Ópera: “Così Fan Tutte”, de Mozart

 

Cena do casamento, em “Così Fan Tutte” – Porto Alegre, junho de 2012.

Noite de sábado, noite de ópera. Há tempos não ia no Theatro São Pedro. Há tempos não ia na ópera também. Recordei o meu breve histórico de óperas: assisti “A Flauta Mágica”, “Tosca”, “O Barbeiro de Sevilha”, “Don Giovanni” e “Carmem” (uma vez); dormi em “Cavalleria Rusticana” (deve ter sido um sono profundo, por que somente o libreto na minha gaveta ainda lembra que estive na ópera) e dormi na segunda vez que fui assistir “Carmem” (era uma montagem longa, se não em engano de três horas e eu, obviamente, fiquei com sono). Pode ser que tenha assistido mais alguma, mas não estou recordando e, se não lembro, foi por que não deixou nenhum impacto maior na minha vida.

Óperas de Mozart sempre são interessantes. As histórias são quase tão boas quanto as músicas, e “Così Fan Tutte” é um ótimo exemplo disto. A história de dois homens que colocam a fidelidade das suas mulheres à prova é repleta de fatos burlescos e reviravoltas espantosas, típicas de um novelão mexicano. Ainda é impressionantemente atual, apesar de um pouco machista. A ideia de que todas as mulheres traem e os homens são ingênuos marionetes não deve ter arrancado muitos sorrisos das mulheres da época (e nas de hoje menos ainda), mas, como é uma comédia, esta própria noção descontrói a seriedade da mensagem. Acho que o termo certo seria “comédia de situações”, pois a ação cômica se desenvolve no meio das situações geradas para o conflito.

Particularmente, no aspecto da história, eu acho delicioso que uma das mulheres vai correndo trair o namorado, e a outra ainda hesita e só cai depois de muita lábia. Seria atípico que duas mulheres agissem de forma idêntica, e Mozart pegou bem este detalhe. Mas também gosto muito da figura mefistofélica de Don Alfonso, um homem experiente no trato com as mulheres e que sabe as maneiras de colocar os sentimentos dos jovens à prova. Sempre fiquei curioso em saber como a situação daquele par de duplas se desenvolveria após o término da obra: será que continuariam amigos? Será que a amizade continuaria da mesma forma inocente do início da ópera? Será que eles conseguiriam reconstruir os laços que os uniam? Será que eles nunca ficariam com dúvidas depois que se afastassem, se as mulheres estariam traindo-os ou não? Todas as respostas para estas minhas dúvidas são cínicas: acredito que eles se acostumariam com esta situação, se ajustariam a elas e nunca mais tocariam no assunto – o que seria uma péssima maneira de resolver as questões, mas a única lógica.

Gosto muito das óperas de Mozart por causa do tratamento que ele dá para as vozes femininas. Em todas as óperas, elas se destacam, e os trechos que as mulheres cantam geralmente são os mais desafiantes. Bem, os violinos também se salientam da multidão na orquestra, mas eu sempre achei isto um hábito em Mozart. Desta vez, eu estava na primeira fila da plateia (mais dois passos e estaria no palco), e ter um acesso tão íntimo à ópera me propiciou ver o cuidado com que ela foi escrita, em especial os momentos em que um cantor inicia uma frase e os outros vão se somando até terminá-la, os diferentes momentos em que o canto interage com a música (é impressionante como a letra casava bem com a melodia, tornando-se quase indissociável ou acrescentando novas notas nela) e as falas dissonantes no cantar tratando algo diferente do que os outros estão cantando, criando um contraponto dentro do próprio discurso (em alguns momentos, todos os cantores estavam falando a mesma linha e um cantor único, no mesmo tom e na mesma melodia, estava falando algo completamente diferente, que poderia até passar despercebido para um incauto, mas que acrescentava novas variações à música e possibilidades à história). Não imaginava que Mozart tivesse tantas escalas e tantos degraus de compreensão dentro de uma mesma obra, gerando novas chaves de interpretação. Foi uma experiência fascinante, deu vontade de ouvir as outras para procurar estas nuances.

