Esperança, esta coisa ilógica

No arco infindável das coisas que eu não estava mais acostumado a fazer, ontem realizei outra: uma saída noturna para beber e conversar com amigos literatos. A vida de escrever e ler é uma existência eremita, por natureza. No entanto, às vezes é necessário interagir com outras pessoas, em especial quando as estimamos e temos prazer com a sua companhia. Foi um período agradável, nem vi as horas passarem.

Mas não é deste assunto que desejo falar.

Como chegamos no bar Dublin durante o happy hour, aquele horário indefinido que vai das 19:30 às 22:30, muitas pessoas recém saídas do trabalho ainda estavam espalhadas pelas mesas. O público majoritário era masculino, as mulheres estavam em ampla desvantagem. Tal fato não teria chamado a minha atenção se a maioria não fosse realmente esmagadora. Quando chegou 22:30, as portas da pista de dança abriram atrás da nossa mesa. Neste momento, boa parte dos homens que estavam sentados ao redor levantaram e se dirigiram até estas portas, desaparecendo no meio da nuvem de gelo seco.

Confesso que tal fato me espantou. Será que os homens imaginavam que a abertura da pista de dança iria materializar mulheres em um local onde elas não existiam? Como esta é uma impossibilidade das Leis da Física, e como acredito que eles não estavam a fim de dançar com outros homens (alguns até estivessem, mas não todos), só posso atribuir que eles ficariam em um ambiente repleto de homens esperando que alguma incauta entrasse para dançar.

(Pausa necessária para uma informação importante: ontem era véspera do Dia dos Namorados. Aqueles caras deviam estar sem namorada e, sabendo que muitas mulheres ficam sensíveis nesta época de consumo e de mensagens de amor espalhadas aos quatro cantos, talvez estivessem esperando que alguma delas, em nítido desespero, aparecesse atrás de um amor de ocasião, de um príncipe encantado. Era uma possibilidade com, admito, boas chances estatísticas de acontecer).

Não entrei para ver como a história terminava, as melhores histórias são as que terminam dentro da cabeça. Algumas mulheres até foram para a pista, mas em quantidade muito menor do que a de homens. Horas mais tarde, refletindo de forma irônica sobre o que tinha presenciado e brincando com a ideia da materialização de mulheres em pistas de dança (explicaria tanta coisa), um pensamento surgiu e, com ele, veio a compreensão definitiva. Eu tinha enxergado a esperança.

Sim, eu sei que a esperança é um sentimento, mas ela pode ser transformada em pessoas, em atitudes, em situações. Como o torcedor que vê o seu time perder de cinco a zero e ainda acredita ser possível uma virada milagrosa, como a pessoa doente que espera uma salvação de última hora para o seu infortúnio sem cura. O que levou aqueles homens a ingressarem em uma pista de dança sem mulheres não foi o desejo de que elas se materializassem subitamente, dançando de forma libidinosa no meio do gelo seco, mas a esperança de que uma determinada mulher entrasse no ambiente, no meio de uma música ainda desconhecida, olhasse outra pessoa e o sentimento surgisse como um relâmpago no meio de um dia de sol. Aqueles homens tinham esperança – e, quem tem esperança, sempre pode ser surpreendido.

(Segunda pausa necessária: impossível falar de esperança sem lembrar de uma das maiores sequências da história dos quadrinhos, presente em “Prelúdios e Noturnos”, escrita pelo mestre Neil Gaiman. Sandman está no Inferno, jogando com um demônio o jogo mais antigo do mundo, “o que é maior”. O demônio pensa ter encurralado o Sandman, quando afirma “Sou a Antivida, a Besta do Julgamento. Sou a Escuridão no fim de tudo. O fim de universos, deuses, mundos… tudo”, convicto de que nada pode superar esta afirmativa. De braços cruzados, Sandman responde: “E eu sou a Esperança”. Não existe nada maior do que ela, nada capaz de derrotá-la… e o demônio perde. Momento lendário).

Mesmo os homens que estavam procurando um amor fácil, rápido e com uma pitada de desespero também tinham esperança de achar a coisa real. Por isto, deviam estar dispostos ao redor da pista como os acólitos de alguma seita, esperando chegar alguém que sequer sabem quem é. Poder estranho que tem este sentimento: não se sabe se a pessoa aparecerá, se ela não pensou que estava frio ou se chegou do trabalho cansada, mas, ainda assim, se espera, como se o milhão de acasos de que uma existência é formada pudesse confluir para aquele único segundo em que alguém entra em um ambiente, em determinado momento, sob certas circunstâncias, e o vínculo se forma, tão natural como respirar, tão imprescindível como a vida. E tudo começa com uma simples e fugaz esperança.

Nesta época do ano em que se fala tanto no amor, com uma quantidade impressionante de pieguices e constrangimentos, eu pensei naqueles que ainda esperam tal sentimento, naqueles que ainda acreditam. Ter esperança é o que nos diferencia dos animais. Eu nunca vi uma estátua dedicada à esperança, nunca vi uma rua com o nome dela, não sei de nenhum dia em que se comemora o ato de acreditar no imponderável, nunca soube de alguém que a tenha perdido por completo. No mais fundo, na gaveta mais escondida, sempre existe um resto de sonho. E, com ele, mora a esperança, este ser irracional, ilógico, ranzinza, e que joga contra todas as probabilidades estatísticas. Um ser que aposta contra os homens – mas torcendo para que eles ganhem.

Não existe lógica alguma em ter esperança. Ainda assim, esperamos.

O Google Imagens deve ficar louco com as minhas buscas. Coloquei "esperança" e apareceu uma longa série de clichês. Melhor deixar a imagem do Sandman enfrentando os demônios, armado somente com a esperança.

O Google Imagens deve ficar louco com as minhas buscas. Coloquei “esperança” e apareceu uma longa série de clichês. Melhor deixar a imagem do Sandman enfrentando os demônios, armado somente com a esperança.

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2 Comentários

Arquivado em Crônicas, Dublin, Impressões, Lugares, Neil Gaiman, Porto Alegre, Produção Literária, Quadrinhos

2 Respostas para “Esperança, esta coisa ilógica

  1. Gustavo, parabéns pelo texto. Consegues ser mais observador que eu. Vivemos em um mundo de imediatismos. Por isso, muitas pessoas consideram certos indivíduos como produtos. Talvez, o meu comentário seja machista, mas as mulheres não se valorizam. Quem sabe, os homens estavam mesmo atrás de algo duradouro. Ou não. De que adianta andarem em seus super carros, verdadeiras máquinas, se nem estrada temos? Eu ainda sou do tempo da boa educação e de uma boa conversa – e que se sustente, de preferência. Espero que tenhamos outros encontros. Voltei para casa muito contente. Diria que até feliz, pois posso chamá-lo de amigo. Beijo!

    • Oi, Kelli, foi realmente uma noite muito agradável. E o fato que eu narrei chamou a atenção pelo contrário do que os outros pensam. Muita gente pensa que homens ou mulheres saem na noite para “caçar”, mas, na verdade, acredito que eles saem por uma questão de esperança. Se as intenções são nobres ou não, é imposível saber. mas ter esperança é sempre algo que deve ser destacado.

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