes e os sentidos.

54 – Pelo raciocínio alternativo.

55 – Não posso compreender.

56 – Nada mais.

57 – Sem se inclinar para lado algum.

Lendo estas frases, é impossível deixar de pensar que elas são uma espécie de poética, seguida à risca por Montaigne. É possível encontrar as mais diferentes variações de temas, que vão desde alertas simples até instantes de pura motivação. Eu adoraria realizar um estudo completo do significado e dos entrelaçamentos delas entre si e com as suas fontes de referência, mas suspeito que seria o trabalho de algumas vidas. Por exemplo, as frases das vigas 50 e 55 aparentemente são redundantes, pois quem não compreende também não pode compreender. No entanto, analisando-se ambas mais a fundo, percebe-se que existe uma grande diferença entre não compreender algo e lembrar-se que não pode realizar tal entendimento, pois compreender é destruir a liberdade do pensamento e a própria magia inerente ao desconhecido. Não compreendo é a enunciação de um fato e da incerteza; não posso compreender é um lembrete dos perigos de se esgotar o entendimento sobre determinado assunto.

No entanto, o que acabou chamando minha atenção foi a necessidade de Montaigne de escrever tais frases nas vigas da sua biblioteca, no local que escolhera para realizar a sua obra. Além do desejo de se sentir acompanhado pela sabedoria dos sábios e pensadores que mais respeitava, retirando um pouco da solidão do ato de criar, acredito que Montaigne também protegeu-se no interior de um pentagrama de sabedoria, isolando as influências externas, inventando um habitat excluído do mundo. A sabedoria e as palavras são capazes de durar para sempre, tanto que até hoje os lembretes de Montaigne ainda podem ser vistos, permitindo-nos saber o cadinho de pensamentos que constituiu o homem.

No mundo atual, um fenômeno chama a minha atenção: quanto pior ou mais tosca for a ideia, mais difundida e apreciada ela é. O  anti-estético tornou-se arte. Nas redes sociais, vejo muitas pessoas glorificando o ruim, o feio, o desconfortável, o constrangimento alheio. Muito mais difícil do que isto seria achar o genuinamente belo, o agradável a todos os sentidos, o límpido e o suave. Parece-me que a maioria das pessoas são incapazes de criar a beleza e, por este motivo, preferem saudar aquilo que as torna iguais. E, assim, se sucedem artistas tentando criar obras de arte intragáveis do ponto de vista estético, livros desprovidos de clareza e repletos de inovações, esculturas obscenas e distorcidas, músicas sem nenhuma harmonia ou com letras medíocres. E as pessoas chamam isto de expressão artística, disseminando-as pela mídia como uma forma moderna de abordar de arte. Na minha opinião, continua sendo o que sempre foi, independente do rótulo: uma porcaria. Não me inspira nada, somente pena.

Montaigne sabia a verdade que vem desde Aristóteles: para sermos melhores, temos que nos inspirar nos melhores. Na corrida atual que busca o mais feio ou o mais tosco, muitos participam por louros fáceis, efêmeros. Contudo, os lembretes colocados por Montaigne nas vigas da sua biblioteca continuam ecoando a sabedoria do passado. Poucas obras dos nossos dias poderiam ter a honra de serem escritas em vigas para a Eternidade, pois sua vida útil não passa de uma semana.

Eu imagino Montaigne sentado na biblioteca, refletindo, a pena na mão e os olhos detidos nas frases do passado. Com a companhia silenciosa de gigantes, não surpreende que ele tenha escrito Os Ensaios. A moderação e a humildade sugerida nas frases passam para a sua produção filosófica. Montaigne lia as vigas não somente para se inspirar, mas para lembrar que era um ser humano.

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Arquivado em Biblioteca, Estética, Filosofia, Montaigne

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