No caso da montagem da ópera em Porto Alegre, não gostei da intervenção do narrador. Um homem aparecia a intervalos para dizer que o público estava assistindo uma ópera e que a história seria assim e assado. Gerou um sério problema na quebra da verossimilhança do espetáculo, pois parecia que o homem estava dizendo que estávamos assistindo algo ficcional, quando o grande objetivo de qualquer representação artística é fazer com que os espectadores e público interajam com a história como se fossem parte dela. Se alguém vem e diz “você está assistindo uma ópera que trata de tal assunto”, não existe maneira do espectador se envolver, pois um muro foi criado entre ele e a história, o espectador sabe de antemão que é tudo mentira.

Se o problema fosse só este, já seria incontornável e um assassinato da verossimilhança, mas piora. A pessoa que escreveu o texto lido pelo narrador não era, evidentemente, um escritor de verdade. Além dos clichês e das piadinhas (entremeados por um desejo patético de criar polêmica explicando os motivos pelos quais as mulheres deviam se indignar com a visão machista do compositor), ele conseguia a proeza dupla de explicar a cena que os espectadores tinham visto (e que era compreensível por si só) e ADIANTAR o que ia acontecer na cena posterior, tirando toda a graça do que ainda ia ser assistido. Quando ele aparecia no palco, eu pensava “pronto, lá vem o estraga-prazeres!” – e o cara estragou o desfrute da ópera toda vez que surgiu. Está errado isto aí. Sorte que o Mozart sobrou na concepção das músicas e, assim, compensou a tentativa de ruína do seu trabalho por um grupo de arranjadores do futuro. Isto que é ser imortal: conseguir estar além das tentativas de destruição da obra, das que ele consegue ver até aquelas que espreitam no futuro.

Os cantores foram todos excepcionais. Não gostei muito do tenor, mas não comprometeu a estrutura do trabalho. A mezzo-soprano e a soprano estavam de tirar o fôlego, interpretações brilhantes e canto mais ainda. Destaque especial para a empregada, que deu um show de interpretação, vivacidade e alegria desde o momento em que entrou no palco, interpretando uma mulher interesseira e muito malandra (sem contar que cantava maravilhosamente, seja com a própria voz, seja imitando outras vozes em falsete – o que acredito ser muito difícil de fazer). A orquestra estava irretocável. Não devia fazer este tipo de comentário, mas a Orquestra de Câmara do Theatro São Pedro deu uma bela melhorada desde o passado em que eu costumava frequentar os seus concertos, está quase me convencendo a rever antigos preconceitos há muito arraigados.

Os atores e cantores da montagem gaúcha, segundo a Zero Hora Digital

Um destaque negativo foi a ausência de libreto. É um paradoxo que, na época de Mozart, com menos recursos gráficos e tipográficos, sempre tinha libreto e, atualmente, para conter custos, eles tenham sido abolidos. Eu gosto de libretos. Além de serem ótimas recordações para quem gosta da história, eles são um atrativo a mais na ópera. Não podemos nos esquecer que a ópera é (segundo alguém que não lembro) a única expressão humana que reúne todas as demais expressões artísticas (canto, dança, literatura, pintura, música, escultura) e a decisão de não publicar os libretos matou a literatura, que é essencial. Menos mal que existem outros libretos desta ópera disponíveis na internet, mas é uma tradição que está sendo perdida.

Contudo, apesar dos percalços, eles foram poucos para prejudicar a fruição do espetáculo. Gostei muito de “Così Fan Tutte”, foi uma experiência muito agradável. O tempo não passou enquanto a plateia voltava à época de Mozart, revendo dramas e indagações que são atuais até hoje. Os cantores deram conta do recado e, apesar do cenário quase minimalista (outra tendência moderna para diminuir custos), o encantamento das músicas e a força da trama valeram muito a pena. Que venham mais óperas, estava sentindo falta delas.

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